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Quando a tragédia da natureza criou vinhos imortais

Como a podridão, fungos assassinos e geadas mortais criaram alguns dos vinhos mais caros e cobiçados do planeta

Contra Rótulo|Dado LancellottiOpens in new window

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Uma tragédia ou o erro humano já criaram tesouros líquidos Imagem gerada pelo Gemini Nano Banana

No mundo do vinho, o desastre é muitas vezes o pai da perfeição. Se tudo correr bem na colheita, você terá um vinho correto. Mas se a natureza decidir “cometer um crime” contra o vinhedo, você pode acabar com uma lenda.

Esta é a história de como a “podridão” e o erro humano criaram tesouros líquidos.


O Château d'Yquem (vinho de sobremesa mais caro do mundo) nasceu de um erro Imagem gerada pelo Gemini Nano Banana

Sauternes e a sua “Podridão Nobre”

O herói improvável do sul de Bordeaux é um fungo chamado Botrytis Cinerea. Em condições normais, ele é o vilão que apodrece as uvas e destrói safras. Mas, sob certas condições de neblina matinal e sol vespertino, ele se transforma. Ele perfura a pele da uva e drena a água, deixando para trás apenas o açúcar concentrado e uma essência divina.

Diz a lenda que o Château d’Yquem (o vinho de sobremesa mais caro do mundo) nasceu de um erro. Explico: um proprietário atrasou sua colheita e, ao retornar, encontrou as uvas “podres” e murchas. Ele decidiu vinificá-las de qualquer forma para não perder o investimento.


O resultado deu origem a um néctar de ouro com notas de mel e damasco que Thomas Jefferson (ele de novo!) adorava. O desastre foi batizado de “Podridão Nobre”.

Inniskillin é a marca de Icewine mais famosa e comercializada do mundo Imagem gerada pelo Gemini Nano Banana

Icewine (Eiswein), o vinho do gelo

Outro desastre que virou luxo é o Icewine. Imagine uma geada assassina que congela as uvas no pé antes que elas possam ser colhidas. Na Alemanha e no Canadá (onde a vinícola Inniskillin é mestre), esse desastre é aguardado com ansiedade.


As uvas são colhidas manualmente a temperaturas de -8°C, no meio da noite. O gelo dentro da uva separa a água do açúcar. Quando espremidas, ainda congeladas, sai apenas uma gota de xarope intensamente doce e ácido. É um vinho nascido da morte térmica das parreiras, um sobrevivente do inverno que custa pequenas fortunas em garrafas de 375 ml.

O Canadá é, atualmente, o maior produtor mundial de Icewine. Devido à consistência de seus invernos rigorosos, o país consegue produzir o vinho todos os anos, diferentemente da Europa.


Como comentei acima, a Inniskillin é a marca mais famosa e comercializada do mundo. Localizada na região de Niagara-on-the-Lake, foi ela quem colocou o Icewine no mapa global ao vencer o Grand Prix d’Honneur na Vinitaly em 1991.

A propriedade Peller Estates é outro gigante canadense com enorme volume de exportação e também é conhecida por suas experiências turísticas em adegas de gelo.

A Alemanha, por outro lado, é o berço da tradição e por lá chamam o produto de Eiswein. A produção é mais rara e arriscada, pois depende de uma geada que ocorra no momento exato, antes que as uvas apodreçam ou sejam comidas por animais.

As marcas de produtores mais famosas são: Weingut Dr. Loosen, vinícola supertradicional e prestigiada também globalmente, e que está localizada na região do Mosel; e Schloss Johannisberg, uma casa histórica que produz alguns dos exemplares mais caros e cobiçados do mundo.

Adega histórica em Vila Nova de Gaia e o Rio Douro ao fundo Imagem gerada pelo Gemini Nano Banana

Vinho do Porto, o acidente fortificado

A história do Vinho do Porto é o “crime perfeito” contra a fermentação. Mercadores ingleses do século 17, temendo que o vinho estragasse na viagem marítima, decidiram “batizar” as barricas com aguardente vínica (conhaque) para interromper a fermentação e conservar a bebida.

O erro não planejado manteve o açúcar natural da uva e elevou o teor alcoólico. O que era para ser uma medida de emergência sanitária criou um estilo de vinho que define a história de Portugal e das grandes famílias inglesas.

Para entender o cenário atual do Vinho do Porto, é preciso olhar para a complexa estrutura da Região Demarcada do Douro, a mais antiga região vitícola regulamentada do mundo.

Atualmente, existem cerca de 33 mil viticultores na região do Douro, mas a grande maioria vende as suas uvas para as grandes empresas ou cooperativas.

O número de produtores-engarrafadores (aqueles que transformam a uva em vinho e o comercializam com marca própria) gira em torno de 160 a 200 entidades.

Essas empresas estão divididas entre grandes grupos familiares de origem britânica, casas históricas portuguesas e os chamados “Produtores de Quinta” (propriedades individuais que fazem todo o processo).

O prestígio no Vinho do Porto é medido principalmente pela qualidade dos seus Vintages (vinhos de uma só colheita excepcional) e dos seus Tawnies com indicação de idade (10, 20, 30 ou 40 anos).

1. O “Eixo Britânico”

Trata das Casas Históricas que dominam o mercado de exportação e são sinônimo de tradição e luxo:

  • Taylor’s: Frequentemente considerada a “Rolls-Royce” do Porto. É famosa pelos seus Vintages monumentais e por ter inventado o estilo Late Bottled Vintage (LBV).
  • Graham’s: Conhecida por vinhos mais ricos, doces e concentrados. Pertence ao influente Grupo Symington.
  • Dow’s: Famosa por um estilo mais seco e austero. O seu Vintage 2007 recebeu 100 pontos da revista Wine Spectator.
  • Fonseca: Celebrada pela exuberância e potência de seus vinhos, sendo uma das favoritas dos colecionadores americanos.

2. O Orgulho Português

  • Ferreira: Uma das casas mais antigas e respeitadas, imortalizada pela figura de Dona Antónia Adelaide Ferreira (a “Ferreirinha”), que salvou a região durante a praga da filoxera.
  • Ramos Pinto: Reconhecida pela inovação técnica e pelos seus rótulos artísticos icônicos da Belle Époque.
  • Niepoort: Sob o comando de Dirk Niepoort, esta casa tornou-se o rosto do Douro moderno, unindo tradição secular com uma visão vanguardista.

3. O Ícone Máximo

  • Quinta do Noval: embora seja uma única propriedade, é uma das mais prestigiadas do mundo. Eles produzem o lendário “Nacional”, um vinho feito de videiras não enxertadas que é, possivelmente, o Vinho do Porto mais caro e raro que existe.

Apesar de ser um vinho de “desastre” ou “acidente fortificado”, o Vinho do Porto hoje é um produto de precisão cirúrgica. Atualmente, o Porto vive uma “era de ouro” dos Tawnies muito velhos, com lançamentos de edições limitadas que ultrapassam os 100 anos de idade, custando milhares de euros por garrafa.

Curiosidades

Vinhos vulcânicos: hoje, a tendência são os vinhos das Ilhas Canárias ou do Monte Etna (Sicília), onde as vinhas crescem em cinzas de desastres vulcânicos passados. O sabor mineral “queimado” é o novo queridinho dos caçadores das novas trends.

O preço da tragédia: um Sauternes de colheita botritizada produz apenas uma taça de vinho por videira, enquanto um vinho comum produz uma garrafa. O custo da raridade é o que torna o “desastre” tão valioso.

Essas histórias mostram resiliência e que o vinho é a única arte que se beneficia do sofrimento. Quanto mais a videira sofre para sobreviver, mais complexo é o fruto.

Vamos provar genteeeee🍷!

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