Quando as baleias chegam, o litoral sul da Bahia muda de ritmo
Há viagens que começam com um destino. Outras começam com uma paisagem. E existem aquelas que começam quando a natureza decide aparecer diante dos nossos olhos
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No litoral sul da Bahia, entre julho e novembro, acontece algo que, quem já viu, nunca esquece, e quem nunca viu, precisa ver com os próprios olhos. É nessa época que as baleias-jubarte deixam as águas geladas da Antártica e percorrem cerca de 4 mil quilômetros até a costa brasileira.
O destino são águas mais quentes e tranquilas, onde elas vêm para se reproduzir, dar à luz e cuidar dos filhotes nos primeiros meses de vida.
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E é justamente aí que Prado entra nessa história. Localizado no extremo sul da Bahia e integrado à chamada Costa das Baleias, o município está próximo do Banco dos Abrolhos, uma das principais áreas de reprodução da espécie no Atlântico Sul e, para quem se hospeda na cidade, existem diversos passeios com destino à Ilha de Abrolhos e outros pontos de avistamentos onde as jubartes dão um show.
As baleias que chegam à Bahia passaram meses se alimentando nas águas antárticas e agora enfrentam uma longa viagem movida pelas reservas de energia acumuladas nesse período.

Aqui, praticamente não se alimentam. O objetivo é outro: encontrar águas adequadas para o acasalamento, a gestação, o nascimento e os primeiros cuidados com os filhotes.
Para os recém-nascidos, essa mudança é fundamental. Ainda com pouca gordura corporal, eles não teriam condições de enfrentar as baixas temperaturas das águas antárticas. No litoral baiano, encontram um ambiente mais quente e protegido, onde podem ganhar força antes de seguir viagem.
E é possível testemunhar parte desse processo. Os passeios de observação levam os visitantes para alto-mar, acompanhados por equipes especializadas e seguindo as normas de preservação ambiental. Não existe garantia de espetáculo, e talvez seja justamente isso que torne a experiência tão especial.
Você entra no barco sem saber exatamente o que vai encontrar. Pode ser uma batida de cauda surgindo no horizonte. Um salto inesperado. Uma nadadeira rompendo a superfície. Uma mãe acompanhada de seu filhote. Ou apenas o sopro de uma baleia aparecendo por alguns segundos e desaparecendo novamente no oceano.
Às vezes, o que fica na memória nem é a fotografia. É o silêncio de alguns segundos depois que todos percebem que há uma baleia ali.

A temporada das jubartes também revela um outro Prado. O destino, conhecido por suas praias, falésias coloridas, gastronomia e vilarejos cheios de personalidade, ganha uma nova dimensão quando observado a partir do mar.
De Guaratiba a Cumuruxatiba e Corumbau, passando pela sede do município, o litoral guarda diferentes maneiras de viver essa relação com a natureza, e você percebe que um dos grandes encantos de viajar para acompanhar as baleias não termina quando o barco retorna à praia.
Quando alguém viaja milhares de quilômetros para observar um animal em seu ambiente natural, não leva apenas uma fotografia de volta para casa. Leva também uma história e, muitas vezes, uma nova consciência sobre a importância daquele lugar, fortalecendo uma ideia de turismo que considero cada vez mais importante: aquela em que preservar a natureza deixa de ser apenas uma obrigação e passa a fazer parte da própria experiência do visitante.
Segundo estimativas associadas ao Projeto Baleia Jubarte, cerca de 35 mil baleias-jubarte devem passar pelo litoral de Prado durante a temporada de 2026. É um número impressionante, mas talvez a melhor maneira de entender a grandeza desse fenômeno seja esquecer os números por alguns minutos e imaginar o oceano à sua frente.
Você está em um barco. O horizonte parece infinito. E, em algum ponto daquele azul, uma baleia que atravessou milhares de quilômetros para chegar até ali pode surgir na superfície.
É impossível não diminuir o ritmo.
Talvez seja por isso que algumas viagens nos ensinam tanto sobre os lugares e sobre nós mesmos. Porque existem experiências que não precisam de grandes estruturas, atrações artificiais ou roteiros perfeitamente planejados.
Basta estar no lugar certo, na hora certa, e permitir que a natureza conte a sua própria história. Em Prado, durante a temporada das jubartes, essa história passa pelo mar, e tem um detalhe ainda mais bonito:
As baleias são baianas. Elas nascem lá.
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