Veja o que se destacou em meio à enxurrada de lançamentos na música em 2026
Do folk ao grunge, da MPB ao pop, esta curadoria reúne artistas de vários países

Ser curador de música em 2026 tem uma vantagem muito clara. Hoje dá para encontrar artistas muito fortes em lugares que, no velho mercado centralizado, quase nunca chegariam até nós.
Com um celular na mão, você atravessa continentes, cruza estilos e encontra obras que têm personalidade real. Foi isso que motivou meu garimpo para esta lista.
Essa abertura para um mundo quase infinito de obras também tem seus pesares. Na palma da mão, agora temos mais gente, mais música, mais volume e, junto com isso, muito material sem preparo, sem direção e sem bom acabamento.
Por isso, a curadoria técnica continua valendo muito. Separar o que só ocupa espaço do que de fato tem força artística e mercadológica é uma parte central do meu trabalho.
O recorte que fiz passa por pop, rock, folk, MPB, soul, world music e alguns cruzamentos muito bons entre essas linguagens. Tem música espiritual entrando no pop, tem música clássica atravessando a canção brasileira, tem rock com textura de rap metal, tem folk com clima cinematográfico.
É uma lista plural, mas não aleatória. Todos os nomes aqui me chamaram atenção por algum motivo muito concreto e ajudam a desenhar o retrato de um primeiro trimestre muito rico em descobertas.
Alexia Evellyn - Stand In Your Power
Healing Pop | Brasil
Alexia Evellyn é, sem dúvidas, uma das artistas mais incríveis que conheci em todo o mundo. Ela entrega uma música de gente grande. A mixagem tem peso, daquela de fazer o peito vibrar com os graves.
A melodia puxa para o pop, mas o beat traz um traço mais tribal, o que ajuda a canção a escapar do padrão mais previsível. A voz entra muito bem encaixada, com técnica, personalidade e uma interpretação que vai além do canto. Aqui existe uma verdadeira atuação.
A obra tem porte para disputar atenção com o pop global de alta linha. O refrão é forte, mas o breakdown cantado em português confere seu ar de território próprio, povo, sangue, senso de pertencimento e uma assinatura muito distinta dentro da música pop internacional.
O clipe eleva ainda mais o trabalho. Um curta de fotografia cinematográfica, atuações impecáveis, narração convincente e uma belíssima direção de Jesus Mendes que ajuda a apresentar Alexia como uma artista multifacetada e completa. Um dos trabalhos mais impressionantes desta temporada.
Joseph Turner & The Dudes of Hazard - A New Moon
Folk | Holanda / Estados Unidos
A New Moon começa muito bem. A introdução prende a atenção, os timbres são bonitos e a combinação entre guitarra elétrica e violão soa coesa, como se um instrumento prolongasse a presença do outro. A voz entra com calor e suavidade, mas sem soar fraca. Há corpo ali.
O arranjo de violão é delicado e, junto da melodia mais direta, cria um encaixe muito agradável. Essa música tem uma composição viva mesmo quando aparecem alguns pontos técnicos menos felizes.
A mudança tonal no refrão pode causar certo estranhamento, porque cria uma tensão mais dura do que a música vinha pedindo até ali. Ainda assim, esta é uma faixa bonita, bem cantada, bem tocada e com escolhas muito boas de timbre e arranjo.
Zahra Deljoui - Medical Misogyny
Eletro Pop | Reino Unido
Zahra Deljoui trabalha um pop mais áspero, distópico, com traços de pós-punk, new wave e clima cyberpunk. A ideia artística é bem forte. A voz preserva um lado humano dentro de uma base carregada de textura e tensão. Isso dá identidade. Não soa como mais uma faixa genérica de pop alternativo.
O conceito minimalista joga toda responsabilidade para a voz, que segura a onda na boa. A sujeira do beat dark pop entra como parte da identidade do protesto que a faixa propõe. É uma canção sensível e carrega um clipe dramático, cinematográfico, que expande a sua tensão e poesia.
Maddie Jayne - Outlived
Folk Pop | Estados Unidos
Outlived é uma faixa cinematográfica muito bem sustentada pelo eixo voz e violão. O timbre do instrumento é agradável, a respiração vocal está bem controlada e a ambiência com reverb reforça o clima de melancolia, sem exageros. Há um senso de trilha sonora aqui, e ele funciona bem.
Quando a guitarra elétrica entra e depois o violino aparece, a canção ganha uma camada extra de emoção. O violino, em especial, acrescenta um toque quase barroco à estrutura folk-pop. É uma música delicada, triste na medida certa e muito bem resolvida dentro da proposta que escolhe seguir.
VENTO - Ollar
Folk Pop / World Music | Espanha
Ollar é uma música feita com conceito e cuidado. O piano tem peso, a voz conduz com delicadeza e os elementos vão surgindo para construir novas paisagens. Gosto especialmente dos timbres que aparecem na parte B. Eles trazem cor e ampliam o espaço da canção.
O videoclipe soma bastante ao conjunto da obra. É um bonito exemplo de uso criativo de inteligência artificial. O audiovisual reforça a atmosfera poética e onírica da faixa. É um trabalho com ótimo acabamento, identidade singular e bom senso estético.
Andrew Ezzet - When?
Folk / Pop Barroco | Estados Unidos
Pouquíssimas vezes topei com um artista que se arriscasse em formatos mais minimalistas. Lembrando Son House e Fleet Foxes, Andrew Ezzet nos presenteia com a linda When?, uma faixa que se apoia em voz, violão e palmas. Esse formato exige muito da interpretação e da atuação do artista, porque não há suporte no arranjo para encobrir nenhum deslize.
A melodia puxa para um folk barroco com espírito popular. Tem força para alcançar camadas de público para além de sua bolha. A voz de Andrew tem corpo, calor, fragilidade e força ao mesmo tempo. Nada soa magro ou mal acabado. É uma obra que aposta no essencial de forma original e, por isso mesmo, soa distinta e marcante.
Guamil - Aún te espero en el mismo lugar
Folk Pop | Espanha
Guamil criou uma balada que representa bem o calor e a intensidade da cultura hispânica. A melodia é bem agradável, e Guamil conduz a música com intensidade poética, fazendo a canção crescer a cada nova parte. Há um toque de valsa e um ar de rock latino que dão personalidade à faixa.
A mix tem certa aspereza, quase vira textura. A canção tem tanta doçura e acerta tão bem no caminho emocional que até pequenos deslizes acabam colorindo a faixa.
Aditi Babel - merry go ride
Folk Pop | Reino Unido
Aditi Babel entrega um indie pop delicado e emotivo, com tons épicos. O bumbo, quase como um batimento cardíaco, é uma boa escolha para cativar o ouvinte. A melodia é agradavelmente doce e sustenta a música sem adoçar demais. Existe ali um senso de romance construído com muito cuidado.
É uma canção jovial, com cara de trilha de filmes de drama juvenil, mas com grande carga emotiva, como A Culpa é das Estrelas e Tartarugas Até Lá Embaixo.
Derrick McDuffey - Jesus, I Love You
Gospel / R&B | Estados Unidos
Jesus, I Love You é uma música muito prazerosa de ouvir. Tem groove, tem balanço, tem energia de coral contemporâneo e carrega bem esse espírito de gospel moderno que busca celebração coletiva.
O ponto mais alto, para mim, é o solo feminino depois da quebra de percussão. Ali a música cresce muito. A forma como ela fraseia, costura as melodias e conduz a tensão é de altíssimo nível.
Haven West Veraguas - political protest song circa 1943
Indie Folk | Estados Unidos
Haven West Veraguas constrói aqui uma obra sensível e, ao mesmo tempo, desconfortável. Ruídos, portas, distorções e ambiente criam um cenário cinematográfico. Por cima disso, entra uma canção suave, com voz soprada e violão dedilhado. Esse contraste dá muita força simbólica à faixa. Ela foi feita para dizer algo, não para agradar a todos.
Quando a música se transforma e mergulha numa massa mais distorcida, quase lo-fi, o efeito é de colapso sonoro. Isso comunica protesto e tensão. Como construção artística, é forte. Como música de entrada para público frio, é mais difícil. Não é uma faixa de consumo rápido. É uma peça de linguagem, de narrativa, de posição. E justamente por isso merece atenção.
Enda de Miranda - Que Saudade
MPB / Jazz / Clássico | Brasil
Que Saudade faz uma releitura sensacional de Lacrimosa, de Mozart. A junção entre música brasileira e repertório clássico ficou natural. A voz de Enda de Miranda aparece com técnica, precisão e aquela doçura da MPB setentista. O violão de nylon ajuda muito nesse encontro entre mundos e faz a ponte entre o clássico e o contemporâneo de um jeito elegante.
A mixagem também merece destaque. A faixa soa simples na superfície, mas carrega várias camadas e detalhes, e o fonograma consegue revelar isso sem perder organicidade. É uma música intensa, bem acabada e muito elegante no que propõe.
Sergio Froes - Por Que Não Somos Eternos
Folk Pop | Brasil
Sergio Froes escreveu uma canção incrível. A letra poética e a melodia cativante acertam em cheio nesse lugar entre delicadeza e comunicação ampla. É uma música que pode conversar com públicos diferentes sem perder sua identidade. Há verdade ali. E há uma doçura bem construída e equilibrada.
O que mais chama atenção é a força de agradar logo no início. Em poucos segundos já dá para perceber que existe uma linda obra ali. O violão em fingerstyle e a guitarra clean criam um clima bonito e colocam a música acima da média desde o começo. É daquelas canções bem escritas que se impõem desde cedo e permanecem no repeat.
Martin Oh - Technology
Indie Pop / Indietrônica | França
Technology tem uma vibe animada muito bem resolvida. A canção olha para os anos 1980 sem soar datada. Ela carrega elementos contemporâneos dentro de uma estética retrô. A faixa mistura electropop com um toque de indie rock e cria de imediato uma sensação de nostalgia luminosa.
O audiovisual amplia a imersão nessa vibe nostálgica com elementos icônicos da cultura pop oitentista. É um uso direcionado e muito criativo da IA para compor o trabalho. Um clipe perfeito para uma boa canção. A mix também está bem feita. A música pulsa, tem energia, tem clareza estética e sabe exatamente que clima quer criar para o ouvinte. É um pop eletrônico muito bem montado.
Lakini - So Close
Bossa Nova / MPB / Pop | Brasil
Lakini arrisca uma bossa nova em inglês. Há inteligência nessa escolha: ela fala com o mercado internacional no idioma dele, mas preserva a linguagem brasileira da canção. A voz é suave, técnica e muito adequada à proposta. A força da faixa está em apresentar uma bossa mais clássica, mas acessível para um público estrangeiro.
Na mix, o subgrave pesa um pouco e deixa a faixa mais velada do que o necessário. Ainda assim, a voz, que é o centro da obra, está muito bem resolvida. So Close é uma canção bonita, sensível e coerente com a proposta artística da cantora.
Bella Masone - Just A Matter Of Time
Drum and Bossa / World Music | Estados Unidos
Bella Masone mistura pop, eletrônica, MPB e bossa nova de um jeito muito interessante. É como se a bossa criasse um beat flertando com o R&B e o hip-hop. O resultado é uma música dançante, ousada e agradável. Diferencia-se da maioria das faixas de urban music. Tem personalidade própria.
A voz é suave, mas com corpo e assinatura artística. Em um mercado tão saturado, originalidade real vale muito. Just A Matter Of Time tem esse mérito.
Damien Binder - Winterlude
Folk Rock | Nova Zelândia
Winterlude é uma canção com boa agradabilidade de escuta. A música tem base folk, mas traz uma aspereza de rock na medida certa. O violão tem bom timbre, o baixo ritmiza o coração e ajuda a sustentar a atmosfera da faixa. O clipe conversa com esse lado introspectivo e mais escuro da canção.
Talvez não seja a música mais explosiva do catálogo em termos de impacto comercial, mas ela deixa sua marca. A arte da capa também merece atenção. O clima de floresta, as cores mais suaves e o próprio título reforçam bem o ecossistema emocional da obra. É um trabalho coeso e prazeroso de ouvir.
Drey Karper - SOL
Soul / Nova MPB | Brasil
SOL tem um clipe cool que combina muito com a proposta da faixa. Essa estética Polaroid caiu bem na mistura de nova MPB com soul, música espiritual, pop e até um traço de blues. É uma construção rica e bem organizada. Nada parece jogado.
A mixagem está boa, com contraste e respiro. Os instrumentos soam vivos, como esse tipo de música pede. No geral, Drey Karper entrega um soul contemporâneo com alma vintage e boa brasilidade. É uma faixa linda.
Isabela Moraes - O Pensamento e o Vento
MPB | Brasil
O Pensamento e o Vento carrega a boa música brasileira no peito. A voz de Isabela Moraes tem força, corpo, cor e também doçura. Isso cria acolhimento e grandeza ao mesmo tempo. A letra é linda e trabalha a melancolia de forma limpa, sem excesso de escuridão.
Quando a voz cresce, a música mostra ainda mais dimensão. É fácil sentir a assinatura da compositora, a presença da intérprete e a grandeza da obra. É uma canção que poderia representar muito bem a música brasileira fora do país, por sua identidade e por sua qualidade de alto nível.
Hunter Benson - Last to Know
Grunge / Metal Alternativo | Estados Unidos
Last to Know é uma faixa para quem gosta de peso groovado. O riff puxa para o metal, e a voz carrega traços de southern rock no fundo. Essa mistura resulta em um grunge moderno. O vocal consegue soar claro e áspero, e esse contraste com o peso do instrumental funciona muito bem.
A mixagem manteve a sujeira da proposta com verniz pop, uma combinação perfeita para representar o artista sem nichar demais. É uma faixa que pode agradar de imediato a fãs de Alice in Chains, Soundgarden e Black Label Society.
Sheffer Stephens - Wild Country
Rock Alternativo | Estados Unidos
Wild Country soa muito bem no campo do rock de acampamento. A bateria marca a faixa com um pulso tribal, a guitarra limpa ajuda a criar um ambiente folk e o vocal bem à frente deu um charme especial. Há algo de rock alternativo e folk, na linha de The Wallflowers e similares.
Tecnicamente, a mix até pode mostrar algumas fragilidades: certo conflito entre baixo e bumbo, uma guitarra mais magra do que poderia ser e um encaixe entre os elementos que não é dos mais refinados. Só que, neste caso, isso tudo vira parte do encanto. A música ganha um ar caseiro, íntimo, quase como uma foto analógica. Não é o tipo de imperfeição que empobrece. Aqui ela virou textura e conceito.
Moon Machine - Aether
Rock Psicodélico | Reino Unido
Aether propõe uma viagem durante a escuta. O dueto de vozes é agradável, há uma referência clara de psicodelia clássica, na linha de Pink Floyd. A melodia popular ajuda a música a não se perder dentro da própria fumaça. O arranjo cria uma cena contemplativa. É uma música ideal para ouvir sozinho, à noite, na sala ou na estrada.
O clipe brinca com a estética de games retrô, o que só amplia a psicodelia e a viagem da obra. Não é música para agradar a todos logo de cara, mas é música que merece a atenção de muitos.
Jeremy and the Rooster - Pawns
Rap Metal | Estados Unidos
Pawns mistura peso, groove e manifesto com bastante eficiência. Quando a música entra, ela já mostra que não vai ficar presa a uma única escola do rock. Tem grunge, tem groove, tem traço de rapcore, tem uma guitarra que passa por hard rock e heavy metal, e tudo isso está organizado como uma pancada auditiva.
Os vocais bem à frente ajudam o flow a ganhar força, e o breakdown falado reforça o caráter de manifesto da faixa. É uma música com personalidade, punch e mensagem. Ótima para fãs de Rage Against the Machine.

Essas 22 faixas mostram uma coisa simples. O mercado está cheio de ruído, mas também está cheio de artistas muito talentosos e ousados. Quando a obra vem com interpretação, arranjo e identidade próprios, ela se destaca no mar de lançamentos diários. Nem sempre vira pico de algoritmo. Mas aparece para quem escuta com critério.
Se eu tivesse que resumir o trimestre em uma frase, seria esta: a descentralização abriu a porta, mas ainda é a qualidade que decide quem fica na nossa memória no dia seguinte. E, nessa leva, vários nomes ficaram.
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