"Fui enraizado pelo machismo, mas ainda posso mudar isso", diz Msário ao ampliar a temática do rap
No EP "Indefinido" rapper apresenta um trabalho maduro e desbravador
Música|Juca Guimarães, do R7

Para mudar e buscar uma evolução espiritual e social, é preciso coragem, compaixão e empatia. O rapper Msário decidiu transformar em música uma questão sensível, que geralmente é colocada de lado na temática do rap ou considerada como uma caracteristica de formação geracional. A desconstrução do machismo, enfim, chegou no rap e em grande estilo.
Na faixa Dona de Si, Msário convidou a cantora Heloá Holanda e o trombonista Bocato, com a produção do Skeeter, para discutir com sensibilidade e poesia a desconstrução do "machismo nosso de cada dia".
— Não é porque fui criado assim, que vou viver assim a minha vida toda, ou que vou concordar com isso.
A música faz parte do EP Indefinido, lançado este mês pelo rapper que foi um dos membros fundadores do icônico grupo Pentágono, ao lado do Rael, Massao, DJ Kiko e Apolo.
Em Indefindo, Msário se posiciona de peito aberto sobre diversos temas e explora criativas misturas musicais. "Eu definiria o EP como indefinido mesmo. A sonoridade dele é diversificada e muito mais próxima da minha realidade musical", conta o músico.
O EP é o sucessor do álbum Sangue de Leão (2015), um dos melhores álbuns daquele ano e que tinha uma proposta de som mais orgânico e multicultural. No novo trabalho, o músico focou também nos beats, aproveitando ao máximo a parceria e o entrosamento com o DJ SouJazz.
A produção e a direção musical é o Bruno Duprê (Brasativa) junto com o Jeff Boto. "Esse EP pra mim mostra o que ele faz melhor que é compor e cantar em cima de bases de rap, essa é a origem e a marca fundamental do MSario. Então a estética foi trabalhada em cima de várias vertentes do Rap, do Boom Bap ao TRAP, e até ao DUBstep Reggae, que é a “Segura o Reggae”, que já caminha pra uma onda mais Damian Marley. Nesse ambiente acho que o Msario se desenvolveu muito e acredito que tanto as músicas em si quanto sua poesia estão bem mais diretas e um passo à frente do álbum anterior, apesar de conterem os mesmo ideais de superação, de luta, também toca em temas atuais que precisam ser falados, como o machismo", explicou Bruno Duprê.
O show de lançamento do EP Indefinido será no dia 26, no Jai Club. Os ingressos custam de R$ 20 (meia) a R$ 40 (inteiro). O rapper Coruja BC1, que faz uma mistura interessante de jazz, repente e hip-hop, também está na programação da noite. Coruja é de Bauru e tem se destacado muito na cena independente do rap paulista. O primeiro álbum do artista deve sair até o final deste ano. O Jai Club fica na rua Vergueiro, número 2676, na Vila Mariana. Confira a entrevista exclusiva com o Msário sobre o EP Indefinido.
R7: Quando começou o processo de composição e produção do EP Indefinido? Vc já tinha planos de fazer um EP após o álbum Sangue de Leão?
Msário: O processo logo após o Sangue de Leão. A gente sempre tem ideias de fazer mil coisas, a gente tá sempre fazendo muitas coisas e visualizando ideias, tentando transformá-las em poesia e música. Começou depois do disco mas não era um plano, não dava para saber se seria um disco, o plano era só colocar as ideias pra fora.
R7: Como foi que rolou o convite para o Bocato participar do álbum e como foi a mistura do som instrumental dele com as suas ideias musicais?
Msário: A junção com o Bocato foi uma parada bem louca. Eu recebi um convite para tocar com o Mental Abstrato, no Bourbon Street, e ele também era um dos convidados. Neste dia a gente se conheceu, trocou uma ideia, rolou uma sintonia. Eu estava no processo de gravação do EP e chamei ele para participar, e ele falou: "vou, mas não quero fazer apenas uma, vamos fazer logo duas!". Foi bem legal, ele chegou lá, dirigiu tudo, deu a opinião dele, e o resultado eu gostei demais. Todo mundo acompanhar e ver que rolou uma junção legal, a gente conseguiu deixar a parte dele bem relevante nas músicas.

R7: Neste EP, você fala em uma das letras sobre um pedido de desculpas por ser machista. Você sente que é o momento do rap se envolver mais em causas contra o machismo e pelo empoderamento das mulheres? O feminicídio é um realidade cruel no país. As garotas estão morrendo todos os dias e era até então um tema pouco discutido no rap.
Msário: Eu falo isso [sobre a desconstrução do machismo] como um pedido de desculpas de uma maneira muito particular. Eu não quero ditar tendência, não quero me aproveitar disso. Eu senti que estamos em 2017 e eu conheço um monte de mulher maravilhosa e eu fui enraizado, criado de uma maneira machista, mas eu ainda posso mudar isso. Não é porque fui criado assim, que vou viver assim a minha vida toda, ou que vou concordar com isso. A ideia dessa música, escrita em conjunto com a Heloá Holanda e o Marco Fé, foi justamente essa, de tentar desconstruir, até porque vejo que várias mulheres estão sofrendo com isso no Brasil e no mundo inteiro. É um momento de desconstrução e quero fazer isso a partir de mim. Se a partir de mim, a partir da minha música eu conseguir fazer alguém pensar nisso, e que isso está errado e pode ser mudado, eu fico feliz mas não quero ditar tendência nenhuma, não quero dizer que o rap precisa falar mais ou menos disso, eu quero fazer o que eu quero fazer. Este é um assunto muito sério e as pessoas precisam aprender e entender um pouco mais.
R7: Na época do Pentágono, o trabalho era muito coletivo e colaborativo. Mas eu percebo que você gosta da troca de experiências e participações, temos Rael e o irmão dele o Daniel no EP. Como foi trabalhar com a galera do Iporanga?
Msário: Trabalhar com esses caras é uma forma natural. A partir das guias, da primeira batida, da primeira rima, é sempre muito colaborativo. Eu mostro pros caras, eles me mostram o que fizeram. Temos essa afinidade musical, então é fácil. Quando menos eu estava esperando, o Dani já tinha feito dois refrões da música... Às vezes, preciso de uma voz melódica nos refrões, por exemplo, e os caras têm isso naturalmente, então tudo se acerta e flui.
R7: Onde o EP foi gravado? Você ouviu muitos beats até selecionar o material que ia entrar no EP?
Msário: O EP foi gravado no Double Attack Studio, com direção e produção musical de Jeff Boto e Bruno Dupre. A seleção de beats foi até que rápida. O Skeeter me mandou um catálogo e de lá eu escolhi o beat de "Dona de Si", com o Slim fiquei entre dois beats dele, o do Rael já foi direto, o do Scott Beats também foi direto, e o de "Segura o Reggae", montamos juntos, eu, o Jeff, Caio e o Bruno.
R7: A ideia do EP Indefinido é deixar de lado a imposição de rótulos e focar mais na música livre?
Msário: Isso mesmo. A ideia do EP é deixar de lado os rótulos, por isso tem esse nome, Indefinido. Fiz o disco Sangue de Leão sendo uma parada orgânica, com várias influências de vários estilos, afrobeat, R&B, muito reggae e agora estou fazendo em cima dos beats novamente, então é exatamente isso, deixar de lado essa imposição de que "ah, o Msário canta só em cima da batida de reggae, ou só na batida disso ou aquilo". Eu vou cantar em cima da batida que sentir mais à vontade.
R7: Quais os grupos e MCs da nova safra de hip-hop que você está ouvindo?
Msário: Gosto do BK, do Lucas Carlos, Akira Presidente, que nem é tão nova safra mas também está lançando um trabalho que tem sido mais visualizado agora. Eu gosto bastante do Primeiramente, do Don L.

R7: O reggae aparece na sua música como uma influência forte também na espiritualidade. Como é isso na sua vida pessoal?
Msário: Eu tento me apegar muito à espiritualidade porque acho que a gente tem que cuidar da alma, do corpo, da cabeça, é fundamental. E acho que o lado espiritual pode mostrar muita coisa para nós, e temos muitas coisas para tirar de lá e trazer para nossa realidade. O reggae me dá essa força e também sou Daimista, e o Daime me ajuda também, então tenho uma conexão muito forte com a espiritualidade e pretendo desenvolver ela cada vez mais para aplicar na minha vida, na minha música.
R7: Positivismo e a mensagem de paz são pontos que você faz questão de manter na sua música? De onde vem a esperança atualmente?
Msário: É bem isso, a paz, a ideia positiva, o amor são as mensagens principais da minha música. Eu tiro isso do amor que ainda sinto pelo palco, pela minha família, pelos meus irmãos que estão perdidos nas drogas, nas ruas, no álcool. Isso sempre vai ser combustível, sempre vai me alimentar para que eu possa fazer música e sempre tem alguém precisando ouvir uma palavra. Às vezes, essa palavra que escrevo nas músicas serve para mim, mas muitas vezes serve para outras pessoas, independente do momento. Então, o amor vai ser sempre a mensagem e a fonte principais da minha música.
R7: Você está preparando alguma surpresa para o show do dia 26?
Msário: Vamos ter algumas participações bem legais mas ainda não dá para falar. Quem aparecer por lá, vai poder acompanhar a apresentação inteira do EP na íntegra. Msário e DJ SouJazz chegando pesadão.















