Cantor em situação de rua é descoberto após anúncio online e grava em projeto com Run-DMC
Na voz de Ishmael Herring, ‘GBSCS’ une blues e soul em uma gravação marcada por emoção, força coletiva e clima de descoberta

Ouvir “GBSCS”, de William Pilgrim & the All Grows Up, foi uma descoberta que me pegou em cheio. Entrei na música sem saber o que esperar e saí com a sensação clara de ter encontrado uma obra rara, daquelas que crescem diante dos olhos e ouvidos.
O primeiro impacto vem da voz. Ishmael Herring tem um timbre jovial, mas segura muito bem esse blues. Não soa como alguém tentando emular uma estética vintage. Soa como alguém sentindo a música com verdade e dor. Por volta de 01′15″, isso fica ainda mais evidente. A voz cresce, aparece um leve drive e a faixa ganha ainda mais corpo com naturalidade.
A história por trás da canção é densa e inspiradora. Ishmael cresceu em meio a uma infância difícil, passou pelo sistema de acolhimento e encontrou na música uma forma de enfrentar esse passado. Aos 20 anos, foi para Los Angeles, mas a cidade não abriu caminhos de imediato. Ele chegou a viver em situação de rua em Hollywood antes de responder a um anúncio online de Philip Romero, que procurava um cantor. Romero é um músico e compositor da chamada Americana, vertente que cruza folk, blues, country e rock de raiz dos Estados Unidos. Dessa conexão nasceu William Pilgrim & the All Grows Up, projeto que deu origem ao documentário Ishues.
O filme acompanha essa trajetória e traz performances com participação de Darryl McDaniels, o DMC do Run-D.M.C., além de Blind Boys of Alabama e Brenton Wood. Esse contexto ajuda a entender por que “GBSCS” soa tão coletiva, tão humana e tão carregada de presença e sentimento.

Musicalmente, o arranjo trabalha um clima bluesy muito bonito, com piano Rhodes ao fundo dando uma cama elegante e vintage que sustenta a atmosfera e deixa tudo mais gostoso de ouvir.
Os backing vocals somam muito bem ao clime e o refrão é bem cativante. A música tem blues, soul, pop e blues rock na dose certa para se conectar com diferentes públicos. Em alguns momentos, a instrumental pode até me lembrar um aspecto Beatles, especialmente pela construção melódica de crescimento da canção.
O solo de sax é outro acerto. Quando ele entra, a música muda de cenário. O solo traz uma nova cor para a faixa e agrega à força coletiva da gravação.

Também me veio à cabeça uma certa aura de “We Are The World” e de Bob Dylan em sua fase Saved. Não como comparação direta, mas pela soma de vozes, pelo sabor gospel dos coros e por esse sentimento de esperança e superação. Há uma mistura entre música popular e espiritualidade que a obra entrega com muita verdade.
O vídeo ao vivo no estúdio traduz tudo isso muito bem. Ele aproxima a banda de quem está assistindo. Dá para sentir a interpretação acontecendo ali, com intimismo, sensibilidade e verdade na performance de cada um.
“GBSCS” soa gigante. É forte. É uma música para fãs de blues, blues rock e soul, bem como para todos que gostam de canções que vão crescendo, aos poucos, até explodir e fazer moradia eterna na cabeça. Amei conhecê-la.
A música muda vidas.
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