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O passado como ponto de partida: 12 faixas atuais que reinventam sonoridades de outras décadas

Covers, remixes e composições autorais mostram diferentes maneiras de reorganizar referências do passado em obras iventivas.

Musikorama|Rodrigo d’SalesOpens in new window

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Releitura de sonoridades das décadas passadas permeiam a discografia de artistas emergentes da nova geração Reprodução/Instagram/@gingerandthepeppers/@bandabaleiaazul/@lindasenafr

A nostalgia virou um recurso frequente na indústria contemporânea. O reconhecimento imediato pode aproximar o público, mas também o afasta de quem se limita a repetir uma fórmula gasta.

Trazer uma referência de sonoridades do passado tem ganhado relevância no presente quando o artista insere seus próprios temperos na letra, no ritmo, nos timbres ou na reinterpretação de uma obra já conhecida.


As 12 faixas desta curadoria trabalham com procedimentos distintos para trazer a memória eras passadas a um mercado atual e inventivo. Há canção de Bob Marley reconstruída como indie pop, remix norueguês atravessado por ritmos brasileiros de raiz, tributo a memória de Belchior, estéticas do rock nacional oitentista e até uma fusão de xote com histórias de assombração ambientadas no sertão brasilerio.

BALEIA AZUL — Perto do Fim

Rock Progressivo / Rock Brasileiro | Brasil


Perto do Fim começa com uma construção que aproxima Rush e o Barão Vermelho dos primeiros discos. Quando Tety Brasil entra, a personalidade vocal traz essas referências ao seu próprio modo. Seu fraseado traz componentes de Cazuza e Rita Lee, com interpretação enérgica, pronúncia marcada e uma maneira própria de conduzir as palavras. O instrumental possui bastante punch e virtuosismo dos músicos, embora a composição mantenha uma estrutura direta e dançante.

Revolta, inadequação e procura por pertencimento aparecem na escrita, no canto de Tety e nos arranjos de Xitos. Baleia Azul recupera a capacidade do rock brasileiro dos anos 1980 de colocar o público para dançar e enquanto os faz refletir sobre sua participação social, direitos e deveres enquanto indivíduos pensantes.


Para fãs de: Cazuza, Rita Lee e Barão Vermelho

GINGER AND THE PEPPERS — Strange

Spicy Alt Rock | Brasil


Em Strange, a Ginger and The Peppers parte de um riff marcante, cantarolável e saturação crocante. A composição corre a 180 BPM, mas a bateria toca em half-time, preservando o peso e abrindo espaço para o groove. O aspecto instrumental carrega swing e sensualidade com ares lisérgicos.

Ju Dillon alterna agudos rasgados com melodias firmes e bem definidas. As influências de Robert Plant e Ozzy Osbourne aparecem no desenho vocal, enquanto o deboche, os cacos e os pequenos diálogos lembram a atitude de Juliette Lewis. No refrão, a bateria assume uma condução tribal e a melodia entra no rock alternativo dos anos 1990, com elementos de grunge e pós-grunge. A faixa reorganiza referências de classic rock, punk e grunge dentro de uma produção contemporânea, sem ficar presa à imagem setentista que tentam impor à banda.

Para fãs de: Juliette Lewis, Lenny Kravitz e Audioslave

DEAR JOY – Waiting in Vain

Indie pop | França

DEAR JOY retira Waiting in Vain de sua base reggae e reconstrói a música de Bob Marley com sintetizadores, produção minimalista e textura lo-fi. Os graves mantêm uma pulsação típica da música pop, porém com contornos desgastados, enquanto guitarras com reverberação e delays conduzem a faixa para uma escuta noturna e introspectiva.

A interpretação cresce por volta dos três minutos, quando a voz ganha mais intensidade e carga emocional, mesmo sem romper a atmosfera suave da versão. O resultado preserva a memória melódica da composição original, mas com uma nova cor e temperatura.

Para fãs de: Bob Marley, Cigarettes After Sex e Beach House.

JAMES TONIC – Who’s Going Down

Indie pop | Canadá

James Tonic canta com suavidade e controle sobre uma produção que combina elementos atuais com uma atmosfera oitentista/noventista. A guitarra aparece definida e discreta, deslocada para o canal esquerdo durante os versos, acrescentando cor sem preencher excessivamente o arranjo.

Os sintetizadores, o dueto vocal e uma bateria com leve influência da soul music criam um dream pop capaz de alternar pressão sonora e delicadeza. É uma faixa para dirigir à noite ou atravessar a cidade sem destino definido, acompanhando as mudanças de dinâmica e o clima cinematográfico da gravação.

Para fãs de: Cigarettes After Sex, Lana Del Rey e The 1975.

ARI FRASER – Dad Said

Pop gospel | Estados Unidos

Dad Said acompanha diferentes fases da relação entre um filho e seu pai, passando pela rebeldia da infância, pelas dificuldades da vida adulta e pela experiência da perda. A composição soa como o estilo gênero americana e folk pop de início do milênio, mas acrescenta percussões e arpejos de cordas com referências orientais, evitando que a faixa caia em um arranjo convencional de balada familiar.

Ari Fraser apresenta bom controle de afinação e uma interpretação sensível e segura. As harmonias vocais valorizam o refrão, enquanto o solo central aproxima cordas, violão e harmônica. Essa combinação traduz musicalmente o encontro cultural que diferencia a canção.

Para fãs de: The Lumineers, Mumford & Sons e Matisyahu.

SHEILA SIMMENES – Beautiful (Eloah Blú Remix)

World music, pop e jazz | Noruega

Sheila Simmenes revisita sua obra com remix de Eloah Blú. A faixa traz batidas dançantes, percussões brasileiras e metais com acento jazzístico. O trompete colore o arranjo com seu ar vintage e o groove e vocalizes aproximam a música da MPB setentista.

A voz é delicada, mas bem encorpada. O beat e a percussão colocam a faixa entre a canção brasileira raiz e o pop eletrônico, conferindo à faixa uma experiência mais física e expansiva.

Para fãs de: Bebel Gilberto, Sade e Céu.

LINDA SENA – Um Vinho e Belchior

MPB e pop | Brasil

Linda Sena usa a obra e aspectos da biografia de Belchior como matéria para construir uma narrativa própria. Referências, imagens e elementos de obras do compositor cearense reaparecem aqui ligados a relações humanas, memória e afeto para uma nova história iventada por Linda.

A produção apresenta timbres suaves e definidos, com violões bem distribuídos na imagem estéreo. A guitarra entra em recortes, riffs e solo com boa abertura de espaço para a voz. A faixa mantém um regionalismo pertinente a Belchior, mas com uma nova roupa colorida.

Para fãs de: Belchior, Gal Costa e Elba Ramalho.

BLOCK – All in My Head

Britpop e classic rock | Estados Unidos

All in My Head recupera a atmosfera do rock dos anos 1990 por meio de uma combinação entre a atitude dos Rolling Stones e o caráter melódico do britpop. Há algo de The Verve na forma como a canção equilibra melancolia, guitarra e uma interpretação vocal marcada pela vulnerabilidade.

A composição mantém uma aparência simples, urbana e minimalista, mas oferece detalhes suficientes nos timbres e nas texturas para sustentar novas escutas. A melodia vocal é o principal ponto de adesão e ajuda a explicar por que a faixa se encaixa no retorno de Block após 13 anos sem um álbum de inéditas.

Para fãs de: Oasis, The Verve e Soul Asylum.

FERNANDA – Cliché

Pop e funk | França

FERNANDA alterna português e francês com naturalidade, explorando a proximidade fonética entre os idiomas. A letra acompanha o fim de uma relação e a tentativa da protagonista de reorganizar a própria identidade. A mudança de língua funciona como parte da narrativa e aproxima referências culturais brasileiras e francesas.

A produção combina o funk dos anos 2000 ao pop europeu, dentro de uma construção rítmica bastante familiar, coerente com o próprio título. O elemento mais particular está na interpretação bilíngue e no timbre da cantora. É esse recorte que separa Cliché de outras faixas lançadas em um segmento global extremamente disputado.

Para fãs de: Anitta, Aya Nakamura e Jain.

BLOCO DO CAOS – Mil Brasis

Reggae e world music | Brasil

O Bloco do Caos abrange a diversidade cultural brasileira na construção do arranjo. Nos trazendo ao sentido um aroma manguebeat, a mistura de reggae, funk, samba, axé e hip-hop, a faixa apresenta uma letra sobre os diferentes brazís que coexistem dentro do país. O coro no breakdown reforça o caráter coletivo e aproxima a música de carnaval, arquibancada e festa de rua.

O fonograma apresenta profundidade, frequências agudas definidas, graves bem controlados e uma masterização com bom impacto. A interpretação vocal mantém a intensidade exigida pela faixa, enquanto a mistura rítmica percorre referências paulistanas, cariocas, nordestinas e maranhenses.

Para fãs de: Mundo Livre S/A, BaianaSystem, O Rappa.

SIL COSTA – Dirá

Bossa nova, MPB e world music | Brasil

Sil Costa canta com voz suave e sussurrada, estabelecendo uma relação imediata com a bossa nova e a MPB. A instrumentação amplia esse campo com guitarra, bateria, percussões, baixo e metais. Os graves e o groove acrescentam referências da soul music e aproximam determinados trechos de Tim Maia e da produção de Gal Costa nos anos 1970.

A faixa apresenta bons instrumentistas, punch nos graves e swing na medida certa. Dirá possui elementos suficientes para circular em grandes festivais de world music mundo afora.

Para fãs de: Gal Costa, Tim Maia e Céu.

NÓIS’Y VENDEL – A Carolina Vai Voar (Trilha Sonora “Revoada”)

Folk rock e rock rural | Brasil

Nóis’Y Vendel combina folk rock, rock rural e folclore brasileiro em uma faixa inspirada pelo curta-metragem Revoada. O resultado é o “dark xote”: música nordestina de atmosfera sombria. Os graves em looping do arranjo dão obscuridade ao refrão de canto sertanejo do agreste, carregado de tensão e melancolia.

A guitarra é tocada quase como um berimbau, acompanhada por triângulo, tambores e percussões tradicionais. Distorções, saturação, andamento arrastado permeado por gritos e backing vocals que lembram um canto gregoriano completam a trilha de terror rural. Essa faixa é a possibilidade concreta da criação de um gótico nordestino.

Para fãs de: Zé Ramalho, Cordel do Fogo Encantado e Dead Can Dance.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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