Em ‘Meu Remédio’, Mouhamed Harfouch mostra que aceitar quem somos pode ser cura
Peça autobiográfica mistura humor, memórias familiares e cultura árabe para refletir sobre identidade e pertencimento
R7 Teatro|Maria Cunha
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A busca por identidade muitas vezes começa pelo nome, pela família e pelas histórias que carregamos sem perceber. É desse ponto que parte Meu Remédio, solo em que Mouhamed Harfouch transforma memórias pessoais e heranças familiares em matéria-prima para o teatro.
Depois de passar por Juiz de Fora, cumprir uma longa temporada no Rio de Janeiro e conquistar o público em São Paulo, o espetáculo chegou ao seu último fim de semana no Teatro Santos Augusta, encerrando mais um ciclo de apresentações.
Veja também
Com direção de João Fonseca, a montagem também acumula reconhecimento da crítica: venceu o Prêmio FITA na categoria Melhor Dramaturgia, além de receber indicações para Melhor Direção e Melhor Ator, e conquistou ainda o Prêmio Arcanjo de Cultura na categoria Teatro Solo.
Escrita, produzida e estrelada por Harfouch, a peça leva ao palco uma história profundamente pessoal. No monólogo, o ator revisita suas origens familiares, a herança síria do lado paterno e a ascendência portuguesa da família materna, além dos caminhos que o levaram à aceitação de sua própria identidade. O resultado é um espetáculo que equilibra humor, memória e emoção sem perder a leveza.
Desde os primeiros minutos, Harfouch demonstra um domínio impressionante do palco. Sua presença cênica contagia a plateia, que rapidamente se vê envolvida pela narrativa e curiosa para acompanhar cada novo episódio de sua história. A condução do monólogo é marcada por um ritmo ágil e por uma naturalidade que faz parecer que o público está ouvindo confidências de um velho amigo.
Em um primeiro momento, o uso do violão pode causar estranhamento, como se o recurso musical surgisse de forma inesperada. No entanto, à medida que o espetáculo avança, as canções encontram seu lugar dentro da dramaturgia e passam a funcionar como extensões do humor e da narrativa. As músicas ampliam o tom afetivo do relato e ajudam a pontuar situações cômicas.
O riso, aliás, é constante. Harfouch constrói momentos de comédia a partir de lembranças familiares, encontros e situações do cotidiano, mas o espetáculo nunca se limita à piada. Aos poucos, a montagem revela uma camada mais sensível ao abordar algo aparentemente simples, mas cada vez mais necessário: a importância de aceitar aquilo que nos torna diferentes.
Nesse sentido, os elementos cenográficos cumprem um papel fundamental. Fotografias, objetos e até alimentos surgem em cena como extensões da memória, ajudando a materializar histórias que poderiam permanecer apenas no campo da palavra.
Há momentos em que o próprio Harfouch se emociona ao revisitar determinadas passagens de sua trajetória, e essa vulnerabilidade reforça o caráter íntimo da peça. Ao mesmo tempo, o espetáculo funciona quase como uma pequena aula sobre cultura árabe apresentada de forma acessível e bem-humorada, ainda que em alguns trechos a repetição de certas ideias torne o ritmo ligeiramente irregular.
O grande trunfo da montagem, porém, está no trabalho de interpretação. Assumindo sozinho a responsabilidade de conduzir a história, Harfouch encara o desafio do monólogo com segurança. Ao longo da peça, ele dá vida a diferentes personagens de sua família e de seu círculo de convivência, alternando vozes, gestos e posturas corporais com precisão. O resultado é um jogo cênico dinâmico, em que o ator se destaca especialmente pelo uso da comédia física.
O desfecho surge como um verdadeiro espetáculo à parte. Há uma sensação de que toda a estrutura da montagem caminha para esse momento final, talvez até de maneira um pouco calculada demais. Ainda assim, o impacto emocional funciona e encerra a experiência com intensidade.
Entre risos e memórias, Meu Remédio transforma a trajetória pessoal de Mouhamed Harfouch em um encontro afetuoso com o público. Mais do que narrar a própria história, o ator utiliza suas experiências para provocar uma reflexão sobre pertencimento, identidade e aceitação, temas que, tratados com humor e honestidade, encontram eco imediato na plateia.
✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

















