Anná lança EP e videoclipe ousados para quebrar padrão estético
Feminismo e crítica ácida à gordofobia dão o tom da obra
Música|Juca Guimarães, do R7

A cantora paulista Anná está em plena campanha de divulgação do seu EP Pesada. O álbum, com seis faixas, é um rico documento sobre o combate à gordofobia, o machismo e a intolerância. A MPB modernosa com flagrância tropicalista da cantora faz com talento e bom humor uma análise precisa das superficialidades da sociedade moderna.
— Eu já tive bulimia e cheguei a tampar o espelho do meu banheiro por ódio ou vergonha do meu corpo. As pressões estéticas principalmente na adolescência são muito violentas.
Algumas letras, com pegada mais autobiográficas, traçam uma perfil bacana da trajetória da cantora, que tem uma relação muito forte e perene com a música, principalmente o samba.
Confira a entrevista exclusiva com a cantora que fará no final do mês o show de lançamento do álbum no Sesc Ipiranga.
R7: Quando e como você começou a cantar?
Anná: Canto desde criança. Estudei numa escola construtivista lá em Mococa, e eu e todo mundo que estudou lá nunca esqueceu das aulas de música da professora Egle Zamarian e da Suze Alegrya, desde os dois anos de idade. Eu costumo dizer que nunca comecei a cantar porque eu nunca parei, nunca não cantei, é uma coisa muito natural para mim.
R7: Como surgiu a ideia de partir para uma carreira de cantora profissional? Do que você já trabalhou antes? Fez ou está fazendo faculdade?
Anná: Nunca, nem nos meus mais grandiosos sonhos, eu imaginava que isso poderia acontecer. Viver de música nunca chegou nem perto de ser uma opção para mim, porque nunca tive referências de pessoas que viviam de arte, ainda mais em Mococa. O mais rebelde da minha família foi fazer Direito... Mas eu consegui forças para lutar para estudar cinema, que já causou um grande auê na minha cabeça e na dos meus pais. Me formei no começo desse ano com um curta documental sobre mulheres do samba e machismo - que inclusive vai passar no Festival Internacional de Curta Metragem de São Paulo. Trabalhei na área, ainda faço alguns freelas ocasionalmente. Mas o lance da música começou a ficar sério quando conheci meu companheiro, Samuel da Silva, violonista 7 cordas. Antes de conhecê-lo eu já cantava em alguns bares, mas eu não punha muita fé de que podia ficar sério. E meu companheiro me apresentou essa possibilidade concreta de viver de música, porque ele vive há mais de dez anos assim... Desde então estou nessa, mas ainda é novidade para mim, ainda não tenho certeza de que isso é possível. Mas vou tentar até quando puder aguentar.
R7: Na música Grosse, você canta que sofreu preconceito por ser gorda, aos 7 anos, numa aula de balé, como foi isso?
Anná: Toda mulher que fez balé sabe quão opressivo é este ambiente, em que existe uma luta contra seu próprio corpo. No balé clássico não existe gente gorda, mas até sete anos de idade eu nem percebia isso. Aconteceu que numa apresentação de fim de ano, dessas que a gente ensaia o ano todo, minha família foi assistir. No final, quando eu saí, minha mãe me parabenizou mas disse que eu estava enorme perto das outras meninas, que ia me colocar na nutricionista no dia seguinte. Ela me levou em muitas nutricionistas e até endocrinologistas para tentar me 'curar'.
Depois de alguns anos eu parei de dançar e quando tentava voltar me sentia a pior pessoa quando olhava para aquele grande espelho da sala de aula. Depois de algum tempo, morando em São Paulo já, conheci a dança afro, que me pareceu muito mais democrática com o corpo e me despertou muito interesse.
R7: Como surgiu a ideia da música Carta à Boa Forma? Qual foi a repercussão da música?
Anná: Ela nasceu da minha vontade de explicar a dor que muitas mulheres sentem ao olhar para o espelho, quando na verdade deveria ser algo delicioso. Eu já tive bulimia e cheguei a tampar o espelho do meu banheiro por ódio ou vergonha do meu corpo. As pressões estéticas principalmente na adolescência são muito violentas e deixam marcas na auto-estima de toda mulher. E são de fora para dentro, por isso se trata tratei de fazer uma carta para essa pressão externa. Minhas amigas costumam dizer que essa música virou um hino para elas. Em breve soltaremos o clipe da música, aí sim vamos sentir a repercussão.
R7: Quais as cantoras que você mais admira?
Anná: Adoro essa pergunta rs. Clementina de Jesus, uma verdadeira Rainha, inigualável. Elis Regina, gênia de afinação, divisão, postura de palco e interpretação. Clara Nunes, principalmente pelo repertório. E a Elza... porque simplesmente ninguém faz o que a Elza faz com a voz e ponto final.
R7: O samba é uma influência presente na sua música?
Anná: Com certeza. Tenho uma profunda admiração política e estética pelo samba. Política porque o o samba é revolucionário em muitos aspectos, principalmente na sua capacidade de levar o negro a tantos lugares. Como aquela música "Tempos idos" do Cartola e do Carlos Cachaça: "O nosso samba, humilde samba/ Foi de conquistas em conquistas / Conseguiu penetrar no Municipal /Depois de percorrer todo o universo". E estética acho que nem precisa explicar depois dessa música aí que citei.
Eu pesquiso muito samba, tenho um repertório de mais de 300 músicas, mas ainda não consigo compor samba. Tenho certeza absoluta que um dia gravarei um disco de samba cheio de 'brasas', como a gente costuma dizer nas rodas.
R7: Você é de Mococa, no interior de São Paulo, como foi morar no interior e como isso marca a sua música e as suas composições?
Anná: Olha, minha geração lá em Mococa teve o privilégio de estudar numa escola muito progressista - a Escola Nova de Mococa - que foi um projeto revolucionário de ensino encabeçado por duas mulheres, que infelizmente não existe mais. Para você ter uma ideia, minha primeira gravação foi com três anos de idade, porque a professora de música gravou um CD com os alunos das Escola. Acho isso muito maravilhoso.
E também tivemos acesso a um outro espaço muito experimental chamado "Kinder", que também não existe mais, que era uma escola de artes e música encabeçada por uma mulher muito a frente de seu tempo, Suze Alegrya. Não tenho dúvida das influências desses espaços na minha formação artística.
Mas na formação social as cidades de interior são muito conservadoras. É só eu chegar lá que eu sinto o cheiro da pressão estética, sabe? O diferente tem muita dificuldade de ser aceito, eu me sentia um patinho feio lá - e quando volto às vezes ainda me sinto -, ao contrário da liberdade e do anonimato da metrópole. Essa opressão do interior fez de mim uma panela de pressão que explodiu nessas músicas. E foi delicioso.

R7: A luta contra a gordofobia ainda, infelizmente, não tem espaço na mídia, por outra lado, nas redes sociais já é mais presente um movimento de resistência e luta. Você está acompanhando isso? Conhece os vídeos da Youtuber Alexandra Gurgel?
Anná: Eu não acompanho tanto queria. Não conheço Alexandra Gurgel, vou pesquisar. Mas vejo uma insurgência grande nas redes sociais, e a importância disso é imensurável. Eu mesma comecei a questionar os padrões e falta de representatividade quando minha amiga Ana Helena me apresentou o blog "Escreva, Lola, Escreva". Isso foi em 2012, e ainda lembro da força que o texto da Lola teve em mim, fiquei impactada por aquelas palavras que mostravam o outro lado da moeda, por entender as pressões estéticas a que estava exposta. Quando você cria consciência, por mais que ainda seja bombardeada por mulheres de photoshop, você é capaz de perceber a falta de realidade e a comercialização do corpo feminino.
Apesar de sentir essa insurgência, temo que isso seja apenas dentro dessa bolha de pessoas que trabalham com cultura, porque quando volto para Mococa sinto que a cabeça das pessoas não mudou nada. Por mais Lolas e Alexandras Gurgel!
R7: Quanto tempo levou para produzir e gravar o EP Pesada?
Anná: Lançamos a campanha do catarse em março, gravamos tudo ao vivo em três dias, em abril, mixamos e masterizamos em maio. De maio para cá estamos na luta para divulgar e fechar os shows.
R7: Quem são os músicos que te acompanham?
Anná: Tem uma coincidência de quase todos serem do extremo leste de São Paulo. O Samuel da Silva do violão e o Matheus Marinho da bateria são de São Miguel, o Allan Abbadia é de Guaianases, a Bruna Duarte do baixo é do bairro dos Pimentas em Guarulhos. Só o Pedro Romão percussionista que é do Rio de Janeiro e a Ângela Coltri dos sopros que é de Bauru, interior de SP igual a mim. A musicalidade periférica influencia muito no som, e é esse ingrediente que a gente busca.
R7: Quem é o pessoal que ajudou na gravação do EP?
Anna: Eu e Samuel fizemos os arranjos e produção juntos. A mixagem foi feita pelo Pedro Romão, gravamos tudo no Estúdio 185, e a masterização foi o Homero Lotito. Minhas grandes amigas Karoline Mendes e Rafela Petean filmaram e fizeram a direção de arte com ajuda da Isabela Lazarini. A capa do EP foi uma parceria com a Casa Dobra, dos amigos Anália Moraes e Daniel Wood. Os músicos que gravaram foram: Samuel Silva violão 7 e cavaco, Matheus Marinho na bateria, Allan Abbadia no trombone, Bruna Duarte no baixo, Pedro Romão na percussão e Junior Alves nos pífanos.
R7: Quais os seus planos para o futuro?
Anna: Minha mente trabalha com metas. A meta desse ano era terminar o EP e fazer show de lançamento no Sesc - que já está marcado para o dia 29/9 no Sesc Ipiranga. Para os próximos anos pretendo transformar o EP em CD, seguindo essa linha autoral, fazer um lançamento no Auditório do Ibirapuera e uma turnê, mais pra frente gravar um CD de samba, e continuar vivendo de arte engajada. Se a Deusa quiser, a gente chega lá!















