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Filme sobre Gal Costa busca dar voz à mulher no Tropicalismo

Em entrevista ao R7, uma das diretoras diz que projeto utilizará o início do movimento como um recorte para abordar toda a trajetória da cantora

Cinema|Eugenio Goussinsky, do R7

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"Escolha de Sophie": Gal Costa ficou entusiasmada com a opção pela atriz
"Escolha de Sophie": Gal Costa ficou entusiasmada com a opção pela atriz

Após o sucesso do documentário O Nome Dela é Gal, sobre a vida de Gal Costa, na HBO, a diretora da produção, Dandara Ferreira, encontrou espaço para continuar realçando a obra da consagrada cantora baiana.

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Ao lado de Lô Politi, ela irá dirigir um longa-metragem de ficção, produzido pela Paris Entretenimento, sobre a intérprete, um dos símbolos do Tropicalismo, movimento musical que ajudou a retratar o Brasil na segunda metade dos anos 60.

"Tudo (o documentário e o longa) partiu, primeiro, pelo fato de eu ser fã de Gal Costa e, segundo, porque não tinha nada fimado sobre ela. Tinha muita coisa sobre Bethânia, Gil e Caetano. Fiquei curiosa, como cineasta, para conhecer e mostrar tudo o que não tinha. Achei que era o momento, a Gal está viva e queria que ela contasse um pouco da sua história para o público", disse Dandara ao R7.


As filmagens começarão no fim deste ano e a atriz escolhida, Sophie Charlotte, já se dedica à personagem, tendo vivido por um tempo em Salvador, para sentir a atmosfera que embalou a infância e a adolescência de Gal, hoje com 73 anos. Sophie também frequenta aulas de canto e violão. A previsão é de que a obra seja lançada no fim de 2020.

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A própria Gal ficou entusiasmada com o fato de ser interpretada pela atriz, conforme contou Dandara.

"A Gal ficou empolgada, disse que a Sophie canta Sua Estupidez no mesmo tom que ela. A Gal viu a Sophie cantando essa música no especial do Roberto Carlos e disse que as mulheres em geral não chegam ao tom que a Sophie alcançou. Fui atrás e, quando apresentei o projeto, já mostrei com o vídeo da Sophie cantando, e a produtora adorou a ideia. Para um filme com essa repercussão, é preciso que seja uma atriz de alto nível, mas também com alcance comercial."


O longa não será uma história da vida de Gal, diz Dandara. O projeto buscará retratar a personalidade e a trajetória da cantora a partir de um recorte da carreira dela: o início do Tropicalismo.

Mas, por mais libertário que o movimento fosse naqueles anos, seus porta-vozes mais procurados pela mídia sempre foram homens, segundo Dandara. No filme sobre Gal, o objetivo da cineasta é dar voz às mulheres deste movimento.

"Quem sempre fala são os homens do Tropicalismo. Gal sempre foi muito importante, mas ficava sempre atrás em termos de representação do movimento. O filme é sobre esse momento difícil, com a ditadura, e ao mesmo tempo incrível que o país vivia, no olhar dessa mulher também incrível, contando uma história que geralmente é contada pelos homens."

Início de tudo

O Tropicalismo nasceu com graça. No bairro da Graça. Tem tudo a ver com Gal, que se chama Maria da Graça. O movimento foi uma versão brasileira do Paz e Amor do Woodstock e, conforme afirma Maria Bethânia no documentário, foi criado em função das amizades entre seus protagonistas. Gal foi apresentada ao jovem Caetano em 1963, por meio de sua amiga Dedé, que se tornou esposa do cantor.

Aquela longínqua reunião na galeria Bazarte serviu como um marco. A jovem promissora, desde criança apaixonada pela música, cantou para Caetano, que, já cético, buscava uma intérprete para parceria.

Assim se iniciou essa nova relação, à imagem e semelhança daquele tempo, um novo capítulo começou a ser escrito na história da cultura brasileira. O contexto foi muito bem entendido pelo produtor Guilherme Araújo, que direcionou o Tropicalismo para as tendências da época.

Gal logo participou de um show com Caetano, ainda como Maria da Graça, no palco do Teatro Vila Velha, em Salvador. Também participaram Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé. Logo depois, Araújo criou o nome artístico Gal, que se perpetuou.

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Outra figura importante foi Regina Boni, idealizadora dos novos figurinos, que passou a frequentar o mesmo ambiente dos artistas, a convite de Chico Buarque. Mesmo sem ser figurinista, ela percebeu que os jovens Gil e Caetano se vestiam de forma antiquada, principalmente se comparada à mensagem ousada contida em suas músicas.

Regina criou então um novo conceito para a moda da época, cheio de cores e trajes, muitos deles feitos inclusive a partir de desenhos vistos em toalhas de mesa e outras peças. Ela foi proprietária da loja Dromedário, em São Paulo.

O Tropicalismo veio embalado pela brisa marítima, num sopro de liberdade interior, em meio à ditadura no Brasil, numa Salvador que, ainda distante dos maiores centros, encantou o país, por meio de jovens que revolucionaram com uma mensagem de amor.

É verdade que Gal, inicialmente, era mais "voz e violão", pura admiradora que era do estilo de João Gilberto na Bossa Nova. Pode-se dizer que ela foi uma espécie de ponte entre a Bossa Nova e o Tropicalismo, do qual passou a ser uma das protagonistas. Em 2002, essa atuação ficou formalizada no disco "Bossa Tropical."

O ponto de transição da carreira de Gal foi em 1968, em um dos festivais da TV Record, quando a instrospecção deu lugar a uma exuberância que pedia passagem, no momento em que ela se soltou no palco, cantando "Divino e Maravilhoso."

Linguagem poética

Por mais que o Tropicalismo fosse criticado por não combater diretamente a ditadura, a linguagem poética do movimento foi muito mais forte do que qualquer protesto. O timbre macio e envolvente de Gal não deixava, portanto, de ser revolucionário. Neste sentido, Dandara não concorda quando Caetano diz que o Tropicalismo morreu com o exílio dele e de Gil.

"A Gal ficou aqui no Brasil ainda como uma representante do movimento."

A convivência com Gal, durante as filmagens e entrevistas do documentário, ajudou Dandara a aprender a respeitar cada vez mais os limites da cantora, tida como introspectiva e discreta fora dos palcos. Dandara teve, inclusive, de mudar o projeto inicial, já que, em muitas ocasiões, encontrou dificuldades para se reunir com Gal.

"Tinha a intenção (no documentário anterior) de fazer tudo só com a Gal. Mas tive dificuldades e o projeto foi mudando, pois entendi que precisaria de ajuda para contar a história dela. Comecei a recorrer a outras pessoas próximas, como Gil e Caetano, que é a pessoa mais importante na carreira dela. O Nelson Motta, por seu conhecimento, também não poderia ficar de fora."

Mas, pelo fato de Dandara ter entendido a essência de Gal, a própria cantora se sentiu mais à vontade durante as gravações. No documentário, conforme conta a diretora, Gal fez revelações inéditas ao falar sobre seu pai, que acabou se separando de sua mãe para ir morar com outra mulher.

"É um assunto que ela nunca gostou de tratar. Até me surpreendi que ela falou sobre isso no documentário. Nossa combinação era não entrar em assuntos pessoais e respeitei."

O documentário foi realizado para coincidir com a data do lançamento do CD Estratosférica, em 2015. Foi lançado, em série de quatro episódios, apenas em 2017. A repercussão positiva, porém, fez a própria intérprete sugerir a realização de um longa tendo ela como protagonista, conta Dandara. 

"A ideia do longa foi dela, justamente ela que antes resistiu tanto. Depois do resultado do documentário, com críticas positivas, entrevistas, a Gal começou a gostar de ter participado. Então, por meio de sua assessora, Wilma, me procurou e me sugeriu que fizéssemos um filme. Quase morri de empolgação e mergulhei com tudo nessa nova empreitada."

Assim como no documentário, Gal deu total liberdade para a criação da obra. Dandara sabe que, por ser ficção, a própria interpretação dos artistas e o roteiro muitas vezes seguirão por um caminho próprio. E a poesia de Gal, enfim, vai virar romance.

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