Melhor Não Ler Como prometer mudanças mantendo tudo sempre igual

Como prometer mudanças mantendo tudo sempre igual

Vazada conversa de pré-candidato à presidência sobre estratégias para vencer campanha, mas manter as coisas como sempre foram

Petit four

Petit four

Pixabay

Enquanto todo mundo é obrigado a #FicarEmCasa para não arriscar suas preciosas vidas e acabar morrendo caso tenha a infeliz ideia de sair para trabalhar, um pré-candidato a presidência se reuniu pessoalmente com seus assessores para traçar as estratégias de sua campanha para 2022. Afinal de contas, fazer uma reunião no Zoom é muito arriscado, vai que algum hacker invade o link e vaza as informações? Nem pensar!

Porém, mesmo mantendo todos os cuidados – não de saúde, pois ninguém estava de máscara –algo deu errado e parte da reunião acabou sendo gravada e vazada. Tudo indica que quem facilitou a gravação do vídeo foi o garçom encarregado de servir o cafezinho. Aliás, cafezinho, não, mas sim um legítimo e precioso Marfim Negro. Ele teria descoberto o preço da iguaria e ficado com muita raiva do pré-candidato, ou seja, daquele que passou a campanha inteira de seu atual cargo dizendo que “dinheiro público se administra com austeridade”.

Ao encontrar a nota fiscal do café junto do formulário de solicitação de reembolso (que os cofres públicos terão de fazer), o garçom descobriu que só a bebida custou a bagatela de US$ 1.100 o quilo (mais de R$ 5.800). Fazendo as contas, o funcionário percebeu que precisaria trabalhar um mês inteiro para pagar apenas por uma mísera xícara do “café dos deuses”. Diante disso, teria tido a ideia de se vingar do chefe cara de pau.

Mas, tenha sido o garçom – que ninguém sabe bem quem é, pois era o único a usar máscara, face shield, toca de cabelo e luvas – ou não, o fato é que o trecho vazado mostra como os políticos criam estratégias para fazer campanhas prometendo mudanças, mas certificando-se de que, caso ganhem, nenhuma mudança realmente será feita.

“E então, quem é que vamos botar de enfeite? Ou melhor, chamar como vice! Mulher, negro ou homossexual?” – perguntou o pré-candidato.

“Olha, eu creio que um negro, porque aí aproveitamos a onda do #VidasNegrasImportam e fazemos o povo pensar que a gente se importa também. O pessoal fala que negros são minoria, mas a gente sabe que isso é conversa porque temos mais pretos e pardos no Brasil do que brancos, então, bora lá!”, disse um dos assessores, enquanto outro pediu a palavra.

“Eu já acho que deveria ser uma mulher desta vez. Vamos usar as feministas dizendo que, ao nos apoiarem, elas estarão trabalhando pela causa e assim ganharemos muitos votos sem esforço. Elas vão sair esbravejando pelas ruas, constrangendo todo mundo a votar na nossa chapa. Vão usar o golpe baixo de sempre, dizendo que que mulher que não vota em mulher não merece ser mulher, que é uma Amélia, desempoderada e tal. Vai dar certo, garanto!”

Enquanto isso, o garçom (que é alto, bem margo e pardo) passou servindo mais uma rodada de Marfim Negro, seguido pela colega garçonete que servia os petiscos de foie gras e por um não binário (que não quer ser chamado de garçom e nem de garçonete) que distribuía guardanapos de tecido bordados com as iniciais do pré-candidato. Com o movimento dos funcionários, a reunião quase se dispersou, mas outro assessor tomou a palavra depois de fazer gestos nervosos com as mãos.

“Gente, foco, vamos acabar logo com isso! Vocês estão sem visão ou o quê? Haja paciência! Tem que ser uma mulher negra trans! Assim lacramos geral com apoio de tudo quanto é lado. Será que só eu penso aqui? Ô, você aí, ‘frutinha’ dos guardanapos, cadê o meu? Ô, vareta! Você mesmo, ‘seis e meia’! Bota mais café aqui pra mim. E você, tiazinha do petit four, aqui só se usa bandeja de prata, entendeu? Petit four não pode ser servido igual petisco de pobre. Tá pensando que foie gras é salsicha?”

Diante da concordância geral com respeito ao currículo da vice, inclusive do pré-candidato, todos puderam fazer uma pequena pausa para degustar calmamente o rico menu e rir da cara do grupo de funcionários batizado de “Trio da Diversidade”. Mas, como nem tudo na vida se resume a deleites e deboches, a reunião foi retomada e o assunto passou para a fase 2: como manter tudo igual depois de ter prometido muitas mudanças.

Cheio de moral, o assessor que deu a ideia da vice mulher negra trans e que alegrou todos os presentes com suas piadinhas politicamente incorretas (que só são contadas a sete chaves), fez novamente uso da palavra:

“Vamos fazer uma seleção para escolher uma que tenha uma carreira profissional de sucesso graças ao capitalismo, mas que pregue o socialismo, que diga que é empoderada, mas que pregue que as mulheres são vítimas dos homens e que tenha feito cirurgia de redesignação de sexo na Suíça, mas faça postagens com a hashtag #VivaoSUS. Assim, teremos a pessoa perfeita: alguém que sabe que o negócio é falar uma coisa, mas fazer outra. Aí a gente deixa que ele ou ela, sei lá como é que se fala, tenha seus 15 minutos de fama e depois colocamos a marionete no armário. Outra coisa, chefe, por favor, vamos contratar funcionários decentes porque o Trio da Diversidade é esquisito demais!”

Revelada a estratégia, aproveite! Se você cumpre os requisitos que serão considerados para a escolha da marionete, ou melhor, do vice que representará o respeito às minorias, inscreva-se para a vaga enviando seu currículo para: lacração@hipocrisia.com.br Vai que você tira a sorte grande?

Esta crônica é uma ficção, mas poderia não ser…

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