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O maior enigma (e fraude) de todos os tempos no mundo do vinho

O mistério da garrafa de US$ 156 mil de Thomas Jefferson

Contra Rótulo|Dado LancellottiOpens in new window

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Os "vinhos leiloados de Thomas Jefferson" Imagem ilustrativa gerada pelo Gemini Nano Banana

A história de hoje tem a ver com uma garrafa de US$ 156 mil (estimados R$ 821 mil no câmbio) que supostamente pertenceu a Thomas Jefferson e desencadeou uma investigação digna de Sherlock Holmes.

Em 5 de dezembro de 1985, a casa de leilões Christie’s, em Londres, vivia uma noite de gala que sacudiu o mundo dos vinhos raros com uma venda extraordinária, mas que se tornou seu dia mais infame.

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Uma garrafa de Bordeaux, do icônico Château Lafite 1787, foi vendida em um leilão por uma verdadeira fortuna. Mas não era uma garrafa comum. Ela não tinha rótulo e ostentava as iniciais “Th.J.” e a inscrição “Lafitte” (grafia que a renomada propriedade usava) gravadas em seu vidro escuro soprado à mão e selado com cera preta.

O ex-presidente americano Thomas Jefferson era profundo conhecedor de vinhos Imagem ilustrativa gerada pelo Gemini Nano Banana

A garrafa foi apresentada como um dos maiores tesouros da história: parte de uma suposta coleção perdida de Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano e o primeiro grande connoisseur de vinhos dos Estados Unidos.

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Um roteiro de crimes de um engenheiro ferroviário alemão

O vendedor, um homem chamado Hardy Rodenstock, afirmava tê-la encontrado atrás de uma parede de adega em Paris, parte de um tesouro perdido de Jefferson.

O encanto foi tão irresistível quanto o vinho. Michael Broadbent, chefe do departamento de vinhos da Christie’s e uma das maiores autoridades do mundo, validou a “inestimável” raridade. Christopher Forbes, da revista Forbes, arrematou a peça, tornando-a a mais cara do planeta na época.

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O magnata Bill Koch investiu milhões na caçada do golpista Imagem ilustrativa gerada pelo Gemini Nano Banana

A queda da máscara

Anos depois, o magnata da energia Bill Koch, que adquiriu outras quatro garrafas de Rodenstock por meio milhão de dólares, começou a desconfiar, e o que tinha começado como uma conquista e um marco para o colecionismo de vinhos logo tomou um rumo sombrio.

A proveniência parecia impecável, mas o que ele imaginava ser uma relíquia em forma líquida logo se revelaria o início de um pesadelo. Explico: ao tentar catalogar sua coleção, Koch encontrou resistência.

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Susan Stein, curadora de Monticello, famosa residência de Jefferson localizada perto de Charlottesville, na Virgínia, foi taxativa: “Nós não acreditamos que essas garrafas tenham pertencido a Thomas Jefferson”.

Além de não existir menção às garrafas nas meticulosas listas de vinhos do ex-presidente, o padrão das suas iniciais não correspondia ao que ele usava habitualmente em seus documentos, que era “Th:J”.

Do sonho ao pesadelo: as suspeitas se confirmam

Especialistas começaram a questionar a autenticidade da gravação, e investigações detalhadas foram iniciadas, revelando um submundo de fraudes. Com a ajuda do ex-agente do FBI Jim Elroy, Koch descobriu que “Hardy Rodenstock” era um pseudônimo de Meinhard Goerke, um ex-engenheiro ferroviário alemão sem qualquer formação acadêmica.

O nível de sofisticação tecnológica empregado para desvendar a verdade foi digno de um romance policial. Cientistas recorreram à tecnologia nuclear para datar o próprio vidro da garrafa. Análises meticulosas de peritos em gravação, incluindo o mestre gravador Max Erlacher, também foram conduzidas, e as conclusões foram devastadoras.

O golpe foi desmontado por detalhes técnicos. As iniciais, supostamente de séculos de idade, foram gravadas com ferramentas elétricas modernas (Dremel), e não com a roda de cobre do século 18.

Além disso, os registros históricos de Monticello, famosa casa de Jefferson localizada perto de Charlottesville, na Virgínia, provaram que ele nunca possuiu tais vinhos.

A caçada ao falsificador e o preço da obsessão

O Château Laffite 1787 Imagem ilustrativa gerada pelo Gemini Nano Banana

Bill Koch, não apenas um bilionário, mas um homem determinado a não ser enganado, não aceitou o prejuízo ou a humilhação. Ele gastou milhões de dólares do próprio bolso, contratando investigadores particulares para caçar o homem que lhe vendeu a garrafa.

Koch processou Rodenstock em 2006, desencadeando uma investigação do FBI que abalou a credibilidade de grandes casas de leilão e especialistas que, por anos, basearam suas reputações na “generosidade” de Rodenstock.

A busca pelo misterioso falsário transformou a história de um conto de fadas sobre colecionismo em um verdadeiro filme de suspense.

Curiosidades

✅ O “tesouro” que não existia: a suposta coleção de Jefferson não se limitava ao Lafite. Rodenstock espalhou pelo mercado um catálogo de raridades, incluindo garrafas de Château d’Yquem e Mouton Rothschild 1784/1787 (chamado naqueles tempos de Château Branne-Mouton), todas datadas do século 18 e marcadas com as mesmas iniciais.

O valor total dessa “coleção” é inestimável. Mas estima-se que, se todas as garrafas falsas fabricadas por Rodenstock fossem somadas, ele teria lucrado milhões de dólares que hoje equivaleriam a dezenas de milhões. Isso alimentaria o ego de colecionadores que desejavam desesperadamente possuir um “pedaço” do presidente americano.

✅O filme que nunca serviu o brinde: o livro The Billionaire’s Vinegar (O Vinagre do Bilionário), que narra toda essa saga, é tão cinematográfico que Hollywood imediatamente se interessou pelos direitos.

Durante anos, o projeto esteve em desenvolvimento com Will Smith como produtor e o nome de Brad Pitt cotado para o papel principal, possivelmente interpretando o próprio Bill Koch ou o investigador. Mais tarde, Matthew McConaughey foi ligado ao projeto.

Apesar de todo o burburinho, o filme nunca saiu do papel. O motivo? Além dos complexos trâmites judiciais envolvendo os personagens reais da história, o “roteiro da vida real” provou ser difícil de condensar sem perder a sutileza do mundo dos vinhos. Por enquanto, a história segue sendo um dos melhores roteiros que Hollywood nunca filmou.

Hoje, a “maldição de Jefferson” é a prova definitiva de que, quando o desejo de possuir história vence o ceticismo, o preço a pagar é a própria verdade. Como Bill Koch ironizou ao mostrar sua garrafa falsa: “Eu costumava me gabar de ter os vinhos de Thomas Jefferson. Agora, me gabo de ter os vinhos falsos de Thomas Jefferson.”

Elementar, “meu caro Watson”🕵🏻‍♂️ e queridos leitores🍷!

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