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Matheus Nachtergaele revive Joãosinho Trinta no cinema: “É a história de um herói”

Ator fala sobre encontro com o carnavalesco e a dificuldade de interpretá-lo

Pop|Nathalia Ilovatte, do R7

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Cartaz do filme Trinta, protagonizado por Nachtergaele
Cartaz do filme Trinta, protagonizado por Nachtergaele
Nachtergaele na fase de Joãosinho no balé municipal
Nachtergaele na fase de Joãosinho no balé municipal
Matheus como Joãosinho Trinta no barracão da Salgueiro
Matheus como Joãosinho Trinta no barracão da Salgueiro

De São Luís do Maranhão a um burocrático escritório no Rio de Janeiro, dos palcos do teatro municipal ao barracão da Salgueiro, e, finalmente, à Marquês de Sapucaí. A trajetória que transformou o maranhense Joãosinho Trinta no maior carnavalesco do Brasil é contada com uma atuação arrebatadora de Matheus Nachtergaele em Trinta. Dirigido por Paulo Machline, o ator promete emocionar nas salas de cinema, a partir desta quinta-feira (13).

Antes de morrer, Joãosinho Trinta deu a Nachtergaele o aval para interpretá-lo no longa. E para viver o artista, que morreu em dezembro de 2011, Matheus mergulhou na personalidade que ele não deixava transparecer na avenida. 


Embora tenha tido apenas um encontro com o carnavalesco, o ator enxergou naquele homem, já com a saúde debilitada e a idade avançada, um olhar de criança ainda inquieta com a vida. Usou essa percepção como norte para compor o personagem, mas quis ir além e também frequentou aulas de balé para submeter o próprio corpo às mesmas dores que Joãosinho passou para chegar aos palcos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, experiência fundamental na formação do carnavalesco. 

Em entrevista, Matheus Nachtergaele falou sobre a emoção de ver um desfile de Carnaval ser construído num barracão, dia após dia, e compartilhou os prazeres e dificuldades de viver Joãosinho Trinta no cinema.


R7: Qual foi a cena que mais te emocionou?

Matheus Nachtergaele: Nesse filme é difícil escolher, porque o roteiro é bem bom. É a história de um herói, um cara que vem de longe, passa dificuldades, vem um primo repreendê-lo por causa do balé e de uma certa orientação sexual, depois quando chega no barracão tem as dificuldades com todas as pessoas da comunidade. É um personagem que sofre, e isso tem a ver com a realidade mas também tem a ficção, para fazer com que o momento em que abrem o barracão seja mais emocionante. E essa cena sempre me arrepia.


A gente teve que construir um Carnaval e fazer isso aos poucos. Então todo dia que eu chegava, tudo tinha caminhado um pouco mais, como se eu estivesse vendo um Carnaval sendo montado. Nas horas de espera eu ia ver o pessoal trabalhando nos bastidores, fazendo um carro alegórico novo. Isso foi muito emocionante, acompanhar durante o filme aquilo crescendo na minha frente.

Mas, como ator, o momento mais forte talvez tenha sido quando pega fogo numa parte do desfile e parece que tudo acabou. Naquele momento eu estava bem cansado. E eu tentei colocar o cansaço dele como meu também, minha lágrima é bem verdadeira. 


R7: E qual foi a cena que mais te divertiu?

Matheus: Tem o momento em que ele dá um piti. Ele fica o tempo todo tentando segurar a onda. E tinha uma menina muito engraçada que vinha me falar que não queria sair de fantasma. E eu chacoalhei a menina e empurrei, gritando “não tem fantasma!”. A gente fez algumas vezes, e falei para o Paulinho [Machline, diretor do filme]: “Achei um pouco demais o Joãosinho chacoalhar a menina”. Eu decidi que não ia mais fazer isso porque era um filme de homenagem. Só que quando a gente fez a cena a menina voltou e não saía mais do meu lado, falando “eu não quero ser fantasma, eu não quero ser fantasma”, e eu tive que chacoalhar a menina. Virou uma marca registrada. Foi o momento mais divertido.

R7: Como foi ter aulas de balé?

Matheus: Muito duro. Nunca imaginei que fosse tão duro. Tinha noção de que era uma coisa dura, e eu sabia que o balé é uma arte que pede do corpo humano o que não é natural. Nenhuma posição do balé é natural. É a partir dessa deformação que se faz a poesia do balé. O sublime do balé está nesse quase sobrehumano.

Eu nunca fiz balé clássico, apesar das aulas de consciência corporal, mas nunca tinha passado por uma doma tão severa. Deixou uma marca em mim e achei importante passar por isso para as filmagens.

Nunca imaginei que aquele baixinho barrigudinho tivesse sido bailarino, foi um espanto quando eu soube. Mas eu queria passar pela doma que ele passou, porque um corpo como o dele não é muito diferente do meu, e nós não nascemos para o balé, então ele teve que ser muito obcecado para virar bailarino. Essa obsessão é dele, e acho que isso foi importante como traço de personalidade.

Tinha dias que eu não queria ir para o balé, porque eu sentia muita dor. Então eu falava “não, pensa que você tem que fazer uma coreografia de 30 segundo no filme”. E eu queria que meu corpo passasse pelo que o corpo do Joãosinho tinha passado. 

R7: Nesse encontro que você teve com o Joãosinho, o que conseguiu pegar da personalidade dele?

Matheus: Essa coisa sem nome da alma. Dizem que os olhos são a janela da alma. Eu percebi o olhar dele, apesar da idade avançada e dos problemas de saúde - quando conheci ele já tava numa cadeira de rodas com uma enfermeira, tinha feito uma traqueotomia - o que era mais presente nele era o olhar. E era o olhar de alguém ainda muito encantado, muito espantado com o mundo. Não era um olhar de quem já está em alguma posição, mas o olhar de alguém que ainda vai descobrir a vida. Se eu consegui ou não eu não sei, mas achei que isso era uma característica dele.

R7: Em alguns momentos ele é agredido e o público torce para que ele reaja, fica indignado com os ataques e com o silêncio dele.

Matheus: Ele era um homem muito educado, que desde a infância gostou de teatro. A parte baixa da alma humana devia chocar o Joãosinho. Eu tentei trabalhar com isso, primeiro de uma maneira contida e depois mandar às favas. Quem conviveu com ele diz que berraba mesmo, xingava mesmo, e acho que isso ele aprendeu. Então fiquei segurando mesmo, propositalmente, até aquela explosão. Para todo mundo poder se aliviar junto. Ele ouve tudo muito quieto até que uma hora ele solta.

R7: Fazer esse filme mudou sua perspectiva sobre o Carnaval?

Matheus: Conheço mais como é a feitura agora. Sempre gostei de Carnaval mais como artista do que como folião. Não sou muito um cara do Carnaval. Claro, como todo brasileiro eu gosto de samba, mas sempre me atraía o desfile como espetáculo, o que estava sendo dito, como acontecia na avenida. Sempre tive um olhar de teatro. Nesse sentido foi muito interessante estudar os Carnavais do Joãosinho e ver como ele trabalhava isso, como trouxe da ópera elementos para criar esses desfiles, como essa ópera popular tem uma base grande de cultura para acontecer. 

R7: Ao longo da sua carreira você já interpretou muitos personagens que retratam o Brasil. Depois de passar por todos eles, já se considera um estudioso da cultura brasileira?

Matheus: Acho que sim, acho que sou um ator brasileiro com letras garrafais. Em geral meus personagens são para homenagear ou investigar o que seria a brasilidade. Para onde eu olho vejo personagens que tratam de brasileiros muito díspares mas muito possíveis. Às vezes mais perfeitos, ou mais ideais, às vezes muito tortos e sofridos. Mas todos, ou quase todos, pessoas com uma origem no Brasil profundo. Seja o Jeca Tatu do tapete vermelho, o amarelinho do Cariri que é o João Grilo, aqui esse maranhense que se torna um carnavalesco gênio… Vejo que os personagens são para um ator brasileiro fazer, isso me alegra.

R7: Você também tem trabalhos na televisão agora?

Matheus: Eu tenho bastante projeto de cinema. Vou filmar Mãe Só Há Uma, daqui 15 dias, com a Ana Muylaert, e depois o Malasartes, que também vai ser um filme mais picaresco, do caipira. Mas para televisão não. Doce de Mãe terminou em maio, não tenho certeza se teremos mais episódios, e soube que a Fernanda [Montenegro, protagonista da série] vai fazer mais uma novela, então se isso acontecer não vai ser agora. 

Tenho dois longas e a estreia do Trinta, muito desejada por mim. Espero que as pessoas entendam a delicadeza do filme, é um roteiro muito interessante e quem for ao cinema vai se emocionar, acho isso importante. E o Joãosinho representa o brasileiro. Ele é quase um de nós, apesar de ser um gênio. É um filme que a gente tinha que ir lá ver.

R7: Você gosta de fazer televisão? É muito diferente do cinema para você?

Matheus: Eu acho que eu fiz personagens muito marcantes, claro, no cinema. Mas tenho um senso de responsabilidade com os personagens que eu faço em. Um filme de cinema ainda aceita algum tipo de escolha do espectador para vê-lo ou não. É preciso algum desejo que te leve ao cinema além de uma disponibilidade financeira. É uma escolha. Na televisão não, você liga e aquilo está acontecendo. Então, quando eu faço televisão, faço com meu botão de responsabilidade acionado ao máximo. Eu tomo muito cuidado, aceito quando eu acho que vai ser bom mesmo, quando gosto do diretor, do autor, quando acho o projeto bonito, acho que tem que fazer sentido a pessoa me ver ali. Ela tem que se emocionar de um jeito bonito. E nesse sentido acho que tem sido uma trajetória bonita, mas suada, porque eu digo muito não. Mas a Rede Globo tem sido uma mãe nesse sentido porque eles entendem as minhas pautas e entendem que quando eu digo sim vou de corpo e alma, e me protegem.

O último trabalho antes de Doce de Mãe que eu fiz foi Saramandaia, que eu amei fazer. Amo Dias Gomes e foi a maior honra poder fazer de novo. A Redonda e o Encolheu tinham muita cena na segunda versão. A gente trabalhou muito e era difícil porque a Vera tinha uma caracterização muito demorada, muito penosa, então a gente trabalhou muito mas com muita alegria. Eu amava ser o Encolheu, achava ele o máximo. Me divertia, me emocionava. Quando ela explodia era uma dor verdadeira. E era difícil porque era meio absurdo mas tinha uma emoção verdadeira. Eu acho lindo aquele homem na beira da cratera chorando e pedindo “desexplode, Dondinha”. 

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