Babenco, as aventuras do cineasta da selva
Um pouco dos bastidores da produção de Brincando nos Campos do Senhor
Pop|Por Celso Fonseca

Hector Babenco filmando na Amazônia uma produção de Hollywood com os atores mais incensados da época — tanto em fama como em prestígio — como Tom Berenger (famoso por Platoon), Daryl Hannah (a replicante de Blade Runner), Tom Waits, John Lithgow, Kathy Bates e Aidan Quinn ao lado de Saul Zaentz, produtor dos clássicos vencedores do Oscar O Estranho no Ninho e Amadeus, era uma pauta e tanto para um jovem repórter do então Jornal da Tarde paulistano. Naquele junho de 1990, em plena Copa do Mundo da Itália, seguimos para Belém eu, o fotógrafo Sergio Amaral e outro repórter do Estadão, Eduardo Bueno, o Peninha, que conhecia por ter traduzido Pé na Estrada, de Jack Keruac, livro marco da chamada geração beat que tardiamente sacudia os meios literários do País e conhecido por ser chapa de ninguém menos que Bob Dylan.
Em Belém encontramos um Babenco tenso, já incomodado com a doença e com saudades da então mulher, Xuxa Lopes, que estava para chegar. Nos hospedamos no mesmo hotel que a produção e pegar o elevador com Daryl Hannah no auge da beleza com seu fone de ouvido era uma experiência transcendente. Com as primeiras luzes da manhã fomos de barco até o set, o calor sufocava. Atravessamos o rio Amazonas cercados por aningueiras, vegetação típica do lugar e lembro que usei essa imagem para a primeira reportagem. No set, uma cidade fictícia erguida no meio selva, o nome era algo como Santa Madre de Dios, vimos um Babenco enérgico gritando ação com o sotaque argentino que nunca perdeu. A cena tinha José Dumont vestido como policial. Ele avisou que conversaria com a gente só no hotel. Lembro da onipresença de Saul Zaentz e suas barbas brancas no set, acompanhando tudo de perto, take por take e da doçura com que nos tratou.
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Daryl Hannah encostava a cabeça no colo de Tom Berenger segurando um ventilador de mão e a voz rouca de Tom Waits falava algo ininteligível embaixo de um guarda-sol. Almoçamos todos numa mesa de madeira, e a conversa girou em torno do filme Um homem Chamado Cavalo e do interesse de Berenger pelos rituais dos índios Sioux americanos.
Entrevistei um divertido e falante especialista em efeitos especiais mexicano e o sempre ótimo Lauro Escorel, diretor de fotografia e braço direito de Babenco em suas agruras num projeto tão caro e em condições inóspitas. No encontro com Babenco, já no hotel, ele parecia tenso com a pressão de administrar a produção complicada e regida por personalidades badaladas. Estava ansioso pela chegada da mulher e falou de um futuro projeto que jamais realizou, filmar O Corto Maltese, clássico dos quadrinhos de Hugo Pratt. Sugeriu ainda que fizéssemos uma reportagem com a preparação do elenco de índios, o filme tratava da experiência de missionários. No dia seguinte, sentei na sua cadeira de diretor por alguns momentos onde sombra e água de coco fartavam. Ele me perguntou sério: o senhor não tem nada melhor para fazer em São Paulo.
Anos mais tarde nos reencontramos para uma longa entrevista para a revista IstoÉ. Recordei o episódio e rimos. Ele me falou da doença, do câncer, do irmão que doou a medula para ele e o salvou e relatou muitos sonhos, alguns fantásticos que dariam um filme, de Babenco ou Kurosawa. Lembrou mais uma vez, como sempre fez, que havia se naturalizado brasileiro e portanto era um erro chama-lo de argentino.

