10 curiosidades sobre Sigmund Freud e a comida em sua vida
Muito além da psicanálise: descubra os sabores e os hábitos à mesa que revelam um lado surpreendentemente humano de Freud
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Existe algo curiosamente parecido entre grandes gênios e a comida: ambos revelam muito sobre os desejos humanos. À mesa, manias discretas, preferências improváveis e pequenos rituais dizem tanto quanto livros inteiros. Talvez por isso histórias gastronômicas de figuras célebres sejam tão fascinantes.
Conta-se que Thomas Edison, por exemplo, costumava observar candidatos durante entrevistas enquanto tomavam sopa. Quem adicionasse sal ou pimenta antes da primeira colherada era eliminado imediatamente — para ele, aquilo demonstrava precipitação.
Já Charles Darwin levou sua curiosidade científica ao extremo. Durante os anos em Cambridge, criou o irreverente “Glutton Club”, uma confraria dedicada a provar carnes exóticas. Entre uma teoria evolucionista e outra, o naturalista experimentava corujas, falcões, tartarugas gigantes e até iguanas.
Sigmund Freud, pai da psicanálise, também possuía uma relação bastante particular com a comida. Entre cafés vienenses, sorvetes caseiros e longos almoços em família, seus hábitos gastronômicos revelavam um homem muito mais doméstico, sensível e curioso do que costuma sugerir a imagem austera eternizada nos livros.
1. Freud inspirou livros sobre sua vida à mesa
A paixão pela gastronomia parece ter atravessado gerações da família Freud. Décadas após a morte de Sigmund, seu sobrinho Clement Freud — jornalista, escritor, radialista e um dos críticos gastronômicos mais respeitados do Reino Unido — eternizou esse legado no livro Freud on Food, publicado em 1978.
Muito mais do que um simples livro de receitas, a obra mistura memórias, humor britânico e histórias à mesa, revelando como a comida pode ser um poderoso elemento de identidade, afeto e cultura.
Embora o livro reflita sobretudo o universo culinário de Clement, ele ajuda a reforçar uma curiosa tradição familiar: a mesa dos Freud sempre foi um espaço privilegiado para boas conversas, observações sobre a natureza humana e, naturalmente, excelentes refeições.
Grande parte das informações sobre os hábitos alimentares de Freud aparece em outra obra literária. Zu Tisch bei Sigmund Freud (À Mesa com Sigmund Freud) foi escrito por Katja Behling-Fischer. A obra mergulha na intimidade culinária do psicanalista e revela como refeições, hospitalidade e convivência familiar ocupavam um espaço importante em sua rotina.
2. Ele adorava colher cogumelos nas férias

Durante os verões, Freud gostava de levar os filhos para passeios ao ar livre em busca de ervas aromáticas, especiarias e cogumelos silvestres.
A cena parece saída de uma pintura austríaca: trilhas úmidas, cheiro de terra molhada e cestos sendo preenchidos lentamente.
Sua esposa Martha, porém, não compartilhava exatamente do mesmo entusiasmo. Preferia comprar cogumelos no mercado, talvez desconfiando da habilidade do marido em distinguir espécies comestíveis das venenosas.
3. Freud tinha um olhar afetuoso para os animais
Segundo relatos de seu filho Martin, Freud repetia frequentemente: “Não se deve matar nenhuma galinha. Deixem-nas viver e botar ovos.”
A frase revela um lado menos conhecido do criador da psicanálise: alguém sensível aos pequenos gestos cotidianos e ao respeito pelos animais.
4. Seu grande conforto gastronômico era simples: sorvete de baunilha
Entre pratos sofisticados e ingredientes frescos, havia um prazer quase infantil que conquistava Freud completamente: sorvete de baunilha caseiro.
É fácil imaginar o psicanalista encerrando um jantar vienense com uma taça gelada e perfumada, enquanto conversas longas atravessavam a noite iluminada por velas.
5. Freud valorizava ingredientes frescos muito antes disso virar tendência
Décadas antes do conceito “farm to table” se tornar moda nos restaurantes contemporâneos, Freud já valorizava alimentos frescos, sazonais e vindos diretamente do produtor.
Gostava da ideia de conhecer a origem da comida e apreciava ingredientes em seu estado mais natural — uma visão surpreendentemente moderna para a Viena do início do século 20.
6. Entre seus alimentos favoritos estavam aspargos e alcachofras
Os gostos culinários de Freud revelavam certa sofisticação europeia. Entre seus ingredientes preferidos estavam aspargos, espigas de milho e alcachofras italianas.
Não eram escolhas extravagantes, mas ingredientes elegantes, delicados e muito presentes na culinária austríaca e italiana frequentada pela burguesia intelectual da época.
7. Sua relação com a comida kosher era controversa
Embora judeu de origem, Freud acreditava que a alimentação kosher não era saudável. Por influência dele, Martha abandonou diversas tradições alimentares judaicas durante o casamento.
Curiosamente, após a morte do marido, ela voltou a seguir os costumes kosher — como se a comida também pudesse funcionar como reencontro afetivo e espiritual.
8. Seus cães participavam das refeições
Freud era profundamente apaixonado por cachorros. Seu companheiro mais famoso chamava-se Yofi — palavra hebraica que significa “adorável”.
Yofi participava das sessões de psicanálise, circulava pela casa durante os atendimentos e também se acomodava discretamente ao lado da mesa nas refeições familiares.
Freud frequentemente dividia comida diretamente de seu prato com o animal, colocando-o no chão para que o cão comesse confortavelmente. Era um gesto simples, mas revelador da intimidade afetiva que mantinha com seus companheiros de quatro patas.
9. O Café Landtmann era seu refúgio favorito em Viena

Poucos lugares representam tão bem a atmosfera intelectual vienense quanto o tradicional Café Landtmann.
Freud frequentava o café regularmente enquanto morava na famosa Berggasse 19, endereço onde viveu entre 1891 e 1938.
No Landtmann, gostava de sentar sempre na mesma mesa, em um canto discreto voltado para a rua. Ali encontrava silêncio, observava o movimento da cidade e tomava seu café curto enquanto organizava pensamentos e ideias, desfrutando do aroma de café recém-passado.
10. A mesa de Freud dizia muito sobre quem ele era
Por trás do homem que investigou sonhos, desejos e os mistérios da mente humana, existia alguém profundamente ligado aos pequenos prazeres cotidianos: um sorvete artesanal, um bom café, cogumelos colhidos em família e cães deitados ao lado da cadeira durante o jantar.
Talvez seja justamente isso que torne essas histórias tão fascinantes. Porque, no fim, até os maiores pensadores do mundo também encontravam conforto em sabores simples, aqueles capazes de transformar uma refeição comum em memória afetiva.
*Dedico este artigo à psicanalista Mariana Gomes Amado.
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