O dia em que parei de economizar vida
Sempre fui apaixonada por canetas coloridas, talvez como toda menina que ama diários e cultiva sonhos

Quando criança, ganhei um presente inesquecível: duas canetas “gel”, recém-lançadas na época. Tinham brilho, até perfume, e cores inconfundíveis: uma dourada, a outra prata.
Nas páginas das minhas agendas, eram elas que desenhavam as palavras principais, no topo das folhas. Eu queria que servissem ao texto inteiro. Mas me continha.
Tinha dó de usar aquelas canetas. Sonhava que suas tintas fossem infinitas. Como não eram, economizava.
Sempre que as pegava para escrever, me perguntava: essa palavra é importante o suficiente para estar em dourado ou prata? Muitas vezes, não era.
E a caneta voltava para o estojo.
Os anos passaram. Tornei-me jornalista, habituada a escrever reportagens em tinta azul.
E as canetas coloridas da infância provavelmente terminaram cheias de tinta, esquecidas, ressecadas, quebradas em algum lixo por aí.
O câncer me ensinou que a vida tem fim, e essa foi a escola mais transformadora que frequentei. Parece bobo, mas a doença me fez lembrar das canetas. E do senso de urgência em usar suas tintas coloridas!
Adulta, voltei à papelaria com a mesma empolgação daquela menina. Agora, as opções eram infinitas. Comprei novamente canetas gel coloridas: roxa, rosa, dourada…
E comecei a escrever com elas, textos inteiros.
Quando o velho impulso de economizar reaparece, eu escrevo mais.
Reaprender o cérebro a um novo padrão não é simples. Mas eu mando nele sempre que ele tenta me convencer a guardar para depois.
Hoje, acendo as velas cheirosas da casa todos os dias. A que ganhei de uma amiga no fim do ano, já está prestes a acabar. A essência se vai, como o fluxo da vida, que precisa morrer para nascer de novo.
Toda vez que saio de casa, borrifo quatro vezes no pescoço e no pulso, um perfume importado que ganhei de aniversário de um bom amigo e já está na metade! Passo porções generosas de creme no corpo, uso a roupa bonita que comprei diversas vezes, sem medo de gastá-la demais.
Não significa ser imprudente. Ainda deixo um pouco para amanhã.
Viver intensamente não é desperdiçar, é saber colocar cada coisa em um determinado prato, e equilibrá-los com a beleza da coragem, não com o impulso da ousadia.
Afinal, a gente nunca sabe quanto tempo tem. Mas sabe que tem agora!
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