Eslovênia: entre os Alpes e o Adriático, um pequeno país que produz grandes vinhos
Em Brda, na fronteira com a Itália, uma nova geração revela vinhos de identidade, frescor e precisão, e coloca o país no mapa do vinho europeu
Confesso que antes de visitar a Eslovênia, conhecia pouco sobre seus vinhos.
E talvez esse seja exatamente o ponto de partida ideal.

Localizada no coração da Europa, entre Itália, Áustria, Hungria e Croácia, a Eslovênia é um país pequeno, mas com uma geografia privilegiada. Ali, os Alpes encontram o Mediterrâneo, e é justamente nesse encontro que nasce o estilo dos vinhos.
Há também uma dimensão histórica que ajuda a entender por que esses vinhos só agora começam a ganhar maior projeção internacional.

Durante minha visita à região de Brda, conversei com Anej Reja, que conduz a vinícola familiar Reja Vino ao lado do pai. Ele coloca essa questão de forma direta: a Eslovênia é um país jovem, independente há pouco mais de três décadas. Antes disso, fazia parte da Iugoslávia, e, por isso, a ideia de um “vinho esloveno” praticamente não existia no mercado global. Isso não significa ausência de tradição, ao contrário.
Segundo Anej, a própria região de Brda produz vinho há séculos, com registros de exportações que alcançavam as cortes venezianas, onde a Malvazija era apreciada, e até Roma, que importava Rebula. O que se vê hoje é, em grande medida, uma redescoberta.
Após o período socialista, marcado por uma produção mais voltada à quantidade do que à identidade, as vinícolas familiares voltaram a ocupar o centro da cena, recuperando conhecimento geracional e reposicionando o país no mapa do vinho.
Brda: uma paisagem que molda o vinho
Foi em Goriška Brda que essa percepção ganhou forma.

A paisagem remete imediatamente ao norte da Itália: colinas suaves, vinhedos bem definidos, uma luz clara. E não por acaso, Brda é a continuidade natural do Collio, separada apenas por uma fronteira política. Mas o que realmente define a região está no terroir.
A Eslovênia ocupa um ponto de encontro entre três influências, alpina, mediterrânea e centro-europeia, e isso se traduz diretamente nos vinhos. Em Brda, essa combinação se manifesta de forma muito precisa.
Anej explicou que a proximidade com o Adriático prolonga o calor até o outono, permitindo uma maturação completa das uvas. Ao mesmo tempo, as noites mais frias preservam a acidez natural. O resultado é um equilíbrio raro entre maturidade e frescor.
O solo, conhecido como opoka, é uma marga rica em calcário, porosa e mineral. Ele força as raízes a se aprofundarem em busca de água, contribuindo para a estrutura e para o caráter mineral dos vinhos. E há ainda o relevo: colinas que criam variações sutis entre vinhedos, algo que os produtores fazem questão de preservar.
Uvas e identidade: quando o lugar fala mais alto
Essa relação com o território aparece com clareza nas uvas.

Para Anej, a escolha pelas variedades autóctones é quase natural. São elas que melhor traduzem o ambiente, justamente por terem se adaptado ao longo de séculos, em Brda, a principal é a Rebula. Cultivada há gerações, ela expressa frescor, notas cítricas e uma mineralidade muito definida, uma espécie de síntese do próprio território. Ao mesmo tempo, é uma uva versátil: sua casca espessa permite diferentes abordagens de vinificação.

É daí que surgem os chamados orange wines, vinhos brancos com maceração, de maior estrutura e potencial de envelhecimento, que mantêm, ainda assim, uma acidez vibrante. Outras variedades também compõem o cenário, como a Malvazija, com perfil mais herbal e notas levemente meladas, e o Sauvignon Vert (Friulano), mais floral e aromático. Curiosamente, Anej não vê as uvas internacionais como um problema, elas podem ajudar o consumidor a se aproximar da região. Mas, para compreender de fato o lugar, são as variedades locais que contam a história.
Produzir vinho sem impor um estilo
Se o terroir define a base, a filosofia de produção define o resultado.

Na Eslovênia, a predominância de vinícolas familiares cria uma dinâmica diferente. Em vez de competir por preço, a prioridade é qualidade, e, sobretudo, coerência. Na propriedade de Anej, o trabalho no vinhedo segue princípios orgânicos, com foco na preservação do ambiente e na continuidade para as próximas gerações. Na adega, a intervenção é mínima.
A ideia não é moldar o vinho, mas permitir que cada safra se expresse. Como Anej resume, trata-se de acompanhar o processo, orientar quando necessário e, depois, dar espaço para que o vinho encontre sua própria forma. Essa abordagem resulta em vinhos que não buscam padronização, e que mudam de acordo com o ano.
Orange wines e uma nova atenção internacional
Embora os vinhos brancos frescos e elegantes sejam predominantes, há um estilo que vem chamando atenção internacional: os orange wines.
Na região, eles começaram a ganhar espaço no início dos anos 2000, primeiro do lado italiano e depois em Brda. A própria vinícola de Anej produziu sua primeira Rebula macerada em 2009. Hoje, ainda representam uma parcela pequena da produção, mas têm um papel importante: atraem curiosidade e mostram uma expressão mais intensa do terroir.
Um país pequeno, uma identidade múltipla
Talvez o aspecto mais interessante dos vinhos eslovenos seja a diversidade.
Mesmo em um território reduzido, há uma grande variedade de solos, microclimas e abordagens. E, como cada produtor trabalha em pequena escala, há liberdade para experimentar e seguir caminhos próprios. Isso significa que não existe um estilo único, nem mesmo dentro de uma mesma região. Existe, sim, uma multiplicidade de interpretações, todas ancoradas no território.
Por que prestar atenção na Eslovênia
Depois dessa visita, ficou difícil não olhar para a Eslovênia com mais atenção. Seus vinhos não são construídos para impacto imediato, nem seguem fórmulas internacionais. Eles se revelam com o tempo, no frescor que sustenta, na mineralidade que aparece aos poucos, na precisão que mantém tudo em equilíbrio.
Mais do que uma nova origem, a Eslovênia representa um certo retorno ao essencial: vinhos que não tentam ser outra coisa, que não buscam agradar a qualquer custo, mas que permanecem fiéis ao lugar de onde vêm. E talvez seja exatamente isso que os torna tão interessantes hoje.
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