Em ‘Criadas’, diretora aborda fantasma do racismo dentro da própria família
Ao investigar história da sua infância, objetivo de Carol Rodrigues era encontrar afeto e amor, apesar da violência
Cinema|Do R7, com RECORD NEWS
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Estreou nesta quinta-feira (11) o filme Criadas, da diretora brasileira Carol Rodrigues. Depois de marcar presença em festivais nacionais e internacionais, o longa-metragem chega às telonas com uma trama que aborda as camadas do racismo no Brasil, a partir de uma história compartilhada por duas mulheres.
No filme, as primas Sandra e Mariana (interpretadas pelas atrizes Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti) cresceram juntas na mesma casa, mas ocuparam espaços bem diferentes no lugar. Ao se reencontrarem, e à medida que se reaproximam novamente, fantasmas da infância e ressentimentos do passado vêm à tona com uma boa dose de drama psicológico.
Em entrevista ao Link News, a diretora, que também assina o roteiro, explica que a história é baseada em vivências de sua própria família. Sua avó chegou a São Paulo aos 14 anos para trabalhar como empregada doméstica. Aos 40, tornou-se funcionária pública e, ao experimentar uma ascensão social, passou a trazer primas do interior para trabalhar em sua casa, onde Carol cresceu.
“A gente tem essa perversidade, que hoje já está bastante criticada, de falar que, quando uma pessoa trabalha na sua casa, ela é ‘quase da família’. Na minha situação, elas eram da família mesmo. E isso era muito esquisito, muito estranho para mim. E eu queria investigar isso, queria investigar um pouco o meu pertencimento racial e entender o que é esse caldeirão”, diz.
Para a diretora, o mais importante na jornada que deu origem ao longa era mostrar como, apesar da violência herdada de uma situação como essa, é possível encontrar caminhos de afeto e de amor dentro de uma família. “Se não for para buscar soluções para a gente continuar junto, para mim não faz sentido fazer cinema.”
No processo de produção, que envolveu mais de oito anos de pesquisa, um detalhe inusitado: enquanto todo o elenco foi convidado para o filme, sem precisar passar pela fase de testes conhecida como “casting”, a diretora visitou 200 casas para escolher a locação da história. Segundo ela, o espaço também funciona como um personagem da trama.
“Apesar de o filme inteiro se passar nessa casa, a gente tem muitas transformações. A casa influencia, a casa tem manifestações, tem fantasmas na casa. [...] É um filme de ‘casa mal-assombrada’, mas é um bom assombro”, brinca. “São essas memórias que estão presentes nessa estrutura, essas memórias que estão presentes na nossa história, que fazem a gente ser o que a gente é e lembrar do amor que a gente perdeu pelo caminho.” É a casa que permite que a relação entre as protagonistas aconteça, Carol frisa.
Ela conta que teve receio de tratar de um tema tão sensível, mas que, nesse caso, o medo foi bom, pois ele é necessário ao abordar algo tão delicado quanto inédito no cinema brasileiro. O colorismo, tabu mesmo para famílias negras, é o propulsor do enredo de “Criadas”. “Se você tem a pele mais clara, como é o meu caso, ou o cabelo mais encaracolado e não crespo, você está num nível mais próximo desse padrão. Você tem mais acesso, as pessoas escutam você, tendem a acreditar no que você coloca, você tem mais oportunidades de trabalho. Você sofre, mas não tem as faces mais tenebrosas do racismo”, explica.
Mas, apesar da dificuldade em abordar o tema, a diretora acredita que o filme veio no tempo certo.
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