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Caio Prado usa poesia contra intolerância: "Vamos nos rebelar"

Cantor carioca, de 26 anos, lançou novo single nas redes sociais

Música|Daniel Vaughan, do R7

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Caio Prado: talento a favor da liberdade de expressão
Caio Prado: talento a favor da liberdade de expressão

Aos 26 anos, Caio Prado está sendo celebrado como um dos grandes talentos da geração empoderada.

A música Não Recomendado virou um hino contra o preconceito e até a diva Elza Soares pediu uma composição para o jovem carioca.


Atualmente, Caio se divide entre o sucesso ao lado da banda Não Recomendados e a carreira solo.

O artista vai lançar seu segundo e aguardado CD em janeiro de 2018, mas o primeiro single, É Proibido Estacionar na Merda, já está causando barulho nas redes. O artista explica o polêmico título.


— Penso que a arte deve ser um veículo de reflexão, denunciando e ajudando a superar os problemas da sociedade. Então, precisamos nos rebelar contra qualquer censura e emergir da lama.

Gay assumido, Caio tem esperança que sua poesia ajude na luta contra a descriminação.


— Estamos em 2017 e precisamos pensar para frente. Hoje, não sou mais medido com rótulos e busco levar essa liberdade às pessoas que ainda são reprimidas pelo sistema racista, homofóbico e machista.

Para saber mais sobre o inquieto Caio Prado, o R7 conversou com o cantor.


R7 — O que os fãs podem esperar do novo CD Incendeia?

Caio Prado — Terá muita poesia, ritmos dançantes, baianidade mais funk carioca. Uma música a serviço social política, que tem o afeto como palavra de ordem. São nove faixas inéditas com a participação especial de Maria Gadú em uma delas. E uma releitura de Caetano Veloso, Zera a Reza. Incendeia é um manifesto de fogo para transformação. Música pensante que embala os corpos e a mente.

"Minha geração busca reafirmar a liberdade de expressão"

(Caio Prado)

R7 —O primeiro single já traz um título bem polêmico.

Caio Prado — Vivemos tempos complicados de muita intolerância social, política e religiosa. Penso que a arte deve ser um veículo de reflexão, denunciando... e ajudar a superar os problemas da sociedade. Acredito que estamos na lama, diante da crise política. Estão levantando questões de retrocesso, como a "cura gay" e a difamação do artista na exposição Queermuseu (com obras que abordavam as "questões de gênero e diferença"). Precisamos nos rebelar contra qualquer censura e emergir da lama. Por isso, É Proibido Estacionar na Merda. Vamos para frente!

Elza Soares posa ao lado do grupo Não Recomendados
Elza Soares posa ao lado do grupo Não Recomendados

R7 — Apesar da carreira solo, você continua com os Não Recomendados?

Caio Prado — Sim, mantenho os dois trabalhos. O meu primeiro disco autoral saiu em 2014, e o projeto Não Recomendados caminha mais ou menos desde aquele ano. Conciliamos as duas coisas, pois acreditamos que os artistas hoje precisam comunicar e alcançar o seu público de todas as maneiras possíveis. Não Recomendados tem um valor popular muito grande, e se tornou um movimento que representa muita gente. O espetáculo tem um teor didático social e político e com ele temos rodado o Brasil inteiro. 

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R7 — E a Não Recomendados desenvolveu uma mensagem muito forte para os fãs.

Caio Prado — Sim. Ser contra o preconceito e a favor da liberdade de expressão é o nosso objetivo. Temos caminhado pelos interiores, levando ao público impacto visual, musical e com um discurso social e político alinhado. Já o meu trabalho solo caminha paralelamente. Sou um compositor e artista inquieto. Preciso criar e me comunicar. Incendeia traz o meu lado mais pop e acredito que terá um alcance maior e mais esclarecedor sobre minha poesia e ideologia ao público.

R7 — E quais são seus planos solo e com o grupo?

Caio Prado — Tenho projetos com teatro, TV e a possível gravação de um DVD com Não Recomendados. Além disso, quero rodar muito pelo Brasil com o show de Incendeia.

"Precisamos nos rebelar contra qualquer censura e emergir da lama"

(Caio Prado)

R7 — O que acha do sucesso da canção Não Recomendado?

Caio Prado — Ela representa uma geração que busca reafirmar a sua liberdade de expressão sem se medir diante de rótulos e padrões comportamentais e comerciais da sociedade. Recebi e recebo muitas ressignificações com essa música. Muitas pessoas tomaram como hino. 

R7 — Você curtiu Johnny Hooker, Liniker e Almério cantando o hit no Rock in Rio?

Caio Prado — Fiquei muito feliz em ver Não Recomendado no palco do maior festival de música do Brasil. A canção foi representada com muita força, resistência e amor. 

R7 — E até a diva Elza Soares quer gravar uma composição?

Caio Prado — É muita felicidade e honra, pois Elza é uma referência para todos nós. Ela é uma artista inigualável, guerreira e que hoje ainda tem muita coisa a dizer e cantar. Prova disso é seu último disco histórico A Mulher do Fim do Mundo. Fiquei apaixonado pela notícia que ela vai cantar Não Recomendado no seu show e, mais ainda, quando eu soube que ela me pediu uma canção inédita.

"Não Recomendado" virou hino
"Não Recomendado" virou hino

R7 — Você tem muitas influências musicais. O que você ouvia na infância no Realengo (RJ)?

Caio Prado — Minha mãe me levava a saraus de seus amigos e eu sempre queria cantar nas rodas de violão. Ouvi muito Nana Caymmi, Djavan, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa... tudo que há de sincero e poético na música popular brasileira. Mas não fiquei só na MPB. Amo o pop, sou produto da geração dos anos 90, então ouvi Sandy Junior, Ivete Sangalo, É o Tchan. E também por ser de Realengo, tenho o funk carioca na veia. Gosto do ritmo e das possibilidades que o funk trouxe para a sociedade carioca e brasileira. Além disso sou amante de sonoridades eletrônicas world music, como Beyoncé, Coldplay, James Blake, Radiohead.

R7 — No momento, temos uma série de novos artistas engajados. Você se considera parte dessa turma?

Caio Prado — Sim, sou parte de uma geração de artistas que reconhecem sua independência no mercado e querem se posicionar sobre as questões da sociedade. Ainda mais hoje em dia, em tempos de retrocesso social, com homofobia, racismo, machismo. Sou um artista que usa de sua poesia, sensibilidade e força para se comunicar, esclarecer, quebrar ignorâncias e arrogâncias. E a serviço de uma igualdade social e liberdade de sermos o que queremos ser.

Caio denuncia através de poesia
Caio denuncia através de poesia

R7 — Como você resolveu fazer uma música de protesto?

Caio Prado — Sempre fui movido por questões sociais. Estudei Ciências Sociais na UFF (Universidade Federal Fluminense) e Ciências Políticas na Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Minha consciência se expandiu para entender arte como política, pois "tudo é arte, tudo é política", como diz Ai Wei Wei. 

R7 — Você acha que a música pode ajudar na luta por um mundo melhor?

Caio Prado — Com certeza. É preciso levar clareza, informação, afeto e coragem às pessoas. A arte e, especialmente, a música, tem essa força transcendental de se conectar com as pessoas.

R7 — Hoje em dia, muitos jovens defendem ideias reacionárias nas redes sociais. O que você acha disso?

Caio Prado — Acredito que a mentira e a desinformação sejam as principais causas desse pânico moral. Foi implantado um moralismo na política pra desviar a atenção da população do que realmente interessa: a corrupção que assola o Brasil. As pessoas estão sendo movidas pelo medo, arrogância e ignorância. É preciso dar ouvido a verdade e aos bons políticos dispostos ao esclarecimento das coisas.

R7 — E como é a situação de um jovem artista negro e assumidamente gay no Brasil?

Caio Prado — É uma vida de querer sempre fazer o melhor. De se doar ao máximo ao próximo e a si. Resistir aos preconceitos e de se manter forte e esclarecido. Estamos em 2017 e precisamos pensar para frente. Hoje, não sou mais medido com rótulos e busco levar essa liberdade as pessoas que ainda são reprimidas pelo sistema racista, homofóbico e machista.

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