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Trompas: Wally volta ao peso e transforma passado, luto e maturidade em nova banda

Com ‘Lost Again’, o trio formado por Wally, Thiago Caurio e Benhur Lima amplia a estética apresentada em ‘Ten Year Hate’ e mostra uma banda independente, pesada e visualmente forte

Musikorama|Rodrigo d’SalesOpens in new window

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Em “Lost Again”, a Trompas leva para o vídeo a mesma densidade que aparece nos riffs e na letra Reprodução/YouTube/@trompas_music

A Trompas surge como uma das novidades mais interessantes do rock pesado brasileiro em 2026. Formada por Wally, vocalista e guitarrista conhecido por ter fundado o CPM 22 e depois aprofundado sua trajetória no metal com o Astafix, a banda reúne Thiago Caurio (Astafix, Atomic Elephant) na bateria e Benhur Lima (ex-Hibria, Atomic Elephant) no baixo.

O embrião do projeto nasceu de demos pensadas para a Astafix, mas que pediam outra abordagem: riffs mais arrastados, vocais mais limpos, peso grave e uma construção sonora ligada ao sludge, stoner, doom e punk.


O primeiro lançamento, “Ten Year Hate”, apresentou uma sonoridade densa, direta e madura. A faixa antecipa o EP “Anxiety”, previsto para junho, e trabalha temas como desgaste emocional, conflito interno, raiva acumulada e amadurecimento. Agora, com “Lost Again”, novo single-clipe, a Trompas amplia os contornos de sua estética.

A seguir, confira o bate-papo que tive com a banda:


MSKRM: A Trompas chegou com uma sonoridade densa e arrastada, reunindo no projeto músicos com histórico igualmente pesado. Dá para chamar vocês de um supergrupo?

WALLY: Acho que somos superamigos antes de sermos supergrupo ou supermúsicos. Uma coisa leva à outra. Eu conheço esses caras há anos. O Thiago Caurio já vinha trabalhando comigo desde a época do Astafix. O Benhur também já era amigo de longa data do Caurio, desde a adolescência. A gente sempre se deu bem. Mas, claro, receber esse elogio de supergrupo é muito gratificante para a gente.


MSKRM: Como foi esse retorno e esse encontro para montar a Trompas?

WALLY: O Astafix começou em 2009 e foi até 2019. Foram dez anos de estrada, dois álbuns e um DVD. No fim de 2019, eu decidi dar uma pausa por tempo indeterminado na banda. Nesse meio tempo, eu estava gravando músicas que poderiam ser para um futuro álbum do Astafix. Só que começaram a aparecer ideias que soavam diferentes.


Eu fazia demos com o Thiago e percebia que dava para colocar vocais mais clean, cantar mais. O Astafix tinha uma proposta mais groove metal, thrash metal, com vocal agressivo, gutural. Os sons novos tinham outra cara.

O início da Trompas talvez tenha vindo justamente dessas ideias de um possível terceiro álbum do Astafix. Aí veio a pandemia, tudo parou, e aquelas ideias ficaram guardadas.

Em 2022, o Thiago voltou para São Paulo. Eu estava com a cabeça em outro lugar. Meu pai tinha falecido na pandemia, havia muita coisa acontecendo na minha vida pessoal, e eu estava desligado. O Thiago me incentivou a ouvir aquelas músicas de novo. Ele dizia que tinha coisa boa ali e que a gente não podia ficar parado. Ele me deu esse empurrão.

MSKRM: E quando isso deixou de ser uma ideia e virou uma banda de fato?

WALLY: O Thiago tem o Black Stork Studio, em Porto Alegre. Ele falou: “vamos gravar pelo menos duas músicas para ver como soa”. A gente começou assim. Gravamos duas ideias. Ele gravou as baterias em Porto Alegre e eu gravei as guitarras e vocal em São Paulo. Mandamos para o Benhur gravar o baixo e mixar. Gostamos muito do resultado. Aí ficou claro que era outra banda. Decidimos gravar mais algumas músicas para lançar pelo menos um EP.

Essa gravação já vinha desde 2024, mas deixamos tudo em silêncio. Queríamos estudar bem como trabalhar a banda. Ainda estamos nesse processo, porque fazemos praticamente tudo sozinhos. É muito do it yourself. Cada um tem seu papel, e a experiência dos três ajuda muito no resultado final.

THIAGO: O Black Stork Studio foi montado por mim e pelo Benhur em 2014. Desde aquela época ele já fazia umas mixagens absurdas. Ele sempre tocou muito e sempre trabalhou muito bem com som, embora seja modesto.

Desde a época em que eu tocava com o Wally no Astafix, eu tinha essa ideia de produzir algo com o Benhur na mixagem. Quando gravamos e mixamos as primeiras músicas, o Wally pirou. O resultado ficou muito forte.

Trompas, trio de sludge metal, estreou com o single “Ten Year Hate” Reprodução/Instagram/@trompas_music

MSKRM: Quando ouvi “Ten Year Hate”, a primeira coisa que chamou minha atenção foi a qualidade do fonograma. O som é pesado e muito bem definido. Quais são as referências da Trompas?

WALLY: As influências da Trompas vêm principalmente do sludge metal, stoner e do doom. A gente ouve muitas coisas diferentes, claro. Tudo que ouvimos a vida inteira acaba influenciando de algum jeito.

Também pegamos muito da fase dos anos 90, quando veio muita coisa interessante dentro daquele rótulo do grunge. O Nirvana trazia um punk mais alternativo. Alice in Chains tinha uma linguagem de hard rock e doom metal com uma cara própria. Soundgarden tinha uma pegada meio Black Sabbath, mas ia para outro lado, com o vocal do Chris Cornell e ideias muito fortes.

No sludge, tem Crowbar, Corrosion of Conformity, Neurosis… muitas bandas legais. É mais essa onda do peso, das bandas que fazem um som mais arrastado. Mas também colocamos influência de punk. Tudo isso fica misturado. Melvins também é uma referência. É uma banda fantástica.

MSKRM: Esse é o trabalho mais diferente em que você já se envolveu, Wally?

WALLY: Sim, com certeza. Ao mesmo tempo, sinto que isso veio da estrada, do amadurecimento musical, de todos esses anos e dessa bagagem acumulada. Parece que, de repente, soltamos tudo. Como músico e artista, sempre busquei um novo caminho, uma nova direção. Sempre quis criar algo cada vez mais autêntico para mim. Com a Trompas, parece que consegui me encontrar. São anos acumulados, experiência acumulada, e a coisa foi fluindo.

MSKRM: Quem é o público que está chegando para a Trompas?

WALLY: Dá para ver que é uma mistura. Tem uma grande parcela de fãs da época do CPM 22, pessoas que sentiam falta da minha presença na música e que, de um jeito ou de outro, sempre acompanharam o que eu fazia. Tem o pessoal que curtia o Astafix. E também vai vir uma galera nova a partir da Trompas. Está tudo bem misturado, e isso é muito legal. Gosto de ver que as pessoas ainda gostam das coisas que eu faço. Para mim, isso é muito importante. Alimenta a gente para seguir em frente.

MSKRM: Sobre o primeiro single “Ten Year Hate”, a que se referem esses dez anos de ódio?

WALLY: O título tem a ver com uma situação do passado que estava completando dez anos e continuava persistindo. Eu pensava: “mais dez anos de ódio? Será que vai ser sempre assim?“. Peguei coisas da minha vida mesmo. Falo de conflito eterno, guerra na minha mente; nada faz sentido, nada importa mais. Foram coisas que aconteceram e me fizeram pensar: “Por que isso aconteceu?” Eu não esperava determinadas atitudes de algumas pessoas e situações.

Mas sempre trabalhei isso tentando pegar o lado positivo da história. Para a letra, funciona. É importante absorver algo real e soltar ali. Com os anos, fui trabalhando isso. Não é algo que me incomode hoje ou que signifique que eu ainda tenha ódio.

Hoje, essas confusões e coisas do passado estão bem tranquilas na minha cabeça. São coisas que você amadurece com o tempo. A vida não tem ensaio. O importante é aprender com isso, reconhecer onde você errou ou não, analisar e buscar evoluir como pessoa.

MSKRM: Então podemos dizer que é um som agressivo, pesado e, ao mesmo tempo, saudável? Uma situação resolvida que virou elemento de arte?

WALLY: É por aí. Ou você deixa os fantasmas do passado te assombrarem, ou você solta esses fantasmas e transforma isso em arte. Tudo isso vem para a arte. Essa é a parte legal.

MSKRM: Como funciona a dinâmica de encontro, ensaio e composição em uma banda que está dividida entre São Paulo, Porto Alegre e Caxias do Sul?

THIAGO: A gente tem o Black Stork Studio Apartment, que é o QG da banda em Porto Alegre. A galera vem para cá, dorme aqui e a gente faz os trabalhos. A composição e a gravação desse primeiro EP aconteceram mais ou menos assim. Algumas coisas também foram gravadas em São Paulo.

Agora gravamos dois clipes aqui no QG em Porto Alegre. A gente já tem um segundo EP praticamente composto e semigravado. O bom é que temos esse espaço para ficar concentrados e fazer o que precisa ser feito naquele momento.

A nova faixa nasceu de um sonho de Wally e aprofunda o lado mais denso e visual da Trompas Reprodução/Instagram/@trompas_music

MSKRM:Lost Again” acabou de sair como novo single-clipe. Como nasceu essa música?

WALLY: O clipe ficou muito legal. A letra veio de um sonho que eu tive. Eu narro na letra exatamente o que aconteceu no sonho e a gente conseguiu reproduzir essa ideia no clipe. Sonhei com uma garota de um antigo relacionamento. Ela estava com uma cobra ao lado, andando no meio do nada. Eu acordei e fiquei pensando no que aquilo significava. Fui lá e escrevi.

Na hora da gravação do clipe, eu olhava para o monitor e via cenas que eram exatamente o sonho. A gente foi em cima daquela ideia e acrescentamos algumas coisas, mas captou o que estava na minha cabeça no sonho. Conseguir mostrar aquilo foi maravilhoso.

MSKRM: E na gravação do clipe teve cobra de verdade?

THIAGO: A gravação foi uma loucura. A produção foi muito rápida. Em uma semana, conseguimos cobra, atriz, cama, equipe, estúdio, luzes e toda a estrutura para filmar. Eu conheci um biólogo em um bar perto da minha casa. Ele tem um viveiro de cobras. Fui conhecer o viveiro, e ele tinha cascavel, outras cobras peçonhentas e uma píton de 43 quilos.

É importante dizer que tomamos todos os cuidados. O profissional que participou é especialista. A gente planejou muito antes de filmar. Não queríamos qualquer risco para a atriz nem para a cobra. O animal foi tratado com muito carinho.

Também havia muitos cuidados técnicos. A cobra é um animal silvestre. Ela sente vibração. O estúdio precisava estar silencioso para ela não se estressar. Também havia cuidado com temperatura. A preocupação era a segurança de todo mundo, da atriz e da cobra. As imagens ficaram surreais.

MSKRM: A Trompas vem com uma estética sonora e visual muito forte. Como funciona a gestão criativa da banda?

WALLY: Tudo começa pela música. Eu gravo os riffs em casa e mando para o Thiago. Ele já começa a pensar na bateria e a gente conversa muito. O legal é que não existe esse lance de ego. Ele pergunta o que eu imagino de bateria em certas partes. Às vezes eu tenho ideias, às vezes digo para ele fazer livremente.

Com o Benhur é a mesma coisa. Dou liberdade total para ele criar as partes dele. Na música, todo mundo trabalha junto e traz ideias. Na parte visual, as capas dos singles e do EP foram feitas pelo Benhur. Ele trabalha com arte gráfica, sempre foi designer, então também contribui nessa área.

Quando está tudo pronto, Benhur trabalha mais a pós-produção e a maneira como a banda vai soar na gravação. Os visuais dos clipes têm muito do Thiago, que trabalha essa parte de direção e estética audiovisual. Cada um contribui com o que sabe fazer para o projeto rolar.

MSKRM: Vocês têm uma produção totalmente autônoma. Como é a gestão comercial, de vocês? Também segue a filosofia do it yourself?

WALLY: Nós estamos cuidando dessa parte. Soltamos as músicas em todas as plataformas. É esse jeito bem punk, bem DIY. Vamos sentindo, fazendo, pensando e executando. Não estamos planejando algo enorme de saída. Estamos trabalhando dentro das nossas possibilidades.

A ideia principal era começar a mostrar as músicas para o público. Temos uma distribuidora trabalhando nas plataformas digitais, temos assessoria de imprensa e estamos estudando possibilidades para trabalhar com produtora e agente de shows. Estamos tentando montar uma equipe, talvez uma no Sul e outra em São Paulo.

MSKRM: Como você enxerga o mercado hoje para uma banda independente?

WALLY: Hoje o artista independente tem várias possibilidades de trabalhar a carreira. Isso é muito interessante. Muitos artistas grandes começaram independentes e quiseram manter esse tipo de trabalho, cuidando da própria carreira e evitando que muita gente mexesse no som ou mudasse o direcionamento artístico.

O lado positivo é que as grandes corporações talvez já não mandem no jogo como antes. Hoje o artista tem alcance. Se o trabalho é bom e tem qualidade, a música pode se espalhar pela internet e pelas redes sociais. Isso é muito legal, porque a arte verdadeira, crua, que vem da alma, pode chegar.

Para mim, a arte é o artesanato da alma. É algo muito particular, que vem de dentro. Hoje você pode colocar a sua verdade ali sem passar por filtro, sem seguir uma cartilha de regras, sem alguém querendo mudar o que você escreve, como você grava ou como deve soar. Eu acredito muito nisso e gostaria de continuar fazendo as coisas de forma independente por mais tempo.

MSKRM: Então a prioridade é construir base de público antes de depender de estruturas maiores?

WALLY: O que faz a banda é o público. Se você passa uma ideia, uma mensagem, e o público entende, ele segue você. A gente precisa de público, não de gravadora ou de mega corporações mandando no trabalho. Se temos público, fazemos shows e as pessoas aparecem. O mais importante é criar essa base de fãs que leva a banda para frente. Uma banda tem vida longa quando tem uma base real de fãs.

MSKRM: Para quem está conhecendo agora: o que é a Trompas?

WALLY: Trompas é música de verdade, vindo de dentro da alma. É peso. É uma mistura de tudo que a gente viveu e ouviu. É música lamacenta, pesada, com verdade. É natural. É uma coisa simples, crua, em que você solta para fora aquilo que está sentindo no momento.

MSKRM: Obrigado por baterem esse papo comigo. Foi uma honra conversar com vocês.

WALLY: A gente que agradece. Muito obrigado pelo convite e pela oportunidade. Fico feliz que muita gente não me esqueceu e continua acompanhando. Para mim, o mais legal é isso, porque sem o público a gente não é nada. São as pessoas que dão força para a gente continuar. É como um combustível, a milha extra que precisamos.

A música proporciona esses encontros: entre a gente e os amigos que formam a banda, e entre a banda e o público. Tudo é energia. Estamos conectados de algum jeito. Banda e público formam uma energia conectada.

A Trompas trabalha o formato de power trio com sonoridade grave, andamento arrastado e produção independente Reprodução/Youtube/@trompas_music

A Trompas está no começo de sua exposição pública, mas já chega com experiência, identidade singular e clareza sobre o valor da independência artística e operacional. “Ten Year Hate” abriu o caminho com peso e maturidade. “Lost Again” aprofunda esse universo com ousadia.

O próximo passo será a afirmação de seu ecossistema cultural com o EP “Anxiety” e, depois, a construção da história ao vivo. Se a banda levar para o palco a mesma densidade e energia do estúdio, a Trompas pode ocupar um relevante espaço no rock pesado brasileiro da atualidade. Uma banda com biografia forte, repertório novo e assinatura própria.

Assista a entrevista completa abaixo.

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