Melhor Não Ler Funcionária processa empresa por excesso de respeito

Funcionária processa empresa por excesso de respeito

Sem conseguir se relacionar com os colegas, secretária de multinacional pede demissão e processa empresa

Sora Shimazaki/Pexels

Depois de cinco anos desempregada, a secretária executiva Ana Amélia da Costa finalmente havia conseguido o emprego dos sonhos: trabalhar em uma multinacional, com um bom salário, diversos benefícios, motorista particular e um plano de carreira invejável. Porém, em questão de poucas semanas, o que era sonho acabou se tornando pesadelo.

Ana Amélia conta que já esperava encontrar dificuldades no primeiro dia de trabalho, afinal, havia ficado tantos anos em casa que certamente levaria tempo até pegar o ritmo novamente. Mas, mesmo prevendo algumas intempéries, a secretária não imaginou que teria problemas já no encontro com o motorista. “Apesar de eu estar com as mãos ocupadas com bolsa, pasta do computador, frasqueira com almoço e um arranjo de flores, ele não abriu a porta. Perguntei se podia me ajudar e fiquei surpresa quando respondeu que jamais faria tal coisa”, relatou Ana.

Segundo o motorista, a companhia tem políticas rígidas “pró-mulher” e não permite que nenhum homem abra qualquer tipo de porta para elas, seja de carros, das diversas salas da empresa ou mesmo as corta-fogo, nas saídas de emergência. “Senhora, abrir porta pra mulher é um retrocesso. Suas antepassadas não lutaram por igualdade de direitos à toa, não é mesmo?”, questionou o motorista.

Chegando à empresa, uma assistente a conduziu até sua nova sala, onde havia uma enorme mesa de trabalho sobre a qual colocou seu arranjo floral. Porém, a assistente retirou o vaso imediatamente dizendo: “Flores são proibidas por aqui. Pode parecer que algum homem lhe deu e a empresa tem uma política muito rígida contra o assédio. Eu me livro dessa coisa”.

Em seguida, Ana Amélia foi conduzida à sala de reuniões para conhecer o corpo diretor da companhia. “Bom dia, meu nome é Ana Amélia, mas podem me chamar de Amélia!” Depois da saudação, fez-se um silêncio sepulcral que deixou a secretária sem graça. O CEO, sem dizer uma palavra, fez sinal para que a assistente explicasse o que estava havendo: “Ninguém vai chamar você de Amélia! Nenhuma mulher pode ser chamada assim. Vamos chamá-la de Ana, tudo bem? Você parece confusa, quer perguntar alguma coisa?”

“Sim”, respondeu Ana Amélia dirigindo-se ao CEO, “É que esse é o meu nome... quer dizer, podem me chamar de Ana, tudo bem, mas por que o senhor mesmo não me explicou sobre a questão do nome?” Ele novamente fez um sinal e a assistente respondeu: “Aqui na empresa temos uma política muito rígida contra o ‘mansplaining’. Nenhum homem pode explicar coisa alguma para as mulheres. Explicações por aqui só de mulher para mulher ou de mulher para homem. Mais alguma pergunta, querida?”

Ana Amélia preferiu não perguntar mais nada, mas aproveitou para agradecer a oportunidade e dizer que estava muito feliz em poder colaborar com uma empresa reconhecida internacionalmente. Disse também que nos anos que esteve fora do mercado fez diversos cursos, inclusive de mandarim. Empolgada por todos estarem ouvindo suas palavras em total silêncio, ela continuou falando sobre sua carreira e das expectativas em relação à nova colocação. Quando percebeu que haviam se passado quinze minutos, pediu desculpas pela empolgação, mas agradeceu o interesse de toda diretoria em conhecer sua história.

Mais uma vez o CEO manteve-se calado e fez sinal para a assistente que esclareceu: “Não é bem isso, Ana. É que aqui na empresa temos uma política muito rígida contra o ‘manterrupting’. Nenhum homem pode interromper a fala de uma mulher, isso é algo inadmissível! Então, se puder ser mais breve daqui em diante, seria ótimo. Não é sempre que temos a manhã inteira para ouvir nossas funcionárias falando bem de si mesmas.”

Duas semanas se passaram e Ana Amélia descobriu várias outras políticas rígidas: homens não podiam sorrir para mulheres, nem fazer qualquer elogio. Também era proibido perguntar sobre filhos, pois as que têm poderiam acusá-los de estarem insinuando que elas faltarão ao trabalho caso o filho adoeça e, as que não têm, poderiam sentir-se pressionadas pelo patriarcado para “cumprirem seu papel” e serem mães logo de uma vez.

E se alguma mulher perguntar a um homem se ela está bonita ou magra ou atraente, ele já deveria dirigir-se imediatamente ao RH e assinar sua demissão. Afinal de contas, qualquer que fosse a resposta estaria errada e ainda poderia ser o passível de processo.

Sem suportar mais o ambiente tóxico-de-tão-não-tóxico de trabalho, Ana Amélia pediu demissão. Ao deixar a companhia, uma leva de advogadas do escritório Phemynazi & Associadas a procurou com um processo pronto acusando a empresa de falta de danos morais e ausência de assédio. Ana Amélia ganhou a causa e recebeu uma bolada que vai lhe permitir viver plena e absoluta sem nunca mais ter de trabalhar.

Essa crônica é uma ficção, mas poderia não ser.

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