Apendicite: quando uma simples dor de barriga vira caso de cirurgia
Especialista explica os sintomas, os erros mais comuns e por que o diagnóstico precoce faz toda a diferença
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Quem nunca sentiu uma dor de barriga e imediatamente começou a negociar com o próprio estômago? “Foi o hambúrguer.” “Foi o refrigerante.” “Foi aquele brigadeiro depois da meia-noite.”
Na maioria das vezes, realmente não é nada grave. Mas existe uma situação em que ignorar a dor pode trazer consequências sérias: a apendicite.
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Considerada a principal causa de cirurgia abdominal de emergência no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, a doença leva mais de 97 mil pessoas por ano às salas de cirurgia do Sistema Único de Saúde (SUS). E o curioso é que os primeiros sintomas podem parecer algo relativamente comum.
Para entender melhor quando uma simples dor abdominal merece atenção, conversamos com o Dr. André Augusto Pinto, cirurgião geral e do aparelho digestivo da Clínica ABC.
Afinal, o que é o apêndice?
Apesar de muita gente já ter ouvido falar dele, o apêndice continua sendo um dos órgãos mais misteriosos do corpo humano.
Trata-se de uma pequena estrutura ligada ao intestino grosso. Durante muitos anos acreditou-se que ele não servia para absolutamente nada, mas hoje estudos mostram que pode participar do desenvolvimento do sistema imunológico nos primeiros anos de vida e até funcionar como uma espécie de “reserva” de bactérias benéficas da flora intestinal.
Ainda assim, segundo o Dr. André Augusto, sua função não é essencial, já que outros órgãos conseguem desempenhar esse papel. Por isso, a retirada do apêndice não costuma causar prejuízos à saúde nem mudanças significativas na qualidade de vida.
Quem pode ter apendicite?
A resposta é simples: praticamente qualquer pessoa. Embora seja mais comum entre adolescentes e adultos jovens — principalmente entre 20 e 29 anos —, a apendicite também pode acometer crianças e idosos, homens e mulheres.
E aqui vai um balde de água fria para quem acredita que existe uma receita para evitar o problema: não há uma forma comprovada de prevenir a doença.
A inflamação acontece, na maioria das vezes, quando ocorre uma obstrução do interior do apêndice, causada por fezes endurecidas, processos inflamatórios ou infecções. A partir daí, as bactérias começam a se multiplicar e desencadeiam uma inflamação que pode evoluir rapidamente.
Embora manter uma alimentação rica em fibras seja importante para a saúde intestinal, não existem evidências de que esse hábito impeça o desenvolvimento da apendicite.
Os sinais que não devem ser ignorados
Segundo o Dr. André Augusto Pinto, o sintoma mais clássico é a dor abdominal. Mas não é qualquer dor. Muitas vezes ela começa próxima ao umbigo e, algumas horas depois, migra para o lado inferior direito do abdômen, tornando-se cada vez mais intensa.
Além da dor, outros sintomas podem aparecer:
- Febre;
- Náuseas e vômitos;
- Falta de apetite;
- Abdômen endurecido;
- Dificuldade para caminhar devido à dor;
- Prisão de ventre ou diarreia em alguns casos.
Se você está pensando “vou esperar mais um pouquinho para ver se melhora sozinho”, talvez seja justamente o momento de procurar ajuda médica.
Os erros que podem custar caro

Segundo o especialista, o erro mais comum é acreditar que a dor vai passar sozinha.
Outro hábito bastante perigoso é recorrer à automedicação. Analgésicos e anti-inflamatórios podem aliviar temporariamente os sintomas, mas também mascaram o quadro e dificultam a avaliação médica.
Também é muito comum colocar a culpa na última refeição. “Ah, deve ter sido aquela feijoada...” Pode até ser. Mas também pode não ser.
Como a apendicite pode evoluir rapidamente para a perfuração do apêndice e provocar uma infecção generalizada no abdômen, qualquer dor persistente — especialmente no lado inferior direito, acompanhada de febre, náuseas ou vômitos — merece avaliação médica.
Existe um teste caseiro para descobrir?
Talvez você já tenha ouvido alguém dizer que levantar a perna direita ajuda a saber se é apendicite. A resposta é: mais ou menos.
Segundo o Dr. André Augusto, esse movimento faz parte de alguns testes realizados durante o exame físico pelo médico, já que determinados movimentos podem provocar dor quando o apêndice inflamado irrita músculos da região.
Mas atenção: isso não funciona como diagnóstico caseiro.
Muitas pessoas com apendicite não apresentam esse sinal, enquanto outras doenças também podem provocar dor durante esse movimento. O diagnóstico depende sempre da avaliação médica, do exame físico e, quando necessário, de exames como ultrassom, tomografia e exames laboratoriais.
A cirurgia ainda é o tratamento mais comum
Quando a apendicite é confirmada, a cirurgia para retirada do apêndice — chamada apendicectomia — continua sendo o tratamento mais utilizado.
E aqui vai uma boa notícia para quem morre de medo de cirurgia. Segundo o especialista, trata-se de um procedimento considerado de baixa complexidade quando realizado nas fases iniciais da doença.
Hoje, a maioria das cirurgias é feita por videolaparoscopia, técnica minimamente invasiva que utiliza pequenas incisões, causa menos dor no pós-operatório e proporciona recuperação mais rápida.
Em alguns casos específicos, a cirurgia também pode ser realizada pela técnica aberta tradicional ou, excepcionalmente, por cirurgia robótica.
Quando o diagnóstico acontece cedo e não existem complicações, o paciente normalmente recebe alta em um ou dois dias. As atividades leves costumam ser retomadas entre uma e duas semanas, enquanto exercícios físicos e esforços maiores geralmente são liberados após três ou quatro semanas, sempre seguindo orientação médica.
Ouça os sinais do seu corpo
Nem toda dor de barriga é motivo para pânico. Mas algumas dores existem justamente para chamar nossa atenção.
A apendicite é uma dessas situações em que o corpo costuma avisar que algo não vai bem. O segredo está em reconhecer os sinais, evitar a automedicação e não esperar que o problema desapareça sozinho.
Porque, convenhamos: quando a dor começa perto do umbigo e decide fazer uma excursão pelo abdômen, talvez seja melhor ouvir o que ela está tentando dizer — e deixar o Google de lado para procurar um médico.
Gostou? Encaminha para aquela vizinha hipocondríaca ou aquele tio que se acha PHD em doenças.
Beijos e até a próxima!
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