Como explicar feminismo para sua avó

Não sabe por onde começar a fazer a matriarca da família entender o feminismo? Siga esse passo a passo infalível

Será que ela vai entender?

Será que ela vai entender?

Edu Carvalho/Pexels

Antes de tudo é preciso saber que não há a menor necessidade de esperar pelo interesse da sua avó para tocar no assunto. Mesmo que ela não dê a mínima para o feminismo e ainda diga que sobreviveu até aqui sem ele, ignore a vontade dela e foque na sua missão que é proteger as mulheres de si mesmas. Afinal de contas, essa é uma das nossas bandeiras: ignorar o que as mulheres querem e impor a elas o que nós decidimos que precisam.

Vencido esse primeiro obstáculo, o passo seguinte é convencê-la de que o fato de ter nascido mulher faz dela uma vítima. Pode ser que ela pergunte coisas como: “vítima do quê, vítima de quem?” ou que afirme categoricamente que nunca foi vítima de nada nem de ninguém. Respire fundo e, mais uma vez, ignore esses questionamentos e afirmações sem base científica. Lembre-se que nem todo mundo teve a sorte de ser uma pessoa esclarecida como você.

Para executar essa etapa com perfeição, diga e repita todos os dias – não desperdiçando nenhuma oportunidade – que vivemos em uma sociedade patriarcal opressora, que privilegia os homens e não oferece políticas públicas em favor das mulheres que, a cada ano, veem seus direitos sendo sufocados por esse sistema injusto de poder. Persevere nesse passo até que ela se convença dessa grande, plena e absoluta verdade ou até que entre na cabeça dela por lavagem cerebral mesmo, o que vier primeiro.

Em seguida, use todas as armas que estiverem ao seu alcance para que ela considere os homens inimigos. Ela precisa saber o quanto eles são opressores e, para isso, vale tudo. Acuse todo e qualquer homem que já cruzou o caminho dela de machista. Inclua o pai e os irmãos dela (mesmo que você nunca os tenha conhecido), diga que ela perdeu oportunidades de trabalho porque algum homem tomou a vaga dela (ainda que tenha sido uma que ela nunca quis). Acima de tudo, abra os olhos dela para reconhecer seu pior inimigo: o marido. Isso mesmo: aquele macho que se diz seu avô.

Aquele velho a carregou no colo apresentando a “netinha”, sempre orgulhoso, a todos os amigos como se você fosse um objeto. E por que “netinha”? Para deixar bem claro a sua inferioridade, um absurdo! Aquele homem só fez todas as suas vontades de criança com o objetivo de oprimi-la, querendo fazê-la sentir-se segura ao lado dele como se você não fosse autossuficiente desde bebê. Isso sem falar sobre quando ele vinha com o papo de que você podia perguntar o que quisesse e tal... Mal sabia ele que você já era esperta o bastante para saber que aquilo não passava de uma tentativa de fazer de você uma vítima do “mansplaining”. Desde quando você precisa de marmanjo para lhe explicar as coisas?

Você teve a oportunidade – dada pelo feminismo – de ser essa pessoa livre e esclarecida, mas a sua avó não. Então, nada mais justo que você a convença de todo tempo que ela perdeu sendo mãe, dona de casa, cuidando do marido e sendo uma mulher feliz sem o movimento. Ela precisa entender que esse sentimento de realização é uma mentira e que a felicidade está em ser uma pessoa amarga, cheia de ódio dos homens, que grite o tempo inteiro (ainda que não saiba muito bem o porquê) e que só saia em fotos com cara de quem comeu e não gostou.

Chega de arrumar casa, esperar os netos no domingo, cozinhar para eles e dar conselhos... eu, hein! Bora abraçar o movimento porque as eleições de 2022 estão às portas e precisamos de muita gente para eleger aqueles que vão avançar a nossa agenda, digo, lutar pelos direitos das mulheres. Viva aqueles que batalham dia e noite para enfraquecer ainda mais a população dividindo-a em um sem-fim de minorias, opa, quer dizer, viva aqueles que defendem “as minas”, pois sem eles, o que seria de nós?

Esta crônica é uma ficção, mas poderia não ser...

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