Drenna transforma ‘Guerra’ em manifesto contra a banalização da violência
Com origem no Complexo do Alemão, passagem pelo Rock in Rio e novo álbum, banda carioca fala sobre arte, política e redes como ferramenta de reflexão

A Drenna ocupa hoje um lugar singular no rock brasileiro independente. Nascida no Rio de Janeiro, ligada à vivência no Complexo do Alemão, a banda construiu sua trajetória sólida na estrada, com gestão própria, presença em eventos do mercado da música e uma leitura muito clara sobre o papel do artista em um ambiente musical pulverizado.
O grupo, formado por Milton Rock na bateria, Bruno Moraes no baixo e Drenna Rodrigues na guitarra e voz, passou por grandes palcos como o Sound Beats do Rio2C e o Espaço Favela do Rock in Rio em 2022. Antes disso, já carregava uma história de turnês, festivais, lançamentos e construção de público, mesmo fora do mainstream.
O reconhecimento da Drenna vem da soma de sua consistência na promoção do trabalho, presença física em eventos estratégicos, e um árduo trabalho de publicação de conteúdo digital com identidade marcante. Em matérias e materiais de mercado, a Drenna sempre aparece como uma das bandas mais ativas da cena rock carioca, com discurso ligado à liberdade de expressão, empoderamento feminino, realidade social e forte performance ao vivo. A discografia da banda mostra essa amplitude, com dois álbuns lançados antes do novo ciclo inaugurado pelo single “Guerra”.
Lançada em 1º de maio de 2026, Guerra abre uma fase de confronto mais frontal da banda. A música nasceu de uma história real ligada a uma operação policial que terminou na morte de uma criança em uma comunidade carioca. A capa, com iconografia quase sacra e uma figura armada, provoca discussão e reflexão antes mesmo da escuta. O single antecipa Interregno, próximo álbum da banda, pensado como um registro de crítica social, deboche, contestação e leitura de um mundo depois da certeza. Na conversa exclusiva para a Musikorama, Drenna Rodrigues e Milton Rock falaram sobre a origem da música, o novo disco, a necessidade de furar bolhas e o sentido de sucesso para quem escolheu fazer rock alternativo como forma de vida.
MSKRM: Vocês estão lançando uma música nova que já veio com uma ideia pesadíssima. A capa trabalha essa tensão entre o sagrado e o profano, com uma imagem quase sacra da Drenna, como uma Nossa Senhora portando um rifle, e o título “Guerra”. O impacto visual é feroz, e quando a música começa isso aparece também nas guitarras, na melodia marcante, na letra sem papas na língua e no videoclipe incrível que produziram. A banda sempre teve essa atitude de questionar as coisas, tanto sociais quanto emocionais e políticas. Sobre o tema de Guerra, vocês discursam como um manifesto. A que, exatamente, a música se refere?
DRNN: “Guerra” é baseada em uma história real. Nasci e fui criada no Complexo do Alemão e, embora hoje não more mais dentro da comunidade, ainda vivo muito perto dali e tenho grande parte da família na favela. A música parte de uma operação policial que resultou na morte de uma criança. O início da letra nasce dessa situação concreta, mas depois a narrativa se amplia para a minha visão sobre uma guerra cotidiana que parece desaparecer por um tempo, volta a acontecer e, por repetição, vai sendo tratada como parte da rotina. Para mim, a violência não pode ser naturalizada. Quando a sociedade passa a conviver com esse impacto diariamente, perde sensibilidade. O que deveria causar indignação vira mais um caso. A televisão muitas vezes espetaculariza essa violência porque gera audiência, mas o problema segue sem resolução. Eu defendo que as pessoas que vivem na favela não têm culpa da violência e estão ali porque precisam estar. Eu lembro que, na prática, vender uma casa na favela dificilmente me permite comprar outra no asfalto. Por isso, o Estado precisa humanizar quem mora nesses territórios e entender que essas pessoas estão ali por necessidade, não por escolha romântica ou conveniente.
MSKRM: Essa música vem, então, como uma denúncia de um descaso social.
DRNN: Sim. Guerra é uma denúncia, mas também faz parte de um projeto maior. Estávamos com a música guardada havia cerca de quatro anos e não havia intenção imediata de lançá-la. Um acontecimento recente, semelhante ao que nos inspirou a compor, nos fez revisitar a faixa. Refizemos o arranjo para ficar mais pesado e mais coerente com a proposta da letra, porque não faria sentido tratar um tema desses de maneira suave. A música vai integrar “Interregno”, nosso próximo álbum. O disco terá uma dualidade: em alguns momentos será uma crítica direta à sociedade; em outros, uma crítica ácida, com deboche. A ideia não é fazer um álbum inteiro apenas “dedo na ferida”, mas observar o mundo também com sátira, porque nós, como banda, nos entendemos como parte do meio que criticamos.
MSKRM: Esse deboche e essa sátira denotam uma atitude punk muito forte. O punk também faz parte do universo da Drenna?
DRNN: O punk se transformou ao longo dos anos, mas sinto que sua filosofia continua importante. Mais do que o “faça você mesmo”, o que me interessa na banda é a forma de escrita, o protesto e o modo como agimos diante do mundo. A música, nesse sentido, é uma arma não letal: uma ferramenta para conversar, provocar reflexão e ampliar a visão de quem ouve. Na Drenna, não queremos escrever a partir do que imaginamos que o público gostaria de consumir. Escrevemos a partir das nossas próprias vivências e da nossa própria visão de mundo. Se em algum momento eu quiser falar de amor, também será porque aquele assunto nasceu de uma necessidade real. O critério central para mim é a autenticidade.
MSKRM: Vocês definem a sua arte como um retrato de suas visões de mundo. O próximo álbum, Interregno, virá dentro desse conceito político-social?
DRNN: Interregno significa algo como "entre reinos" e, no conceito do disco, aponta para o mundo depois da certeza. Em um passado recente, havia a sensação de que certas estruturas estavam estabelecidas. Agora, tudo se transforma muito rápido. O futuro virou uma incógnita, mas, para nós, pode ser construído de maneira mais justa se houver ação coletiva. A proposta é olhar para esse intervalo histórico e tentar transformar a sociedade de uma maneira plausível.
MSKRM: Nesse novo trabalho, vocês soam bem engajados politicamente, não no sentido partidário, mas social e filosófico. O trabalho não faz só um diagnóstico social do Rio de Janeiro; ele coloca poesia, sentimento e uma arte áspera, dura, mas também sensível.
DRNN: O novo álbum será dividido em dois momentos. Já vínhamos lançando singles desse ciclo desde o final de 2025, como Aliens e Só o Tempo Irá Dizer. Agora vêm Guerra e depois Levante, outra faixa pesada. A primeira parte do disco deve reunir cinco ou seis músicas, com lançamento previsto até julho. No segundo semestre, pretendemos lançar mais algumas e fechar o álbum completo em dezembro. Esse formato dialoga com a nova dinâmica das plataformas, com a forma de expor nossa música e criar os conteúdos. O conceito central do disco ainda está fresco, será uma indagação sobre “o mundo depois da certeza” ou “o dia depois da certeza”, perguntando o que acontece no dia seguinte ao momento em que alguém tinha convicção absoluta sobre alguma coisa.
MSKRM: Esse conceito vem muito a calhar em um ano de eleição e em um momento político bastante ácido. Existe uma conexão proposital?
DRNN: O disco novo virá mais posicionado. Sentimos falta de um rock que conteste, que diga o que muita gente não quer dizer e que coloque a cara a tapa. Ressalto que gostamos também do rock de entretenimento, do rock de amor e da música festiva, mas neste momento sentimos necessidade de retomar uma função de confronto. A capa de Guerra já chega provocando. Há quem possa interpretar como ofensa religiosa ou como defesa de armamento, mas a intenção é gerar impacto e fazer a pessoa perguntar o que está acontecendo ali. Para mim, grandes artistas visuais sempre criaram obras capazes de provocar reação. Eu também critico a pobreza estética crescente das cidades e a lógica de músicas pensadas apenas para 15 segundos de atenção. A Drenna quer fazer música do jeito que consideramos necessário e falar de temas que precisam ser ditos em um momento importante para a sociedade, não só no Brasil, mas no mundo.
MSKRM: A música nova é também uma crítica à forma como a mídia transforma a violência em espetáculo?
DRNN: É exatamente o ponto. A violência virou costumeira, e nós queremos retirar esse sentimento de banalidade. Eu reforço que aquilo não é normal. Sobre a relação com o ano eleitoral, eu digo que não se trata necessariamente de compor por causa da eleição. Nós percebemos que todos somos seres políticos. Viver é uma atitude política, gostando ou não dessa palavra. Falar ou não falar de política também é posicionamento. Nosso foco, no entanto, está na transformação do mundo como um todo. Para mim, a sociedade está desaprendendo a olhar para o outro e desumanizando quem pensa diferente, quem pertence a outra religião, outro povo ou outro costume. Em 2026 já deveríamos conviver melhor com diferenças, mas as posições estão ficando cada vez mais extremas. O álbum quer ser um ponto de reflexão para que as pessoas repensem suas atitudes e sejam mais humanas.
MSKRM: Falando agora da jornada da banda: vocês saíram do underground e chegaram a grandes festivais do Brasil, como o Rock in Rio. Como foi essa trajetória?
DRNN: Nossa trajetória nasceu de fazer o que a banda acreditava. Investimos em levar nossa música para mais pessoas, fazer shows, ocupar espaços e divulgar o trabalho. Com o tempo, nosso conteúdo foi chegando a curadores e profissionais de grandes festivais. O Rock in Rio veio logo depois da pandemia, em 2022, quando nos perguntávamos como seriam os processos de contratação no retorno dos eventos. A presença em feiras de música, como a Conecta + Música & Mercado, ajudou nesse caminho. Eu lembro que a banda encontrava curadores, deixava CDs, apresentava o trabalho e permanecia ativa. Quando o perfil da banda se encaixa na história que o curador quer contar naquele palco, a oportunidade aparece. Foi assim com Zé Ricardo, curador que buscava uma banda headliner para representar a “favela que deu certo” no Espaço Favela (Rock in Rio 2022). Acabamos sendo a banda da noite naquele palco, no mesmo dia de atrações como The Offspring e outras bandas de rock. O show foi televisionado, teve repercussão e atraiu pessoas de outros países a conhecer a banda.
MSKRM: Vocês têm uma consciência clara de que uma banda profissional não é só música. Tem figurino, palco, venda, negociação, material comercial, networking, presença em feira. Essa consciência explica muito do reconhecimento atual de vocês.
DRNN: O Milton cuida de editais, contratos e finanças. A Drenna fica ligada à parte visual, composição e identidade. E o Bruno contribui com figurino, fotografia, design e visual. A engrenagem funciona como uma empresa. Hoje qualquer profissional precisa assumir múltiplas funções, não só na música. Médicos fazem conteúdo na internet; nós, músicos, precisamos aprender a editar vídeo, comunicar e gerir a própria carreira. Quem quer trabalhar com música precisa entender que tem que fazer a coisa acontecer. A não ser que eu seja multimilionário e possa contratar uma grande equipe, precisa assumir pontas de figurino, montagem de show, venda, comunicação e gestão, sempre contando também com parceiros que viram tentáculos do projeto.
MSKRM: Hoje parece que todo artista precisa ser também influencer. Antes, rádio, TV e revista concentravam a descoberta musical. Agora tudo está pulverizado entre YouTube, TikTok, Instagram e nichos. Como vocês fazem para furar a própria bolha e serem lembrados no meio de uma enxurrada de conteúdo?
DRNN: Criamos muito conteúdo, embora estejamos produzindo menos no momento porque o foco está na construção do universo do novo disco. Tentamos traduzir a mensagem da música de forma direta nos conteúdos. Houve momentos em que publicávamos todos os dias, comigo cantando, andando, correndo ou pulando, sempre com frases ligadas à música. Observamos “hypes”, formatos que chamam atenção e comportamentos de audiência, mas tentamos adaptar tudo à nossa própria linguagem. Em uma fase, percebemos que vídeos comigo me movimentando na rua tinham mais visualizações. Em outra, usamos comentários negativos como gancho. Um comentário machista sugerindo que colocássemos um homem para fazer um solo virou vídeo comigo solando no Rock in Rio, e o conteúdo teve grande repercussão. Houve uma ação em que lançamos 20 músicas em 20 dias, criando expectativa diária no público.
MSKRM: Então vocês vão lendo a dinâmica do Instagram, do YouTube e do TikTok, e encaixando a música de vocês como centro?
DRNN: O trabalho nasce de um celular, uma ideia na cabeça e a tentativa de criar pequenas ações que provoquem emoção ou reflexão. A pessoa lembra de uma banda quando é impactada de alguma forma, para o bem ou para o mal. Em “A Busca”, por exemplo, os conteúdos geraram depoimentos de pessoas passando por momentos difíceis. O refrão fala sobre buscar na vida um bom motivo para continuar, e isso criou recordação afetiva em parte do público. Não somos muito fãs de trends quando elas tiram o foco da música. Não critico quem usa esse caminho, mas, no nosso caso, a música precisa permanecer em primeiro lugar. Vemos a rede social como o novo rádio. Em teoria, podemos publicar todos os dias e fazer nossa música chegar a pessoas que talvez nunca fossem impactadas por outro canal.
MSKRM: Quais são as referências de vocês?
DRNN: Eu, Milton, curto Eruca Sativa, várias bandas grunge; curto som sujo e underground. Curto também Nirvana, L7... mas ouço também AC/DC e Deep Purple. Já eu, Drenna Rodrigues, tenho influências que mudaram ao longo dos anos e dependem do que eu quero expressar. Na infância, Michael Jackson foi muito importante. O impulso para aprender instrumento veio quando eu vi Slash tocando com Michael Jackson. A partir dali, me apaixonei pela guitarra. Depois, estudei referências como Jimi Hendrix, Steve Vai, Joe Satriani e muitos guitarristas. Mais tarde, ampliei a busca para a parte musical, passando por Aerosmith, Led Zeppelin e clássicos do rock, até começar a olhar para o que estava sendo feito no presente. E a banda tem a influência do punk como atitude, pela entrega visceral no palco e pela ausência de obsessão com uma performance “perfeita”. A busca é beber dessas fontes, mas encontrar uma linguagem própria.
MSKRM: Para quem ainda não conhece o som de vocês, como vocês definiriam essa mistura?
DRNN: Quando precisamos preencher cadastro de festival e escolher estilo, muitas vezes marcamos “outros” e escrevemos “Rock da Drenna”. A Drenna é essencialmente uma banda de rock, mas nos permitimos ousar e fazer mesclas. Os Mutantes é um bom exemplo de banda difícil de classificar, com rock, blues e até elementos próximos da bossa nova. A definição mais justa, para mim, é rock brasileiro, rock nacional, visceral, com proposta de atitude, mas sem aprisionamento em um subgênero.
MSKRM: Milton, sua performance na bateria chama atenção. Você se mexe muito, cria impacto visual e contagia. Você constrói sua parte da música visando a performance?
DRNN: Não adianta tocar uma quantidade absurda de notas por segundo se isso não emociona quem está na frente do palco. Às vezes, bater no prato de baixo para cima, balançar a cabeça, levantar da bateria e gritar com o público comunica mais do que uma virada tecnicamente complexa. Em um show em Araçuaí-MG, um jovem baterista, disse nunca ter visto alguém tocar como eu. Eu interpreto isso não como virtuosismo inalcançável, mas como a quebra de um paradigma: o baterista não precisa ficar imóvel, sentado, como se só pudesse executar a parte técnica. Eu posso levantar, gritar, cantar junto, incomodar a vocalista, provocar uma reação visual. Para mim, o impacto do palco também interfere na composição. Na hora de criar uma bateria, penso se aquilo vai permitir energia, grito, emoção e conexão com o público.
MSKRM: Vocês falam muito do amor pelo trabalho, da responsabilidade social e política e da vontade de transformar o mundo ao redor pela arte. Como vocês enxergam o “dar certo” na carreira?
DRNN: Ficamos felizes quando conseguimos chegar a pessoas que conhecem muita música e podem multiplicar nosso trabalho. A Drenna pretende fazer música pelo resto da vida, dê certo ou dê errado. Para nós, já deu certo, porque dar certo é fazer aquilo que se ama. Sucesso não é necessariamente ficar famoso ou estourar no mundo inteiro. Sucesso é conseguir continuar fazendo aquilo em que se acredita, construir uma carreira contínua, autossustentável e longeva, tocar pessoas, fazer com que alguém diga que uma música, uma letra ou um clipe o levou a pensar.
A entrevista mostra uma banda que entende carreira como construção integral. A Drenna fala de composição, mas também fala de gestão, conteúdo, estrada, curadoria, palco, corpo, imagem, comunidade e permanência. O próximo álbum do trio, “Interregno”, promete trazer essa leitura na forma de um registro sobre o mundo depois da certeza, feito por uma banda que saiu do underground sem abandonar a ética de quem aprendeu a carregar o próprio amplificador, a própria mensagem e a própria responsabilidade.
Guerra chega como uma faixa que sintetiza muitas camadas da Drenna: origem, inconformismo, imagem forte, guitarra, peso, denúncia e capacidade de transformar trauma social em linguagem artística. É uma música feita para interromper a normalização do absurdo, especialmente quando a violência passa a ser tratada como rotina, estatística ou mero entretenimento televisivo.
“Guerra” já está disponível nas plataformas digitais, acompanhada de videoclipe. A discografia da Drenna também pode ser encontrada nos principais serviços de streaming.
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Ficha Técnica — Guerra
Direção: Gabe Gomes
Direção de Fotografia: Gabe Gomes
Assistente de Direção: Alvaro Gomes
Roteiro: Drenna Rodrigues e Gabe Gomes
Operador de Câmera: Heron Portuga
Still: Felipe Alberto
Programação de Luz: Marcus Antunes
Assistente Elétrica: Jorge Alexandre
Figurino: Bruno Moraes
Maquiagem: Rachel Mendes
Produção Executiva: Drenna, Bruno e Milton
Elenco:
André Aranha
Mayra Lima
Laine Lynn
Paulo Puga
Murilo Cavalcante
Julio Oliveira
Igão Doizeme
Alessandro
Paulo Guerra
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