‘Sideways’ mudou a visão do vinho no cinema e explodiu o turismo sobre o tema
Entenda como uma produção “pequena” colocou a região da Califórnia no mapa global e criou um roteiro de peregrinação
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado, o filme Sideways não apenas mudou a visão do vinho no cinema, mas transformou permanentemente a economia agrícola de um estado em uma espécie de “Disneylândia para adultos”.
Poucas obras conseguiram ser tão influentes ao ponto de ditar o que as pessoas colocariam em suas taças por décadas.
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Como Sideways ensinou o mundo a beber vinho sem precisar de um curso de sommelier
Em 2004, o diretor Alexander Payne lançou uma comédia dramática que parecia despretensiosa. No entanto, Sideways: Entre Umas e Outras tornou-se um marco cultural. Antes dele, o vinho em Hollywood era frequentemente retratado de duas formas: ou como um acessório de vilões refinados ou como o acompanhamento de jantares românticos de luxo.
Sideways quebrou essa barreira, trazendo o vinho para o centro de uma jornada humana, falha, engraçada e profundamente acessível.
A trama é uma “road trip” embriagada
A história acompanha dois amigos em uma viagem de despedida de solteiro pelo Vale de Santa Ynez, no sul da Califórnia. Importante: enquanto o Vale de Napa fica ao norte de São Francisco, Santa Ynez está localizado no Condado de Santa Barbara, a cerca de 600 km de distância um do outro.
Santa Ynez é famosa por ser uma região mais fria, perfeita justamente para o Pinot Noir, enquanto Napa é o império do Cabernet Sauvignon.

Miles Raymond, interpretado brilhantemente pelo ator Paul Giamatti, é um professor depressivo, escritor frustrado e um entusiasta de vinhos quase obsessivo. Ele é o coração técnico do filme.
Seu amigo Jack Cole, representado pelo ótimo Thomas Haden Church, é um ator em decadência, prestes a casar, que só quer uma última semana de liberdade e não entende (ou não se importa) nada com o que está bebendo.
No caminho, eles conhecem Maya (Virginia Madsen), uma garçonete que estuda horticultura, e Stephanie (Sandra Oh), uma especialista em vinhos que trabalha em uma sala de degustação. O encontro desses quatro personagens cria os diálogos mais ricos sobre a bebida já registrados no cinema.
O filme faz as pessoas beberem a teoria
O grande trunfo de Sideways foi ensinar o público geral a degustar, ou seja, popularizou o tema. Através de Miles, o espectador aprende sobre a cor, o aroma e a complexidade de uma uva sem sentir que está em uma sala de aula.
O filme humanizou o entendedor de vinhos. Miles não é um lorde, mas um homem comum que encontra beleza e consolo na viticultura. A fala de Maya sobre o vinho ser um “ser vivo” que evolui e tem um ápice é, até hoje, considerada a melhor explicação poética sobre por que as pessoas se apaixonam por essa bebida.
As estrelas do copo e o “ódio” ao Merlot
O filme é famoso por duas uvas e provocou uma mudança cultural nessa região, desbancando o Merlot e criando a febre do Pinot Noir.
- Pinot Noir: Miles a descreve como uma uva “difícil de cultivar”, temperamental e que precisa de paciência. Após o filme, as vendas de Pinot Noir nos EUA subiram 16%.
- Merlot: Na fala mais famosa do cinema vinícola, Miles grita: “I am NOT drinking any f*ing Merlot!" (ou, de forma mais educada e sem precisar usar o “piiiiiii: “Eu não estou bebendo uma “droga” de Merlot). A ironia? O mercado de Merlot despencou após o filme, um fenômeno real que os economistas chamam de “O Efeito Sideways”.
Roteiro de viagem: os lugares onde os personagens passaram ainda existem?

O filme divulgou lugares e destinos imperdíveis. A região de Santa Barbara tornou-se um roteiro de peregrinação e o mais impressionante é que, 20 anos depois, quase todos os locais icônicos não apenas existem, como prosperam graças ao legado do filme.
✅Sanford Winery: a vinícola onde fazem a primeira parada e degustação técnica é imperdível para os fãs do filme. O primeiro vinho que Miles serve para Jack na “viagem” foi um Sanford Pinot Noir 2001. É onde a “aula de degustação começa e Miles ensina a Jack (e o público): “olhe para a cor”, “gire a taça”, “sinta o aroma”. A sala de degustação original que aparece no filme foi desativada, mas a vinícola tem uma sede magnífica e ultra-moderna (Sanford & Benedict Vineyard) que continua produzindo alguns dos melhores vinhos da Califórnia.
✅Hitching Post II: o restaurante onde Miles e Jack jantam frequentemente e conhecem Maya. O lugar ainda é um ícone famoso pelo churrasco no estilo “Santa Maria” (feito em fogo aberto) e serve os vinhos que aparecem na tela, como o Highliner Pinot Noir que eles bebem no jantar e tornou-se o rótulo mais vendido após o filme.
✅Foxen Vineyard & Winery: a cena onde Miles e Jack “roubam” doses extras quando o atendente vira as costas foi gravada aqui. É uma vinícola rústica, com uma sala de degustação que parece uma cabana de madeira (conhecida como “Foxen 7200”). Eles provaram um Chardonnay 2001 ali.
✅Firestone Vineyard: uma das maiores e mais bonitas propriedades da região, com vastos jardins. É aqui que o grupo faz um tour pelas adegas, e Miles e Maya têm um momento de conexão entre os barris. As enormes “cavernas” de carvalho onde os vinhos envelhecem são famosas. Jack tenta gostar de um Merlot provado durante a visita, mas Miles desdenha por ser “comercial”.
✅ Los Olivos Wine Merchant & Cafe: é um misto de loja de vinhos (com uma parede épica de garrafas) e restaurante focado em ingredientes locais. O café continua excelente e a parede de vinhos é exatamente como mostrada no filme. Um dos melhores lugares para comprar o Pinot Noir que você acabou de descobrir na viagem. É nesse lugar que tem uma cena icônica onde Miles grita que não vai beber Merlot. Aconteceu bem na calçada em frente, antes de entrarem para jantar.
✅ Fess Parker Winery: vinícola elegante super premium, de propriedade da família do falecido ator Fess Parker. No filme, a propriedade é chamada de “Frass Canyon”. É o lugar onde Miles perde a cabeça e tenta beber o balde de descarte (spit bucket) após receber uma notícia ruim. Embora ela tenha sido retratada em Sideways como uma vinícola “comercial demais” para o gosto de Miles, na vida real eles produzem vinhos premiados. Bem humorados, eles aceitam as piadas sobre a cena do balde com muita classe.
✅ Days Inn Buellton: o hotel de beira de estrada clássico da Califórnia onde eles ficaram hospedados durante toda a viagem não era um cenário, mas um hotel real e acessível. Mudou de nome atualmente para Sideways Inn abraçando totalmente o tema do filme, com decorações que remetem à obra e até um moinho de vento (o Windmill Inn original) que é um ponto turístico por si só.
✅Solvang: a vila dinamarquesa pitoresca onde os personagens circulam permanece um ponto turístico vibrante.
Além disso trouxe outros vinhos prestigiados:
- Sea Smoke Pinot Noir: citado em diálogos como um vinho de “culto” da região, extremamente difícil de encontrar na época.
- Kistler Chardonnay: um dos vinhos de alta qualidade que Miles menciona com reverência como um exemplo de perfeição.
- Château Cheval Blanc 1961: o Tesouro de Saint-Émilion de Bordeaux na França. Miles o bebe em um copo de papel em uma lanchonete. Ele é feito de Cabernet Franc e Merlot (a ironia final).

Curiosidades do filme
- O “inimigo” no copo: o vinho “tesouro” que Miles guarda para uma ocasião especial é um Château Cheval Blanc 1961. O detalhe irônico que poucos percebem? O Cheval Blanc é um blend de Cabernet Franc e... Merlot. Miles passa o filme inteiro gritando que não bebe Merlot, mas guarda essa garrafa durante sua vida inteira. No fundo, ele amava o que dizia odiar. A qualidade e a história superam o seu próprio preconceito.
- A escolha do diretor: o diretor Alexander Payne escolheu vinícolas que realmente faziam parte da paisagem local, evitando “cenários” montados. Por isso, a lista de vinhos do filme é considerada um guia autêntico do que havia de melhor na região em 2004.
- Impacto econômico: estudos indicam que o filme foi responsável por mudar o mapa de plantio da Califórnia. Produtores arrancaram videiras de Merlot para plantar Pinot Noir devido à demanda gerada pelo filme.
- O elenco: curiosamente, Paul Giamatti não sabia quase nada sobre vinhos antes das filmagens. Ele teve que aprender a técnica de “girar e cheirar” para parecer um especialista legítimo.
- Rex Pickett: é o homem por trás de todo o fenômeno e o autor do romance original Sideways (publicado em 2004), no qual o filme de Alexander Payne foi baseado. Muitas das características de Miles Raymond (o protagonista interpretado por Paul Giamatti) são autobiográficas. Rex Pickett escreveu o livro em um momento de grande frustração pessoal: ele era um escritor que lutava para ser publicado, passava por um divórcio difícil e lidava com uma certa dose de melancolia, tudo isso enquanto viajava pelo Vale de Santa Ynez para afogar as mágoas em vinhos Pinot Noir. O manuscrito de Sideways foi rejeitado por dezenas de editoras. A sorte de Pickett mudou quando o roteiro (que ele mesmo ajudou a adaptar) caiu nas mãos do diretor Alexander Payne. O filme foi produzido antes mesmo de o livro chegar às prateleiras das grandes livrarias, e o sucesso do cinema foi o que finalmente catapultou a obra literária ao status de best-seller. Pickett não parou no primeiro livro. Ele transformou a história em uma trilogia (embora o filme cubra apenas o primeiro): Sideways (2004), Vertical (2010), que acompanha Miles e Jack anos depois em uma viagem para o Oregon (outra região famosa pelo Pinot Noir, e Sideways Chile (2015), onde Miles vai para o Chile em busca de uma nova jornada espiritual e vinícola.
- Após o sucesso do filme e do livro, Rex Pickett tornou-se uma figura respeitada (e por vezes controversa) no mundo do vinho. Ele lançou sua própria linha de vinhos chamada “Sideways” e é frequentemente convidado para palestras e eventos de degustação ao redor do mundo.

O vinho é para todos
Sideways foi um divisor de águas porque provou que o vinho é sobre histórias, tal qual este CONTRA RÓTULO. Ele retirou a bebida dos pedestais de cristal e a colocou na mesa de bar, no balcão da vinícola e até no copo de plástico de uma lanchonete de fast-food (uma das cenas mais icônicas).
Ele ensinou que você não precisa de um título de nobreza para apreciar uma boa safra. Você só precisa de um pouco de curiosidade e, talvez, de um amigo para dividir a garrafa.
Saúde e provem vinhos e mais vinhos! 🍷
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