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Pensar demais pode adoecer? O que acontece quando a mente não desliga

Psicanalista explica por que preocupações constantes podem afetar sono, energia e bem-estar

Meu Umbigo|Thais AngelucciOpens in new window

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Se você passa algumas horas por dia nas redes sociais, provavelmente já foi impactado por alguma frase do tipo: “Pense positivo e tudo dará certo”. Em teoria parece simples. Na prática, basta abrir o aplicativo do banco, receber uma mensagem do chefe às 22h ou lembrar daquele boleto que vence amanhã para perceber que a mente nem sempre colabora.

Foi justamente navegando pelas redes sociais que encontrei um conteúdo interessante sobre a influência dos pensamentos na nossa saúde física e emocional. O autor era Pedro Maratá, psicanalista e mentor de propósitos. Curiosa sobre o tema, convidei o especialista para uma conversa sobre algo que afeta praticamente todo mundo: o que acontece quando nossa mente resolve entrar em modo “sessão maratona de preocupações”?


E a resposta começa com uma informação importante: mente e corpo trabalham em equipe — mesmo quando a gente gostaria que eles estivessem em salas separadas.

Quando o pensamento vira sintoma

Pensamento que não para imagem gerada por IA Chat GPT

Quem nunca perdeu o sono porque ficou revivendo uma conversa constrangedora de três anos atrás? Ou sentiu aquele aperto nos ombros depois de uma semana particularmente estressante?


Segundo Pedro Maratá, a psicanálise entende que emoções e pensamentos não ficam confinados à cabeça. Quando sentimentos como medo, culpa, ansiedade ou angústia não são reconhecidos e elaborados, o corpo frequentemente encontra maneiras de demonstrar que algo não vai bem.

É por isso que períodos emocionalmente difíceis podem vir acompanhados de insônia, tensão muscular, alterações no apetite, fadiga e até sintomas físicos sem uma causa médica evidente.


A neurociência ajuda a explicar esse fenômeno. Pensamentos negativos repetitivos mantêm o sistema nervoso em estado constante de alerta. É como se o cérebro recebesse um aviso permanente de emergência, mesmo quando o único perigo real é uma conversa imaginária que estamos ensaiando pela centésima vez dentro da cabeça.

O problema é que viver em alerta contínuo cansa. E muito.


Pensamento positivo não é fingir felicidade

Existe uma confusão comum entre ter uma visão mais construtiva da vida e praticar o chamado “positivismo tóxico”.

A diferença é simples: pensamentos construtivos reconhecem que existe um problema, mas procuram uma forma saudável de lidar com ele. Já o positivismo tóxico tenta colocar um filtro de Instagram em qualquer situação, como se bastasse repetir “vai dar tudo certo” para resolver questões complexas.

Frases como “não pense nisso”, “é só ser positivo” ou “pare de reclamar” podem até parecer motivacionais, mas muitas vezes servem apenas para empurrar emoções legítimas para debaixo do tapete.

E, como lembra o especialista, o corpo costuma ser péssimo em fingir que está tudo bem.

Você pode enganar os colegas, a família e até os seguidores. Mas convencer seu organismo de que não existe estresse enquanto ele produz hormônios de alerta em tempo integral já é outra história.

Sua mente está trabalhando contra você?

Nem sempre é fácil perceber quando entramos em um ciclo de pensamentos repetitivos e catastróficos.

Alguns sinais costumam aparecer aos poucos:

  • dificuldade para desligar a mente antes de dormir;
  • sensação constante de cansaço;
  • tensão muscular frequente;
  • ansiedade sem motivo aparente;
  • dificuldade de concentração;
  • irritação constante;
  • necessidade de prever todos os problemas possíveis do futuro;
  • hábito de revisitar erros e situações do passado repetidamente.

Pedro cita ainda um conceito interessante apresentado por Don Miguel Ruiz no livro “Os Quatro Compromissos”: ser impecável com a própria palavra.

A ideia é simples e poderosa. Muitas vezes somos gentis com os outros e extremamente cruéis conosco. Enquanto jamais diríamos a um amigo “você não serve para nada”, repetimos versões parecidas dessa frase dentro da nossa própria cabeça com uma frequência assustadora.

O diálogo interno acaba se tornando uma espécie de trilha sonora emocional. E, convenhamos, ninguém produz bem ouvindo críticas destrutivas em volume máximo durante o dia inteiro.

Não tente desligar a mente

Uma das maiores armadilhas para quem sofre com pensamentos excessivos é tentar expulsá-los à força.

Funciona mais ou menos como tentar não pensar em chocolate. Quanto mais você luta contra a ideia, mais ela aparece.

O primeiro passo, segundo o especialista, é desenvolver consciência.

Em vez de travar uma batalha contra os pensamentos, vale fazer perguntas simples:

“Isso é um fato ou uma interpretação?”

“Esse pensamento está me ajudando ou me prejudicando?”

“O que realmente está acontecendo neste momento?”

Criar uma pequena distância entre o pensamento e a reação emocional já reduz boa parte do impacto que ele exerce sobre o dia a dia.

Hábitos simples que ajudam a mente a desacelerar

Embora não exista uma fórmula mágica, algumas atitudes podem diminuir bastante a intensidade dos pensamentos automáticos.

Entre elas estão:

  • praticar atividade física regularmente;
  • manter uma rotina consistente de sono;
  • limitar o consumo excessivo de notícias;
  • reduzir o tempo nas redes sociais;
  • fazer pausas conscientes ao longo do dia;
  • praticar técnicas de respiração e meditação;
  • escrever sentimentos e preocupações em um diário;
  • cultivar momentos de gratidão e presença.

Pedro destaca ainda a prática conhecida como Coerência Coração-Cérebro, desenvolvida pelo Instituto HeartMath, que busca promover maior alinhamento entre emoções, mente e respostas fisiológicas do corpo.

Segundo ele, essa técnica ajuda a regular o sistema nervoso e a reduzir os ciclos automáticos de preocupação. Para quem quiser experimentar, Pedro disponibiliza gratuitamente uma meditação guiada no aplicativo Insight Timer

O cérebro pode aprender novos caminhos

E para quem quer começar hoje?

No fim da nossa conversa, pedi que Pedro Maratá deixasse três orientações simples para quem sente que os pensamentos estão dominando o dia a dia. Nada de fórmulas milagrosas ou promessas de felicidade instantânea. Apenas três passos possíveis para colocar em prática agora mesmo:

1. Não acredite em tudo o que você pensa

Nem todo pensamento é um fato. Muitas vezes ele é apenas uma interpretação baseada em experiências passadas, medos, inseguranças ou traumas. Antes de aceitar um pensamento como verdade absoluta, vale perguntar: “Isso realmente está acontecendo ou é apenas uma hipótese da minha mente?”

2. Volte para o momento presente

Grande parte da ansiedade vive no futuro e boa parte da culpa mora no passado. A vida, porém, acontece no agora. Técnicas de respiração, meditação e atividades que conectam você ao corpo podem ajudar a trazer a atenção para o presente.

3. Cuide do corpo para cuidar da mente

Sono de qualidade, alimentação equilibrada, exercícios físicos e momentos de pausa não são luxos — são ferramentas importantes para regular emoções, reduzir o estresse e diminuir a intensidade dos pensamentos automáticos.

Afinal, dá para dominar os pensamentos?

Talvez a melhor notícia desta conversa seja que ninguém precisa controlar cada pensamento que surge.

Até porque, se isso fosse possível, provavelmente já teríamos eliminado da memória todas as cenas embaraçosas da adolescência.

O objetivo não é impedir pensamentos negativos de aparecerem. O desafio é não entregar a eles o volante da própria vida.

Uma estratégia mais realista consiste em escolher quais pensamentos merecem atenção. Nem tudo o que passa pela mente corresponde à realidade. Muitas vezes são apenas interpretações influenciadas por medos, inseguranças ou experiências passadas.

Quando aprendemos a questionar esses conteúdos mentais em vez de simplesmente acreditar neles, ganhamos mais liberdade emocional.

Gostou? Compartilhe com aquela ou aquele amigo que tem os pensamentos acelerados e desorganizados, porque a vida não precisa ser tão complicada assim.

Beijos e até o próximo texto.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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