Defesa do consumidor defende, mas não muito

Consumidora confusa não sabe o que fazer para ser defendida por órgão de defesa que se recusa a defendê-la

Um fogão tá valendo muito hoje em dia

Um fogão tá valendo muito hoje em dia

Oleg Magni/Pexels

A venezuelana Marcela Morello, de 45 anos, cruzou a fronteira com o Brasil a pé e sozinha fugindo da ditadura que se instalou em seu país. Ao chegar por aqui, teve de encarar muitas coisas novas pela frente. Como já falava “portunhol”, o idioma não foi um problema, mas o que ela não podia compreender é como há brasileiros que acreditam que seu país natal é uma democracia e que o socialismo é tudo de bom.

“Eu perdí todo, no tenía qué comer, cheguê aqui caminando a patas!”, dizia Morello se referindo ao fato de ter fugido a pé da fome e da miséria, enquanto alguns brasileiros trajando camisetas vermelhas diziam: “Querida, você entendeu errado. Brasil ditadura, Venezuela democracia. Comprende?” Não, Marcela não podia compreender...

Mas a questão é que ela conseguiu um emprego em Amajari, estado de Roraima, alugou um quartinho de pensão e começou a reconstruir sua vida. Sua primeira compra “de luxo” foi um fogãozinho de camping para poder fazer suas refeições dentro do quarto, sem depender da cozinha da pensão. Porém, a alegria durou pouco, pois o produto veio com defeito.

Orientada pela dona da pensão, Marcela voltou à loja dizendo que se o produto não fosse trocado ela iria ao Procon fazer “una reclamación”. Diante da ameaça, o dono da loja fez a troca e Marcela experimentou um sentimento que quase havia desaparecido de seu coração: segurança. “Aqui em Brasil las leyes funcionam!”

Mas eis que a vida não é fácil e, mesmo depois de ter sido devidamente imunizada no posto de saúde da cidade, Marcela testou positivo para gripe quiróptera. Sua patroa a demitiu e só lhe restou ficar em casa e ver as demais coisas depois. Uma vez curada, Marcela voltou ao posto de vacinação para reclamar, da mesma forma que fez com seu fogãozinho. “Eu tomé la vacuna, pero me enfermé igual! Tava con defecto, eu vai reclamar en el Procon!”

Como não adiantou, e a enfermeira se recusou a lhe aplicar outro imunizante, Marcela telefonou para o órgão de Proteção ao Consumidor e relatou o fato:

“Eu tomé la vacuna, mas fiquê enferma. Quero otra que funcione!”, ao que lhe respondeu a atendente: “Senhora, o fabricante disse que funciona e que a eficácia é de 100%.”
“Mas eu fiquê enferma, tem exame pra provar!”, contestou Marcela.

“A senhora está enganada. O fabricante disse que a eficácia é de 100%. Senhora, por favor, não perca meu tempo reclamando de um absurdo desses!”, disse asperamente a atendente.

“No, no! No funcionó! Eu perdi emprego, não tem como pagar aluguel, no funciona! Quiero otra!”

“Senhora, não repita mais isso! A eficácia é de 100% e se a senhora continuar espalhando fake news e discurso de ódio, vai ser deportada lá para o seu país, entendeu?”

Marcela entendeu tudo, principalmente que sua vida não vale tanto quanto seu fogãozinho.

Esta crônica é uma ficção, mas poderia não ser...

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