‘Hamnet’ transforma luto em cinema ao imaginar a origem de ‘Hamlet’
Dirigido por Chloé Zhao, filme com Jessie Buckley e Paul Mescal conta como a morte do filho de Shakespeare teria inspirado peça teatral
Cine R7|Maria Cunha

Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama, Hamnet – A Vida Antes de Hamlet é devastador de um jeito que dificulta a respiração. Adaptado do best-seller homônimo de Maggie O’Farrell, o filme imagina como a morte do filho de William Shakespeare poderia ter dado origem à tragédia mais famosa da literatura ocidental.
No entanto, o que a obra faz de mais potente é justamente se recusar a ser apenas sobre Shakespeare e escolher ser, antes de tudo, sobre o luto.
Produzido por Steven Spielberg e Sam Mendes e dirigido com precisão cirúrgica pela vencedora do Oscar Chloé Zhao (Nomadland), o longa se passa no século XVI e acompanha William (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley) desde o início do relacionamento, passando pelo nascimento dos três filhos, até o rompimento definitivo causado pela perda do único menino, Hamnet (Jacobi Jupe), vítima da peste bubônica.

A narrativa é conduzida pelo ponto de vista de Agnes, como no romance de O’Farrell, e desloca o centro da história do mito literário para a experiência íntima de uma mãe que tenta, com as próprias mãos, segurar a vida que escapa.
Jessie Buckley é a alma do filme. A atriz constrói uma personagem que se expande a cada cena, até ocupar todo o espaço emocional. A sensação é intensificada por seus olhos marcantes, que carregam uma dor crescente ao longo da trama e, quando a perda finalmente a atravessa, ela não se cala: grita, rasgando o silêncio construído até então e transformando o luto em algo físico, impossível de conter.
Há na personagem uma ligação profunda com a natureza, com o tempo orgânico das coisas, em contraste com o desejo de William de partir, escrever, se lançar ao mundo.

Paul Mescal, por sua vez, oferece um Shakespeare humano, sonhador e falho. Um homem dividido entre a família e a escrita, entre a presença e a ausência.
Um dos pontos altos do longa é vê-lo interpretar trechos das peças de Shakespeare em cena — momentos que retiram o autor do pedestal e o devolvem à condição de homem que cria a partir da própria ferida. Não à toa, o nome “William Shakespeare” só é dito explicitamente no final da trama: antes disso, ele é apenas Will.
Entre “ser ou não ser”, Hamnet escolhe sentir

A estrutura do filme é paciente e rigorosa. Não há pressa. A história inteira é cuidadosamente amarrada para que o espectador seja preparado, desde o início, para o clímax inevitável. A sensação é a de assistir a uma família nascer e morrer diante dos olhos.
Os silêncios e os cortes secos intensificam a experiência, criando rupturas que contrastam com a trilha sonora e reforçam a fisicalidade da dor — uma marca da direção de Zhao, que foge do melodrama verbal e expõe o luto como algo que se manifesta no corpo.

As atuações infantis merecem destaque, especialmente a de Jacobi Jupe como Hamnet. Ele é encantador, presente, vivo e, justamente por isso, sua ausência se torna insuportável.
O impacto se aprofunda com a escolha de Noah Jupe, irmão de Jacobi, para interpretar Hamlet no teatro, reforçando o paralelismo entre vida e obra de forma delicada. Os trechos da peça são inseridos com precisão e ajudam a costurar a narrativa, o que evidencia como a arte nasce daquilo que não encontra outra forma de existir.
Emily Watson, como a mãe de Shakespeare, é outro trunfo do filme. Sua personagem foge de idealizações: é real, feita de erros e tentativas, dureza e cuidado. Sua presença ajuda a ampliar o retrato das relações familiares e das pressões herdadas, que atravessam gerações.

Nesse sentido, Hamnet – A Vida Antes de Hamlet vai além da curiosidade literária. É um filme sobre a impossibilidade de elaborar completamente a perda e como a arte não cura, mas transforma a dor em permanência. O final, em especial, é um espetáculo à parte e processá-lo é parte da experiência.
Afinal, se “o resto é silêncio”, Hamnet é um grito que fica preso no peito — e só nos resta fazê-lo ecoar pelos olhos.
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