Atleta tem diarreia no meio de competição fitness na China: por que isso é comum?
Corpo pode “sair do controle” durante um exercício intenso: entenda a ciência por trás da incontinência fecal no esporte
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Uma competição internacional de fitness realizada em Pequim, na China, no último sábado (12), ganhou repercussão mundial depois que a atleta australiana Joanna Wietrzyk apresentou um episódio de incontinência fecal durante a prova e, mesmo assim, completou o percurso, vencendo em sua categoria.
O caso levou a organização da Copa do Mundo Hyrox a rever protocolos de higiene para provas com equipamentos compartilhados.
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Mas, além da discussão sobre segurança sanitária, o episódio trouxe à tona uma pergunta que interessa a qualquer pessoa que já sentiu o intestino “embaralhar” no meio de um treino puxado: por que o esforço físico intenso pode causar diarreia e, em casos extremos, a perda do controle intestinal?
A resposta está na forma como o corpo reage ao estresse físico extremo — e a ciência do esporte já entende boa parte desse mecanismo.
Um intestino sob “racionamento” de sangue
Durante o exercício, o corpo prioriza o fluxo de sangue para os músculos que estão em atividade. Para isso, desvia parte do sangue que, em repouso, iria para os órgãos digestivos. Em exercícios de alta intensidade, essa redução pode chegar a cerca de 80% do fluxo sanguíneo que o intestino recebe normalmente.
Com menos sangue chegando, o intestino pode receber menos oxigênio e começar a funcionar de maneira diferente, tornando-se mais permeável e com alteração da motilidade (movimento que empurra o conteúdo das fezes adiante).
Soma-se a isso a ativação do sistema nervoso simpático, o mesmo responsável pela resposta de “luta ou fuga”, que também interfere no funcionamento do intestino durante a competição.
O conjunto desses fatores é descrito na literatura científica como síndrome gastrointestinal associada ao exercício, e pode incluir cólicas, urgência, diarreia e, em situações extremas, perda do controle intestinal.
Mais comum do que se imagina
Apesar de parecer um evento raro e constrangedor, sintomas digestivos durante exercícios intensos não são raros.
Estudos com atletas de endurance (corredores de longa distância e triatletas, por exemplo) mostram que a proporção de quem relata algum sintoma gastrointestinal durante uma prova pode ocorrer de cerca de 30% a mais de 90% dos participantes.
Em um dos levantamentos mais citados sobre o tema, quase metade dos atletas relatou pelo menos um sintoma digestivo, e cerca de 1 em cada 10 relatou sintomas mais intensos.
Entre os fatores que podem aumentar esse risco estão a intensidade e a duração do exercício, o calor, a desidratação e a alimentação nas horas anteriores à prova — principalmente refeições ricas em fibras, gorduras ou carboidratos muito concentrados, que exigem mais do sistema digestivo justamente no momento em que ele está recebendo menos sangue.
O que se sabe sobre as mulheres
A pesquisa sobre saúde gastrointestinal em atletas mulheres ainda é uma área em expansão, mas alguns achados chamam a atenção.
Mulheres atletas parecem relatar, proporcionalmente, mais sintomas compatíveis com síndrome do intestino irritável do que atletas homens, e há evidências de que os sintomas digestivos durante o exercício podem variar conforme a fase do ciclo menstrual, possivelmente relacionados a flutuações hormonais que influenciam a motilidade intestinal.
São dados ainda emergentes, que reforçam algo que a ciência do esporte reconhece cada vez mais: a fisiologia feminina merece pesquisa dedicada.
Isso é sinal de assoalho pélvico fraco?
É tentador associar um episódio como esse a uma disfunção do assoalho pélvico (musculatura envolvida na continência urinária e fecal), mas essa conclusão merece cautela.
Um estudo publicado em 2026, que avaliou mulheres jovens sem filhos praticantes de diferentes modalidades de exercício (incluindo treinos de alto impacto), não encontrou associação entre o tipo de exercício praticado e perda de fezes.
Ou seja, um episódio agudo e isolado, ocorrido durante um esforço extremo, tende a refletir a sobrecarga do sistema digestivo diante do estresse físico (durante um momento de competição, em que a atleta não vai ao banheiro ao sentir desejo evacuatório) e não necessariamente uma fragilidade estrutural do assoalho pélvico.
Isso não significa, porém, que o assoalho pélvico deva ser ignorado. Episódios recorrentes de urgência ou perda de controle intestinal, associados ou não a sintomas de perda de urina ou sensação de peso na região pélvica, indicam a necessidade de avaliação especializada.
Nesses casos, pode ser importante procurar um profissional de saúde, especialmente fisioterapeuta pélvico e uroginecologista. Se necessário, também gastroenterologista, que poderá investigar a causa e orientar o tratamento mais adequado.
Como reduzir o risco na prática
Para quem treina ou compete regularmente, algumas estratégias costumam ajudar a reduzir o desconforto digestivo durante o exercício.
Testar a alimentação e a hidratação nos treinos antes de repeti-las no dia da prova evita surpresas: o ideal é não experimentar um alimento ou suplemento novo justamente na competição.
Moderar o consumo de fibras, gorduras e cafeína nas horas anteriores a um esforço intenso também pode contribuir, assim como manter uma hidratação adequada, principalmente em ambientes quentes.
Progredir a intensidade dos treinos de forma gradual, permitindo que o sistema digestivo também se adapte ao esforço, é outra estratégia reconhecida nesse contexto.
Uma questão de fisiologia, não de vergonha
O episódio ocorrido em Pequim gerou repercussão intensa, mas, por trás da polêmica, existe uma explicação fisiológica bem documentada: sob estresse físico extremo, o corpo pode reagir de formas inesperadas, inclusive em atletas de altíssima performance.
Entender esse mecanismo ajuda a tirar o assunto do campo do tabu e da piada e a colocá-lo onde ele pertence: no campo da saúde. Buscar compreender e, quando necessário, tratar sintomas digestivos relacionados ao exercício é um gesto de autocuidado, não um motivo de constrangimento.
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