Nova montagem de ‘Ópera do Malandro’ mostra que o Brasil de Chico Buarque ainda existe
Com direção de Jorge Farjalla, montagem revisita o clássico do teatro musical e reforça a atualidade de seus temas
R7 Teatro|Do R7
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Montar um clássico como Ópera do Malandro é sempre um desafio: a obra é marcada por sua ironia social e pela força de suas canções, e qualquer nova montagem precisa equilibrar reverência e reinvenção.
Em cartaz até este fim de semana, a versão concebida e dirigida por Jorge Farjalla, com direção musical de Gui Leal, caminha justamente nessa linha ao atualizar o texto do musical brasileiro sem perder a essência crítica criada por Chico Buarque.
Ambientada no Rio de Janeiro dos anos 1940, a história acompanha o contrabandista Max Overseas Navalha (José Loreto), que se casa escondido com Teresinha (Carol Costa), filha de Durán (Ernani Moraes) e Vitória Régia (Totia Meireles), donos de uma rede de bordéis que sonham ascender socialmente.
Revoltados com a união da filha com um contrabandista, os pais passam a articular um golpe contra Max, desencadeando uma trama marcada por corrupção, traições e jogos de interesse.
Nesse contexto, José Loreto encarna com precisão o espírito do malandro: carismático, sedutor e irresistivelmente ambíguo. Ele faz o público se perguntar, em algum momento da peça, por que está torcendo por um contrabandista.
Entre os destaques do elenco também está Valéria Barcellos, que brilha como Geni, em uma interpretação que parece inevitável, como se tivesse nascido para o papel. Não é de se espantar que a plateia aplauda de pé em todas as sessões.
Já Carol Costa, como Teresinha, imprime às canções um efeito quase hipnótico: dá vontade de fechar os olhos e simplesmente ouvi-la cantar.
Entre os veteranos, Ernani Moraes se destaca como Durán e mostra que nunca é tarde para se aventurar no teatro musical, enquanto Totia Meireles confirma sua grandeza, equilibrando presença cênica e vocais precisos.
A montagem ganha ainda mais frescor com as novas músicas e referências atualizadas de Gui Leal, que reforçam como os temas centrais da obra — hipocrisia social, poder do dinheiro e apagamento de quem vive à margem — continuam surpreendentemente atuais.
O figurino de Ùga Agú ajuda a construir a estética festiva e popular da montagem, incorporando referências da cultura brasileira e reforçando o caráter estilizado do espetáculo.
A força coletiva do elenco funciona como um motor dramático: mesmo com protagonistas bem definidos, o ensemble traz personalidade e peso à narrativa, criando um palco vivo.
Em alguns momentos, porém, essa potência coletiva acaba disputando espaço com a própria trama. Quando todos brilham ao mesmo tempo, o foco narrativo se dilui — e é justamente aí que algumas informações importantes acabam se perdendo.
Com cerca de duas horas de duração e sem intervalo, o espetáculo mantém um ritmo intenso que raramente cansa, mas que exige atenção.
Um detalhe que poderia ter sido melhor explorado é a informação de que Lúcia é filha de Chaves, melhor amigo de Max. Essa revelação não é trivial: sustenta relações, motiva conflitos e ajuda a compreender o desfecho. Ao não explicitar isso claramente, a montagem cria pequenas lacunas para quem não conhece a obra original.
O final, por sua vez, pode causar estranhamento à primeira vista. Antes da música final, a narrativa parece interromper sua conclusão, dando a sensação de algo em aberto. A resposta surge em seguida, quase como um comentário irônico sobre a própria engrenagem teatral da peça, mas ainda assim um fechamento mais definido poderia aumentar o impacto da apoteose final.
Apesar desses pequenos deslizes, a montagem se afirma com personalidade própria — talvez seu maior mérito. Ópera do Malandro prova que não é apenas um clássico do teatro brasileiro, mas uma obra viva, capaz de ser reinventada e ainda provocar o público com a mesma força de sempre.
Entre malandros, dinheiro e moral flexível, a peça mostra que o Brasil retratado por Chico Buarque talvez nunca tenha deixado de existir.
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