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Teatro não dói no bolso: peças grátis e a preço popular fazem sucesso

Festivais, mostras e apresentações conquistam o público em todo Brasil

|Miguel Arcanjo Prado, editor de Cultura do R7

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Cena de O Testamento do Cangaceiro, um dos 71 espetáculos grátis do Festival de Teatro de Curitiba: público de 230 mil pessoas
Cena de O Testamento do Cangaceiro, um dos 71 espetáculos grátis do Festival de Teatro de Curitiba: público de 230 mil pessoas

Muita gente pensa que o teatro é arte inacessível ao bolso do brasileiro. Só que nem sempre é verdade. É claro que superproduções, como musicais e peças com famosos ainda têm ingressos que ultrapassam os R$ 100. Mas, para alegria de quem não possui bolso tão recheado, há também certa quantidade de espetáculos gratuitos, sobretudo nas grandes capitais.

Campanhas, mostras e festivais em todo Brasil oferecem espetáculos gratuitos ou com ingresso de até R$ 15 a inteira. O que ocorre é que a informação não chega a todos, já que teatro recebe pouca cobertura nos meios de comunicação quando comparado a outras expressões artísticas, como a música e o cinema.


É preciso, segundo os artistas ouvidos pelo R7, criar em todo o País o hábito de frequentar teatro. Contudo, mesmo com uma população que ainda não vê espetáculos em massa, eventos teatrais atraem multidões.

Festivais são pólo de peças grátis


Exemplos pelo País não faltam. Entre os dias 22 e 27 de abril próximos, 15 peças de sete países serão apresentadas gratuitamente no Memorial da América Latina, em São Paulo, na 7ª edição do Festibero (Festival Ibero-Americano de Teatro de São Paulo).

O Festival de Teatro de Curitiba, que terminou no último dia 6 de abril, fechou com público de 230 mil pessoas, o dobro, por exemplo, do público de 180 mil pessoas do festival musical paulistano Lollapalooza, que aconteceu na mesma época. Neste ano, o maior festival teatral do Brasil ofereceu 71 espetáculos gratuitos apresentados em ruas, praças e teatros paranaenses.


Leia a cobertura completa do R7 no Festival de Teatro de Curitiba!

O diretor do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz, diz que conseguir apresentações com entrada franca já é tradição na maior festa do teatro no Brasil.


– As apresentações de rua fazem parte do Festival desde a primeira edição e, com o passar do tempo, cresceram muito. Hoje, têm uma importância fundamental ao levar o teatro para as ruas e envolver a cidade num grande clima de celebração.

Para muita gente, tais peças foram a única oportunidade de ver um espetáculos, já que as entradas da Mostra Oficial custaram R$ 60 a inteira e R$ 30 a meia.

Movimento Sem Ingresso

Muitos espectadores, porém, não se contentam apenas com as peças grátis e fazem barulho à frente dos teatros das peças pagas, pedindo doações de entradas. Em Curitiba, já é tradição o Movimento Sem Ingresso.

Anderson Ribeiro, que integra o MSI, conta que, na edição de 2013, eles conseguiram “doar mais de 2.000 ingressos” e ainda conseguiram a liberação de 500 pessoas para ocuparem lugares que ficaram vagos.

– Para nós ainda é pouco. Nossa meta em 2014 foi chegar aos 4.000 ingressos.

Ele afirma que o grupo geralmente tem apoio dos artistas, como da Cia. Mugunzá, que protestou junto ao MSI para fazê-los entrar no teatro sem pagar e poder ver o sucesso teatral Luis Antonio-Gabriela em uma das edições do festival.

Mineiros no teatro

E a sede por teatro não está só em Curitiba. Em Belo Horizonte, além do bianual FIT-BH (Festival Internacional de Teatro), que tem público de 165 mil pessoas e será realizado em maio agora, todo começo de ano é época de ir ao teatro. A Campanha de Popularização do Teatro e da Dança já é tradição no verão da capital mineira. Em 2014, a 40ª edição atraiu público de quase 300 mil pessoas. O preço da entrada para os 151 espetáculos apresentados, entre infantis, adultos e de dança, variaram entre R$ 5 e R$ 12.

As comédias são os espetáculos que mais chamam a atenção dos mineiros. Uma já é estrela absoluta do evento e sempre bate recorde de público: Acredite, um Espírito Baixou em Mim, que foi vista por quase 28 mil pessoas só na última campanha. Desde sua criação, a obra já foi assistida por mais de 2 milhões de pessoas.

Leia o blog Atores & Bastidores, por Miguel Arcanjo Prado

Filas e gratuidade

E na maior cidade do País, São Paulo, onde também há maior oferta cultural, sempre há mais de uma dezena de espetáculos gratuitos toda semana.Segundo a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, em 2013 foram apresentados nos teatros distritais 90 peças gratuitas, que foram vistas por cerca de 10 mil pessoas.

Além disso, outros festivais, como a MITsp (Mostra Internacional de Teatro), também tiveram todas as suas entradas gratuitas. O evento aconteceu em março e distribuiu 14 mil ingressos grátis, gerando filas enormes, já que a procura foi grande, como conta ao R7 o diretor do evento, Guilherme Marques.

– Não imaginávamos um sucesso tão grande. Vamos fazer a próxima edição de 6 a 15 de março de 2015 e vamos manter a gratuidade. É um evento financiado com dinheiro público. Então, acho natural que o acesso seja livre e gratuito.

Marques, que ressalta que “o público foi educado e se comportou muito bem”, revela que já planeja uma equipe só para cuidar da fila na próxima edição.

"É preciso mais"

Outros festivais teatrais paulistanos, como a Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, que acontece no Centro Cultural São Paulo, também realizam a política de entrada franca em suas montagens. Nos teatros distritais da Prefeitura de São Paulo, que tiveram público de 70 mil pessoas em 2013, quando as peças não são gratuitas, a praxe é de espetáculos com ingresso que custa até R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia-entrada.

Além disso, a grande maioria dos 360 projetos aprovados em 24 edições do Programa de Fomento ao Teatro Municipal de São Paulo, referência em todo País, fizeram temporadas com sessões gratuitas. Na última edição, cerca de 20 grupos ganharam verbas públicas entre R$ 200 e R$ 600 mil para fazer pesquisa teatral. Nada mais justo do que sessões de livre acesso à população.

O produtor teatral Felipe Rodrigues, do Grupo Apolo de Teatro, de Mauá, na Grande São Paulo, acredita que iniciativas como estas precisam ser ampliadas. A trupe estreou no Festival de Teatro de Curitiba a peça Geração 20 Centavos, inspirada nos protestos recentes no Brasil. Ele afirma que seu grupo sempre faz peças com entradas até R$ 10 como forma de atrair público.

– É preciso despertar o interesse do público pelo teatro, e não só para stand-up e musicais. É preciso criar o hábito de ver teatro. E espetáculos grátis ou a preço popular ajudam muito nisso. Os governos precisam incentivar cada vez mais ações deste tipo.

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