Por que ler ‘Vineland’ mesmo se você já assistiu a ‘Uma Batalha Após a Outra’
Forte candidato ao Oscar, filme de Paul Thomas Anderson é bem diferente do livro de Thomas Pynchon que o inspirou
Estante da Vivi|Arnaldo Pagano, do R7

Assistir a um filme adaptado de um livro que você gosta muito pode ser uma experiência frustrante. Ainda que seja um grande filme. Já o caminho inverso costuma ser pouco percorrido. Afinal, por que se embrenhar por dias, semanas ou até meses em uma trama que você esgotou em duas horas e já sabe o final?
Mas, no caso de um dos favoritos ao Oscar neste domingo (15), Uma Batalha Após a Outra, migrar da telona às páginas pode proporcionar um caminho sem volta. O motivo? Thomas Pynchon.
O recluso, misterioso — já se chegou a duvidar se ele realmente existia — e quase nonagenário escritor norte-americano é o autor de Vineland, livro de 1990, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Reinaldo Moraes e Matthew Shirts, e fonte de inspiração para o diretor Paul Thomas Anderson (não é o primeiro; ele já adaptou Vício Inerente, do mesmo autor).
Inspiração, é bom que se diga, pois, a começar pela época retratada na narrativa cinematográfica, passando pelos nomes dos personagens, tudo é bem diferente.
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A primeira impressão de quem vai do livro ao filme é que todos os personagens de P.T. Anderson são uns verdadeiros chatos se comparados ao universo criado por Pynchon em uma Califórnia atravessada dos anos 1920 aos 1980 — com atenção especial à América de Richard Nixon e, principalmente, Ronald Reagan.
Porque, por mais que se ache o Bob Ferguson de Leonardo DiCaprio engraçado, não se imagina que ele possa, ano após ano, se vestir de mulher e saltar por vidraças diante de toda a imprensa com o objetivo de provar sua insanidade mental e continuar recebendo o cheque do governo.
É assim que o ex-hippie Zoyd Wheller é apresentado no começo do livro, num dia qualquer de 1984.
E sequer tem um correspondente no filme o inspetor latino Héctor Zuniga. Na cola de Zoyd Wheller, ele também precisa se preocupar com um sanatório para viciados em televisão ( o Tubo), de onde fugiu e para onde é levado ao ser recapturado. Eu avisei que o livro é diferente.
E o que dizer de Deandra (Regina Hall), tão apagada no cinema quando comparada à Darryl Louise de Pynchon, uma ninja capaz de aplicar um golpe chamado Palma Vibratória, simples gesto que leva o oponente à morte por infarto, só que um ano depois, de modo que o crime se torna impossível de ser desvendado? Pois no livro ela aplicou a Palma Vibratória na pessoa errada.
Mas é importante falar das correspondências. Assim como no cinema, o livro tem como protagonista uma ex-revolucionária delatora, a Frenesi, com um certo fetiche por homens de farda, como o promotor federal Brock Vond, representante da máquina repressora e paranoica do Estado, e (será? talvez, quem sabe) pai de Prairie, adolescente que percorre sua jornada à procura da mãe.
A despeito de ter criado uma obra aclamada pelos principais prêmios internacionais, o que Paul Thomas Anderson não quis, não conseguiu, ou seria impossível de fazê-lo, foi de fato recriar no cinema o universo pynchoneano. Pois talvez não seja viável mesmo transpor para outra linguagem uma capacidade inventiva, criativa, imaginativa tão singular.
Ademais, Uma Batalha Após a Outra tem um final que diverge bastante de Vineland, mesmo porque os finais de Pynchon podem ser um pouco incompreensíveis (é bom avisar de antemão).
Fato é que o livro pouco carrega de sentimentalismos, e os ideais de revolução da contracultura norte-americana acabam tragados pela onipresente TV, desilusão exemplificada pelo personagem mais jovem que avisa o velho hippie: “Vocês acreditaram na tal revolução, investiram suas vidas nisso, mas de Tubo vocês certamente não entendem muito. No minuto em que o Tubo catou vocês, carinhas, já era, toda aquela América alternativa entrou por el canito, feito os índios, vocês venderam tudo pro verdadeiro inimigo, e mesmo em dólares de 1970 — foi barato demais…"
Vineland é, enfim, uma divertida, reflexiva, ao mesmo tempo pop e erudita, porta de entrada para a obra de Thomas Pynchon (talvez O Leilão do Lote 49 seja melhor, mas não fizeram um filme sobre ele).
E quem se arriscar por essas 500 páginas pode tentar avançar pelas obras mais aclamadas e cultuadas do escritor (e com muito mais páginas também), a saber, Mason & Dixon, Contra o Dia e Arco-Íris da Gravidade. Uma vasta produção que deve, indiretamente, faturar algumas estatuetas do Oscar antes que um dia, quem sabe, um Nobel lhe faça justiça.
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