Ulisses viveu, Orelha morreu: o que isso diz sobre nós?
Clarice citava os animais nos textos constantemente; costumava dizer que funcionavam como um ‘espelho mágico’: o bicho refletia o ser humano

Ulisses, nome de professor. De clássico da literatura. De herói da Odisseia. De vovô bacana.
Orelha, órgão essencial. Esquisita e vital. Acumuladora de ceras e de bobagens ditas.
Para Clarice Lispector, Ulisses era peludo, cheio de manias, raivoso quando com fome.
Para o Brasil, Orelha foi vítima de uma crueldade digna de uma Guerra de Troia.
Ulisses. Imperativo. Gostava de fumar bitucas de cigarros e roubar refrigerante e uísque das visitas.
Orelha. Impaciente pra brincar. Gostava de caminhar ao lado dos moradores da praia Brava.
Ulisses. Imprevisível. Ciumento. Preguiçoso. Adorava o colo de Clarice.
Orelha. Dócil. Carinhoso. Alegre. Implorava por um colo.
Ulisses não tinha raça. Orelha também não.
Mas Orelha tinha graça. Divertia os de sempre e os que não conhecia.
Ulisses foi adotado por Clarice e ficou ao lado da escritora até os últimos anos de vida dela.
Orelha foi adotado por moradores da praia Brava. Era um cão comunitário, com orgulho da casinha branca na praia badalada.
Ambos vira-latas. Carentes de atenção.
Ulisses era neurótico, atrevido; Orelha, generoso, ingênuo.
O cão de Clarice tinha fascínio por ela. O mesmo que nós, leitores, nos portamos diante da obra da escritora.
Orelha era o amigão que pega a bola lá longe. Que oferece uma lambida de graça. Que acredita em bondade disfarçada.
Clarice citava os animais nos textos constantemente. Costumava dizer que funcionavam como um “espelho mágico”: o bicho refletia o ser humano.
Orelha era o espelho dos mais jovens. Eufórico, impetuoso. Divertido. Destemido. E crédulo. Não foi carinho dessa vez. Nem brincadeira. Dor. O mundo sentiu.
A praia que já é brava, ficou triste.
Orelha virou espelho de todos: uniu o país do futebol, da garota de Ipanema, do samba. Dos roqueiros e sertanejos. Dos que falam demais e os que pensam. Dos que agem demais e falam de menos. O país do Carnaval é agora o que não tolera mais maldade aos animais.
Linguagem universal. Não à tortura e crueldade aos peludos indefesos. Em “Um Sopro de Vida”, livro publicado um ano depois da morte de Clarice, a personagem principal Ângela Pralini orgulha-se da linguagem canina do companheiro:
“Eu sei falar uma língua que só o meu cachorro, o prezado Ulisses, meu caro senhor, entende. É assim: dacoleba, tutiban, ziticoba, letuban. Joju leba, leba jan? Tutiban leba, lebajan. Atotoquina, zefiram. Jetobabe? Jetoban. Isso quer dizer uma coisa que nem o imperador da China entenderia?”.
Em outro trecho:
“Eu e meu cachorro Ulisses somos vira-latas. Um dia desses vai acontecer: meu cachorro vai abrir a boca e falar. Será a glória.”
E se Orelha falasse? O que ele diria?
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