Jovens escutam mais de 8 gêneros. E os rótulos ficaram pequenos demais para a música independente
Uma curadoria que mostra como a escuta multigênero está mudando a criação, o posicionamento e a classificação dos artistas
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O público mundial escuta, em média, mais de oito gêneros musicais. O dado aparece no relatório Engaging with Music 2023, da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), que ouviu mais de 43 mil pessoas em 26 países. Entre os jovens de 16 a 24 anos, 65% consideram importante ter acesso a músicas de qualquer parte do mundo. A antiga imagem do fã que vive dentro de uma única prateleira já não descreve integralmente o consumo.
Essa ampliação do repertório cria um ambiente em que fonogramas híbridos encontram menos fricção de adesão. O ouvinte que passa do grunge ao R&B, do country à eletrônica e do reggae ao indie pop já chega treinado para reconhecer mudanças de linguagem dentro da mesma música. A classificação por gênero continua útil para busca, pitching e curadoria, mas perde precisão quando tenta descrever sozinha o que está no áudio.
Nesta curadoria, reuni artistas emergentes vindos do Brasil, Estados Unidos, França, Reino Unido e Austrália, que permitem observar essa miscelânea dentro dos arranjos. Há indie folk atravessado por pós-punk, dark country com peso de rock alternativo, reggae que desemboca num refrão roqueiro, grunge sobre bateria de pop punk, soul setentista dentro da MPB e guitarra funk inserida numa faixa eletrônica. Cada fonograma conserva um centro identificável e exige mais de uma prateleira para ser explicado.
1. THE SKEEP – Vendaval No Box Do Banheiro
Rock alternativo e indie rock | Brasil
Vindos do Espírito Santo, a The Skeep encerra com Vendaval No Box Do Banheiro o ciclo iniciado nos EPs Atro e Alvo. O refrão fixa com rapidez, mas é o encontro entre a voz masculina e a feminina que dá à faixa sua assinatura própria. Os dois timbres dividem a melodia com peso igual e criam um conceito para a banda.
O instrumental circula pelo rock alternativo e pelo indie, com aspectos que podem lembrar Gram, Kings of Leon e Supercombo. O dueto evita que a faixa seja reconhecida apenas pelas influências instrumentais: é ele que fixa o refrão e distingue a banda logo na primeira audição. Gravado no Palácio das Águias, o videoclipe prolonga a experiência da escuta e enaltece essa combinação entre as duas vozes, a performance da banda e o cenário histórico.
2. SCOTT ELLIS – Soft Swell
Indie folk e pós-punk | Reino Unido
Ellis passou duas décadas trabalhando como ator antes de publicar as canções que escreve desde a adolescência. Soft Swell começa com voz e violão em registro próximo, quase doméstico, e ganha novas proporções conforme as guitarras ocupam o arranjo. A melancolia do indie folk encontra timbres associados ao pós-punk britânico, especialmente na combinação entre interpretação contida e linhas instrumentais que ampliam a sensação de espaço.
Por volta de 1:50, a seção B apresenta a melhor virada da composição. A intensidade vocal aumenta, a melodia alcança outro patamar e a faixa revela com mais clareza o parentesco com The Cure e Echo & the Bunnymen. Ellis não depende de uma mudança brusca de andamento para produzir esse crescimento. A canção se expande pela interpretação e pela entrada calculada das camadas instrumentais.
3. ROB BELLAMY & THE REBEL HEARTS – Cold Country
Folk rock, dark country e southern rock | Estados Unidos
Cold Country avança em andamento medido, acumulando peso até o refrão. As guitarras engrossam a base, a bateria evita pressa e a voz sustenta uma melodia ligada ao country, mas com densidade de rock alternativo. O resultado aproxima o folk de Neil Young, o peso de Creed e Nickelback e elementos de southern rock, sem dissolver a marca regional que dá assunto e vocabulário à canção.
Bellamy passou sete anos como jogador profissional de hóquei na organização do Philadelphia Flyers antes de se mudar para Nashville e construir uma carreira musical. Em Cold Country, os invernos rigorosos, o trabalho físico e o orgulho da Nova Inglaterra aparecem como matéria da letra. O videoclipe foi gravado no interior de New Hampshire e mostra a banda tocando ao redor de uma fogueira sob baixas temperaturas, transformando o lugar descrito na música em parte visível da narrativa.
4. ESPLANADA – Ride Or Die
Rock alternativo e pop rock cinematográfico | França
A Esplanada abre o EP Ride Or Die com uma canção sobre permanecer ao lado de alguém mesmo quando tudo ao redor se torna instável. Guitarras orgânicas, teclados atmosféricos, baixo e bateria constroem uma faixa de rock alternativo melódico.
A interpretação de Silke e a melodia do refrão recuperam elementos do rock alternativo dos anos 1990 sem soar datado. The Cranberries, Sixpence None the Richer, No Doubt e Smashing Pumpkins são algumas referências para a sonoridade, com uma produção de caráter cinematográfico. A repetição de “ride or die” funciona como mantra e concentra a promessa de lealdade presente na letra.
5. LILHOUSE – Um Sonho
Rock alternativo | Brasil
Um Sonho começa sobre uma levada de reggae, mas com uma interpretação e timbre de voz que conectam a faixa ao rock. A voz é jovial e, ao mesmo tempo, carrega um sentimento denso que desloca a abertura para um registro mais tenso. A combinação produz uma quebra de expectativa imediata, principalmente quando o refrão chega e as guitarras conduzem a faixa para uma construção mais próxima do rock alternativo.
Essa passagem entre reggae e rock aproxima a música de uma linhagem brasileira que agradariam facilmente a fãs de Skank e O Rappa. O timbre vocal e o peso do refrão abrem o leque para emo e metal moderno. A melodia mantém unidade entre as duas partes, e a mudança de arranjo no refrão dá a Um Sonho seu traço mais reconhecível.
6. CLARK CLIPSON – The Choice
Folk pop | Estados Unidos
O dedilhado no violão de cordas de aço estabelece o centro de The Choice. Clack Clipson canta com suavidade e uma melancolia bem dosada, enquanto piano, baixo e violinos ampliam a canção sem encobrir o motivo apresentado no início. O piano trabalha com notas espaçadas, o baixo acrescenta corpo e o coro final abre o arranjo, conduzindo a faixa a um desfecho mais luminoso.
Clipson lançou a música depois de apresentar The Quiet Inside, seu terceiro álbum, formado por oito faixas. A construção gradual dá ao fonograma um caráter cinematográfico, como se cada instrumento marcasse a entrada de uma nova cena. Esperança e melancolia convivem na mesma melodia, sustentadas pelo cuidado com a dinâmica e pela interpretação vocal. É uma canção que cresce mantendo o clima intimista.
7. GERNZ – Ow!
Grunge, pop punk e garage rock | Austrália
O trio australiano Gernz abre Ow! com um riff simples, ligado ao punk rock do fim dos anos 1990 e início dos 2000. A bateria se aproxima do pop punk, enquanto a voz preserva uma linha melódica direta e recebe a distorção associada ao grunge. Pixies aparece no desenho das guitarras, Blink-182 na condução rítmica e a escola de Kurt Cobain, Melvins e Mudhoney na interpretação vocal.
A bateria de pop punk e a voz de grunge parecem vir de bandas diferentes, mas encontram o same ponto de chegada no refrão. A sujeira de garage rock impede um acabamento plástico, e a seção mais aguda leva a faixa na direção do rock alternativo de Smashing Pumpkins. A letra relaciona dor física e emocional com humor, preservando a atitude de um power trio que sabe como essa canção precisa funcionar ao vivo.
8. VICTOR CRONOS – Garoto Errado
Indie pop, indie rock e pop punk | Brasil
Cronos abre Garoto Errado com um beat de referência oitentista, guitarra carregada de ambiência e vocalizes que renovam a atenção logo nos primeiros segundos. A melodia do refrão torna a faixa capaz de conversar com públicos de indie pop, indie rock, pop rock e pop punk. O canto sussurrado e soproso reforça o caráter confessional da faixa.
A letra reúne cabeça acelerada, nostalgia, exaustão provocada pelo celular e a sensação de estar sempre em dívida consigo mesmo. Dentro do projeto Mixtake, a canção registra um Cronos mais vulnerável e direto. A capa estende essa leitura com uma fita cassete personalizada por adesivos e rabiscos, imagem que remete a um período em que cada mixtape carregava escolhas, recados e uma memória particular de quem a montou.
9. RAFA CANOVAS – Última Noite
Indie, soul e MPB | Brasil
Rafa Canovas coloca o contrabaixo no centro de Última Noite. O instrumento sustenta um groove de soul brasileiro com referências dos anos 1970, enquanto a guitarra seca recorta a mixagem em um canal bem definido. A faixa reúne indie, MPB, blues e black music numa produção econômica, em que poucos elementos recebem espaço suficiente para que timbre, divisão rítmica e intenção apareçam com clareza.
A música encerra o EP Ainda Aqui, depois de Azul e Você Sabe Tudo Pela Metade. As três faixas percorrem manhã, tarde e noite, e o fechamento assume o trecho mais noturno e introspectivo do arco. A mixagem usa uma separação mais radical entre os canais para criar espacialidade, enquanto o baixo encorpado e a guitarra de ataque curto conduzem uma canção que aproxima a escola de Tim Maia do indie brasileiro atual.
10. VIANNEY AUBÉ – Mon Araignée
Pop, R&B e rock alternativo | França
Depois de trabalhar como editor e mixer de som no cinema, Aubé passou a concentrar sua criação em canções. Em Mon Araignée, a aranha representa pensamentos insistentes, medos e pequenos ruídos que atravessam uma noite sem sono. A voz introspectiva mantém as respirações em primeiro plano, enquanto a base escura sustenta a tensão sem apagar o desenho melódico.
O refrão adota melodias de pop e R&B e clareia a faixa por alguns instantes. A pausa seguinte e o retorno por volta de 1 minuto e 13 segundos recuperam a intensidade com guitarras próximas do rock alternativo e do garage rock dos anos 1980 e 1990. Os sintetizadores se abrem progressivamente e aumentam a largura da produção. A experiência de Aubé no cinema aparece de forma concreta na atenção às transições, às camadas e ao uso das respirações.
11. ST. ART – Heaven On Their Minds
Eletrônica psicodélica e rock | Estados Unidos
O coletivo st. art coloca a guitarra dentro de uma produção eletrônica psicodélica de forte impacto físico. O kick atravessa a mixagem, o grave permanece definido e as mudanças de dinâmica separam as seções com clareza. Um lick de guitarra funk recorta a base, enquanto o solo próximo de 2 minutos e 40 segundos traz um traço de Funkadelic sem retirar a música do pulso da pista.
A interpretação vocal carrega uma introspecção mais próxima do folk do que do canto habitual da música de clube. Em algumas passagens, a voz assume a repetição de um mantra, e gritos pontuais marcam as transições. A combinação permite que Heaven On Their Minds funcione em clubes, raves, estrada ou treino, sustentada por beat, groove e contraste. Aqui, a guitarra serve como elemento rítmico, fonte de textura e ruptura dentro da produção eletrônica.
Ouvidas em sequência, as onze faixas expõem a peculiaridade atual do posicionamento em prateleira. Apresentar Gernz apenas como grunge apaga sua bateria de pop punk ou chamar Lilhouse somente de rock alternativo esconde a levada de reggae que produz a primeira quebra de expectativa. O rótulo enxuto facilita o pitch, mas pode amputar justamente o elemento que diferencia o fonograma.
Com um ouvinte habituado a circular por mais de oito gêneros, a competitividade depende da maneira como essas referências são organizadas. A junção de estilos oferece pontos de reconhecimento capazes de filtrar públicos diferentes sem transformar a música numa mistura aleatória. O gênero passa a funcionar como ponto de partida dentro do arranjo, em vez de determinar sozinho toda a identidade do artista.
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