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Emo caipira e jogo multiplayer: como a Chococorn reinventa o rock independente

Banda de Santa Bárbara d’Oeste transforma amizade, internet e vida no interior em um projeto que mistura comunidade, turnê internacional, disco conceitual e jogo cooperativo

Musikorama|Rodrigo d’SalesOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A Chococorn and The Sugarcanes, banda de Santa Bárbara d’Oeste, mistura rock independente com elementos digitais e humor.
  • O grupo definiu sua sonoridade como "emo caipira", unindo referências de emo americano com a cultura do interior paulista.
  • Realizou seu primeiro show em São Paulo em 2023, marcando um importante ponto de virada em sua carreira.
  • A banda está lançando um jogo online, expandindo seu universo artístico além da música e criando uma forte conexão com a comunidade de fãs.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Nascida em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, a Chococorn and The Sugarcanes vem construindo uma trajetória rara dentro do rock independente brasileiro.

Formada em 2021, a banda surgiu de forma despretensiosa, entre amigos que tocavam em outros projetos, mas rapidamente encontrou uma identidade difícil de confundir com qualquer outra.


No centro dessa construção está uma combinação pouco comum entre senso de comunidade, humor, afeto e direção artística.

Foi dessa mistura que nasceu a definição que o próprio grupo cunhou para sua sonoridade: “emo caipira”. A expressão ajuda a explicar parte do que a Chococorn faz.


Há ali referências ao midwest emo, à vida no interior, à amizade como motor criativo e a uma forma muito contemporânea de fazer banda, em que música, imagem, internet, shows, memes, Discord e até game multiplayer fazem parte do mesmo ecossistema.

Na conversa com a Musikorama, os integrantes falaram sobre o começo da banda, a força do primeiro show, o crescimento orgânico nas redes, a formação de uma comunidade de fãs em plataformas incomuns e os próximos passos de um projeto que já não cabe apenas no formato tradicional de grupo de rock.


MSKRM: A Chococorn passa uma imagem irreverente, fora da caixa. O próprio nome da banda é inusitado. De onde ele veio?

CHCCRN: Foi uma piada nossa. O nome começou quando a gente ainda estava no nono ano da escola e, na época, pareceu genial. Talvez até hoje continue engraçado para a gente. Chococorn vem dessa brincadeira com “pipoca de chocolate com melado de cana”. Era uma piada interna e acabou virando o nome da banda.


MSKRM: Então a banda nasceu de forma despretensiosa?

CHCCRN: Totalmente. A gente sempre tocou junto, mas em outros projetos. Sempre foi uma relação muito leve com banda, com tocar, com estar junto. A Chococorn começou assim também, bem leve, sem tanta pretensão.

Só que isso mudou no primeiro show de verdade, numa festa de Halloween, quando a pandemia estava acabando e os rolês estavam voltando. A gente montou tudo para tocar ali e, depois desse dia, não teve mais volta. A banda começou a ficar séria para a gente.

MSKRM: O que aquele primeiro show representou?

CHCCRN: Foi um ponto de virada. A gente já tinha feito shows com outros projetos, mas nunca com uma recepção tão boa. Desde o primeiro show, a Choco teve essa resposta muito forte do público, e eu acho que essa é a principal força da banda: o contato com a galera. Até hoje, mesmo depois de tocar em lugares importantes e longe de casa, colocamos aquele primeiro show como um dos melhores que a gente já fez.

A Chococorn leva do interior paulista uma linguagem própria que começa a romper fronteiras territoriais. Bianca Souza

A saída do interior para a capital também virou marco na história da banda. Em maio de 2023, a Chococorn fez seu primeiro show em São Paulo e precisou atravessar uma pequena epopeia logística para colocar a apresentação de pé. Levar equipamentos para a capital, de van, já seria suficiente para render memória de estrada. Mas houve mais um ingrediente: na véspera, a bateria da casa quebrou.

MSKRM: Como foi esse primeiro show em São Paulo?

CHCCRN: Foi muito importante para a gente. Existe essa barreira simbólica de ser banda do interior paulista e tocar na capital. Parece que tem bandas que conseguem atravessar isso e outras que não. Então, quando a gente conseguiu, foi grandioso. Só que na véspera falaram para a gente que a bateria da casa tinha quebrado. Aí, de um dia para o outro, tivemos que levar nossa bateria para São Paulo. No fim, deu tudo certo e virou uma história ótima para contar.

MSKRM: Já existia público da Chococorn na capital?

CHCCRN: Já tinha alguma galera interessada. Na época, a gente tinha só quatro músicas lançadas, tudo muito caseiro, gravado na casa do Alê, com a gente aprendendo a fazer as coisas. Mas já existia um pessoal online que acompanhava a gente.

E esse show foi muito marcante porque a gente sentiu que conseguiu conquistar muita gente ali, inclusive porque a versão ao vivo estava melhor do que as gravações oficiais daquele momento. A sensação foi: “Como assim tem tanta gente curtindo isso, aqui em São Paulo?”. Foi muito forte.

Então veio a ideia de adaptar isso à nossa realidade no interior de São Paulo, e daí nasceu o ‘emo caipira’

(Chococorn and The Sugarcanes)

A Chococorn demonstrou uma percepção imediata, incomum para uma banda em ascensão, de que o projeto artístico vai além da música. Embora o impacto inicial tenha vindo dos shows, a banda consolidou sua posição ao entender que a obra inclui, intrinsecamente, comunicação, estética, produção de vídeo e presença digital.

Essa visão foi crucial para estabelecer uma conexão sólida com o público no período pós-pandêmico, um momento em que muitas pessoas ansiavam por sair, socializar e participar de atividades presenciais, após quase dois anos de isolamento em casa.

MSKRM: De onde veio essa capacidade de gerar identificação tão rápido?

CHCCRN: Acho que a gente sempre pensou a banda como um projeto inteiro de arte. Não era só música. Era audiovisual, comunicação, internet, rede social. A gente sempre gostou muito disso. Às vezes fazia coisas que nem tinham relação direta com a banda, mas tinham a ver com a gente como amigos. Um dos primeiros vídeos que viralizou foi uma dancinha no TikTok, em 2021, que depois pegou mais de 1 milhão de visualizações no Twitter. Foi a primeira vez que a gente furou a bolha.

MSKRM: O contexto pós-pandêmico ajudou?

CHCCRN: Muito. A gente surgiu nesse momento em que as pessoas queriam sair de casa e a gente queria fazer show. Então pareceu que a banda estava no lugar certo, na hora certa. A internet foi uma base muito forte para isso, porque muita gente conheceu a banda por ali primeiro, antes de ver ao vivo.

MSKRM: E quando surge o “emo caipira”?

CHCCRN: Foi um processo bem natural. A gente nunca teve tanta conexão com o emo brasileiro mais melancólico dos anos 2000. O que chamou mais atenção para a gente foi o Midwest emo, essa coisa mais ligada a amizade, amor, outros sentimentos além da tristeza. Só que a gente não queria importar isso de forma literal, como se fosse uma cópia americana. Então veio a ideia de adaptar isso à nossa realidade no interior de São Paulo, e daí nasceu o “emo caipira”.

MSKRM: Nesse conceito, existe também uma intenção de valorizar a cultura do interior?

CHCCRN: Sim. A gente vive no interior e sente que muitas vezes parece que tudo só acontece em São Paulo e no Rio. E claro que muita coisa acontece mesmo nesses lugares, mas a gente também queria jogar luz para o interior, mostrar que existe vida cultural aqui, que existem bandas, cenas, encontros. Isso é importante para a gente.

A gente sempre pensou a banda como um projeto inteiro de arte. Não era só música.

(Chococorn and the Sugarcanes)

Ao falar de referências, a Chococorn também deixa claro que sua formação não veio tanto da primeira geração do emo nacional, mas de um cruzamento entre bandas estrangeiras do passado e artistas brasileiros do presente. Em vez de reproduzir uma escola já consolidada, o grupo foi encontrando sua rota enquanto observava a cena contemporânea à sua volta.

MSKRM: Quais são as referências da banda?

CHCCRN: Quando a gente estava fazendo o primeiro disco, Siamês (2024), a gente estava muito mais conectado com a cena brasileira atual. Ouvia muito Bella e o Olmo da Bruxa, Eliminadorzinho, Lupe de Lupe... Não necessariamente todas essas bandas são emo, mas eram bandas que estavam fazendo coisas que a gente admirava e queríamos alcançar em termos de gravação, presença, caminho de carreira.

MSKRM: Então a inspiração vinha mais da cena atual do que da velha guarda do emo nacional?

CHCCRN: Sim. A gente foi conhecer a velha guarda só depois, inclusive conhecendo essas pessoas pessoalmente. Foi um processo meio inverso. O que a gente escutava do passado era mais gringo. Já a música brasileira que a gente consumia era a atual, da nossa geração.

A matéria continua após o vídeo

Essa transição de banda caseira para projeto em expansão também aparece na discografia. O primeiro álbum, Siamês (2024), feito em casa, ajudou a formar a base afetiva do público. Já o segundo, Todos os Cães Merecem o Céu (2026), representa um salto técnico e estético, com gravação em estúdio e produção mais robusta.

MSKRM: O novo álbum tem um salto claro de produção em relação ao anterior. Como foi esse processo?

CHCCRN: O primeiro disco foi tudo muito caseiro. A gente gravou na casa do Alê, num quarto pequeno, fez praticamente tudo por conta própria. Com o tempo, o disco acabou abrindo portas e a gente conseguiu um bom contrato. Isso permitiu gravar o álbum novo no El Rocha, com o Fernando Sanchez (ex-CPM 22), e com produção do Capilé (Sugarkane). Aí esse salto de qualidade ficou bem perceptível.

MSKRM: O que mudou para vocês nesse novo trabalho?

CHCCRN: Muda a gravação, muda a estética, muda o que a gente consegue entregar. A gente sabia que o primeiro disco era muito querido por quem já acompanhava, mas também podia ser uma barreira para um público mais amplo por causa da produção. Com Todos os Cães Merecem o Céu, a gente sente que pode furar essa bolha e chegar mais perto de um público de indie rock, de gente que talvez não entrasse antes.

MSKRM: Vocês também fizeram uma ação beneficente ligada ao disco. Como foi?

CHCCRN: Como o álbum gira em torno dessa temática dos cães, a gente criou uma campanha para arrecadar dinheiro para a ONG Patinhas Unidas. Fizemos 100 kits com camiseta, chaveiro e pôster, vendidos a R$100, cada. Lançamos numa sexta-feira e, no sábado de manhã, já tinha acabado tudo. No fim, arrecadamos um valor significativo para a doação. Foi muito bonito ver como o público abraçou a causa junto com a banda.

MSKRM: E agora vem uma turnê grande.

CHCCRN: Muito grande. A gente vai passar por 55 cidades, de Manaus até Buenos Aires e Montevidéu. Vai ser a primeira vez que a gente sai do Brasil para tocar. Para alguns de nós, vai ser a primeira vez saindo do país. Então tem um peso especial.

Se há um elemento que ajuda a explicar por que a Chococorn consegue sustentar esse crescimento, ele talvez esteja menos na lógica tradicional de divulgação e mais na capacidade de criar pertencimento. A banda não trata seu público apenas como audiência, mas como comunidade. E essa comunidade se organizou num lugar improvável para o imaginário mais clássico do rock: o Discord.

MSKRM: Como se constrói público em lugares tão distantes do interior paulista?

CHCCRN: Primeiro veio o público online. E não só da Chococorn. Existia uma cena inteira surgindo na pandemia e no pós-pandemia, em várias partes do Brasil, com referências parecidas, falando de coisas próximas, mesmo que com sons diferentes. A internet conectou isso. Depois, quando a gente passou a viajar, essas pessoas deixaram de ser só assunto de internet e viraram parte do mundo real.

MSKRM: Em que momento isso virou comunidade de fato?

CHCCRN: Acho que isso foi acontecendo naturalmente. Tem Discord, tem grupo de WhatsApp, tem gente que se conheceu por causa da banda e continuou ali. O mais bonito é que não parece uma base de fãs no sentido tradicional. Parece um grande grupo de amigos. A própria comunidade vai se gerindo, criando conteúdo, puxando conversa, propondo coisas. Não é como se tudo dependesse da gente o tempo inteiro.

MSKRM: Que tipo de ações vocês fazem com essa comunidade?

CHCCRN: Já teve servidor de Minecraft, live ranqueando Pokémon, listening parties no Discord na véspera dos lançamentos. Nesse disco, a gente lançou single atrás de single e, na noite anterior, ficamos em call com a galera, ouvindo junto quando virou meia-noite. No lançamento do álbum, a gente também fez uma listening party presencial e gratuita em São Paulo. É muito legal ver isso sair da tela e virar encontro de verdade.

MSKRM: O que mais te emociona nesse processo?

CHCCRN: Ver como isso atravessa a vida das pessoas. Já vimos gente que se conheceu na comunidade, criou banda por causa da Chococorn, começou namoro ali... Quando o álbum saiu, teve pessoa contando que a vida atual dela, os amigos, a banda, o namoro, tudo de algum jeito passou por essa comunidade. Isso mexe muito com a gente, porque as músicas são pessoais para nós. Ver que elas entram na vida dos outros desse jeito é um dos maiores motivos para continuarmos.

Não parece uma base de fãs no sentido tradicional. Parece um grande grupo de amigos.

(Chococorn and The Sugarcanes)

Esse senso de mundo expandido ajuda a entender por que a Chococorn and The Sugarcanes agora aposta em mais uma camada para o seu universo: um jogo online multiplayer, inspirado em Todos os Cães Merecem o Céu. Não se trata de um mero apêndice promocional, mas de mais uma forma de prolongar a experiência que ela já vinha construindo entre música, convivência, humor, estética e interação coletiva.

MSKRM: Vocês também vão lançar um jogo online. Como surgiu isso?

CHCCRN: Sempre enxergamos a banda como um espectro maior de arte. Então, além dos clipes, da turnê e dos lançamentos musicais, a gente quis fazer um jogo. Foi desenvolvido com o Raul Pavani e com a Sofia, que fez a arte. Ninguém da banda é game dev, claro, mas a ideia era expandir o universo do álbum.

MSKRM: O que já dá para adiantar?

CHCCRN: É um multiplayer cooperativo, local e online, jogável no navegador. A parte principal para a gente é justamente essa possibilidade de jogar junto, porque isso conversa muito com a nossa comunidade. Tem combate, quebra-cabeça, fases. A história é que as “forças do desrespeito” sequestraram todos os cães da Terra e a banda precisa resgatar esses cães. É um jogo simples em termos técnicos, mas muito pensado para ser divertido e para as pessoas jogarem juntas.

A matéria continua após o vídeo

A Chococorn ainda está no começo de sua trajetória, mas já encontrou algo que muita banda passa anos tentando definir sem conseguir. Tem linguagem própria, leitura de tempo, identidade visual, vínculo real com o público e uma forma de circulação que mistura o velho espírito comunitário do independente com as ferramentas de uma geração digital. Faz isso sem parecer cálculo frio, porque a base continua sendo amizade, repertório afetivo e verdade de vivência.

Num cenário em que tanta gente tenta fabricar pertencimento de cima para baixo, a Chococorn and The Sugarcanes parece ter chegado ao ponto central por outro caminho: fazendo com que a banda seja menos um produto fechado e mais um lugar onde pessoas se encontram.

Talvez por isso o “emo caipira” faça sentido. Não como rótulo de marketing, mas como tradução de uma experiência concreta que saiu do interior paulista e já começa a encontrar ressonância em outros territórios.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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