Versão nigeriana de This is América cria polêmica com muçulmanos
Cenas de decapitação com facão e meninas de Chibok fazendo dança popular ofenderam grupos locais
Música|Thiago Calil, do R7

A música This is Nigéria (Essa é a Nigéria), do rapper Folarin Falana, conhecido como Falz, tem causado polêmica no país africano. Isso porque o clipe do hit, que já conta com mais de 5 milhões de visualizações, faz duras críticas à sociedade nigeriana, citando o alto consumo de drogas por jovens, a falta de ação das autoridades após os sequestros de estudantes de Chibok, corrupção, entre outros problemas. Para os críticos, porém, as referências usadas no clipe são de mau gosto.
Entre as cenas polêmicas estão um pastor Fulani que usa um facão para decapitar uma pessoa e garotas de Chibok fazendo uma dança popular conhecida como Shaku Shaku.
Em 2014, o grupo radical islâmico Boko Haram sequestrou mais de 200 alunas da cidade de Chibok. O caso foi destaque em todo o mundo e gerou uma campanha intitulada Bring Back Our Girls (tragam de volta nossas garotas, em tradução livre). Apenas 106 foram encontradas ou libertadas, enquanto mais de 100 ainda estão em cativeiro.

Em um comunicado enviado neste domingo (10), o grupo de direitos humanos mulçumano Muric disse que as vítimas do sequestro não teriam motivo para estarem dançando como se estivessem sob efeito de drogas. Os ativistas pediram que o vídeo seja editado e chegaram a cogitar acionar o rapper judicialmente, mas optaram por buscar meios de censurar o clipe.
"Se somos todos nigerianos, não devemos incitar um grupo contra outro", diz o comunicado assinado pelo diretor da Muric Is-Haq Akintola, que ainda sugere que o clipe poderia mostrar pais de garotas que ainda estão procurando suas filhas. "Isso seria um retrato correto do que está acontecendo em Chibok ."
Falz chamou as acusações contra o vídeo de absurdas e, em entrevista à agência de notícias Reuters, disse que as referências eram claramente simbólicas e os críticos estão incitando a violência.
A Nigéria é dividida entre cristãos e muçulmanos. São mais de 200 grupos étnicos no país africano. Entre os problemas locais estão o fraco crescimento econômico, a corrupção e a violência avassaladora, em especial entre pastores muçulmanos Fulani e agricultores cristãos. Além da ação radical do Boko Haram no norte do território.
Falz, que estudou para ser advogado, disse a Reuters que vai continuar usando a música como agente de mudança. "A influência real que você pode ter como artista, como pessoa de influência, é quando você começa a usar sua voz”, argumentou.
O clipe de Falz foi elogiado pelo produtor de música norte-americano Diddy, que postou o vídeo no Instagram. “Enviando amor à Nigéria. Tantos artistas lindos e incríveis renovando o cenário”, escreveu.

América x Nigéria
This is Nigéria é uma versão precisa de This is América, de Childish Gambino. O vídeo protesto original denuncia o racismo nos Estados Unidos, a violência contra os negros e diz que os americanos são mais cuidadosos com as armas do que com as vítimas delas. O clipe, lançado a pouco mais de um mês, já teve mais de 260 milhões de visualizações e causou polêmica, principalmente, pelas cenas fortes, ironia e simbologias do clipe. Além de um assassinato, o clipe relembra o massacre de nove membros de uma igreja da comunidade negra de Charleston, na Carolina do Sul, em 2015.















