Jovem quebra preconceitos e vira referência de passinho no Brasil
Celly, que integra o elenco de 'Dance Como', da Red Bull TV, venceu o machismo, a dor da perda e encontrou na dança a principal expressão
Pop|Ricardo Pedro Cruz, do R7*

Celly nasceu e cresceu no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, subúrbio da zona norte do Rio de Janeiro. Negra, mulher e de origem pobre, a jovem de 21 anos encontrou na dança — mais precisamente no passinho — o caminho para desconstruir preconceitos, sobreviver a conflitos entre facções criminosas e, ao se empoderar da própria realidade, fez do corpo a principal forma de expressão humana e social.
Com passagens pelos Estados Unidos, Suíça e França, ela integra agora o elenco da série documental Dance Como, da Red Bull TV, que conta, em quatro episódios, as histórias de profissionais que se tornaram referência em diferentes estilos (Veja o terceiro capítulo abaixo).
Em conversa com o R7, a dançaria falou da relação com o preconceito e a importância de algumas referências musicais e pessoais no processo de descoberta da própria linguagem corporal.
“Coisa de menino”

As primeiras tentativas de contato com o movimento, que surgiu nos anos 2000 nas favelas do Rio de Janeiro e até então era "coisa de menino", colocavam a dançarina sempre de frente a uma mesma barreira: o machismo.
Ambiente predominantemente masculino, ela precisou "botar o dedo na cara dos homens" e reivindicar o direito de entrar na "rodinha" — aglomeração de praticantes do estilo.
— Eu sempre pedia para os meninos. Tem um primo meu que dançava na época. Eu falava: "'Po', me ensina isso, me ensina aquilo". Ele falava que não. Que passinho era uma parada que era só para homem fazer. Que mulher não tinha que fazer passinho. Que mulher tinha que rebolar.
"Eu botava o dedo na cara dos homens e caia pra dentro das rodinhas"
Diante das negativas frequentes dos garotos, inclusive de familiares próximos, Celly entendeu que precisaria dar um jeito de se apropriar daqueles passos por conta própria.
— E, daí, veio a ideia de que eu teria que aprender olhando, porque ninguém iria me ensinar. Até eu conhecer esse amigo da minha prima, que acabou virando meu amigo.
O amigo

O início de uma amizade mudaria tudo em 2007. Apresentados por uma prima, a jovem conheceu Alex Serra — um dos grandes incentivadores dela no movimento e com quem trocou e experimentou novas formas de dançar. Foi nesse período, inclusive, que Celly percebeu que daria para misturar frevo e movimentos de capoeira ao passinho (expressão cultural que conheceu por influência direta do pai).
— Ele foi o único que abraçou e falou: "Eu posso te ensinar. Mas, o que você sabe?". A gente trocava passos. Foi a partir daí que eu comecei a me entender como dançaria de passinho.
Entretanto, a parceria entre os dois ganharia um final trágico. Em 2009, período de conflitos intensos entre facções criminosas na zona norte do Rio, Alex foi perseguido e "brutalmente assassinado" após frequentar um baile funk.
— No dia seguinte, estavam caçando ele para matar. Ele só foi para dançar, para curtir. Ele foi brutalmente assassinado. Eu fiquei meses sem dançar, com medo de colar em outras comunidades.
O medo e a tristeza pela morte prematura do amigo fizeram com que a jovem se afastasse da dança por alguns meses.
— Eu ficava com medo de ir para a casa da minha tia por conta desse role. Meio que eu fui parando. Fiquei uns três meses sem dançar. Doeu muito o fato de ele ter sido assassinado. Foi ele quem me ensinou. Foi um dos caras que mais me ensinou musicalmente, como encaixar passos na música, em que momento eu deveria fazer o que.

Patrimônio imaterial da capital fluminense, o passinho vem ultrapassando as fronteiras da cidade e ganhando o mundo. Celly, que após enfrentar a perda de um grande amigo, o machismo e a violência que atinge cotidianamente o povo negro e pobre brasileiro, parece ter usado todas as barreiras como combustível para seguir em frente e, por meio do próprio corpo, encontrado a própria forma de se colocar na vida.

