Com curadoria de Zabelê Gomes, Luiza Girardello junta jazz, forró e Nirvana em World Ablaze
Gravado majoritariamente ao vivo em estúdio, o álbum combina experiências com o câncer a canções sobre dependência emocional e reconstrução
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
Jazz, forró, bossa nova, pop, rock, rap e uma versão de Nirvana aparecem nas faixas de World Ablaze. Em mãos menos talentosas, essa lista viraria uma bagunça. Luiza Girardello, a Voz Azul da nova MPB, organiza a diversidade com voz aveludada, arranjos imprevisíveis e uma escrita interessada nas experiências que deixam cicatrizes.
Recém-lançado, World Ablaze marca o primeiro álbum da carreira de Luiza e também o primeiro disco com a curadoria de Zabelê Gomes pela ZA Music.
Zabelê leva ao projeto a experiência construída em sua própria carreira como cantora e a formação musical recebida desde cedo em casa, como filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes, lendas da música brasileira. À frente da ZA Music, ela assina a curadoria e a direção executiva do álbum. A produção musical fica a cargo de Luiza e do baterista e arranjador João Vitor Costa Dias.
As canções foram escritas em momentos diferentes e não nasceram como parte de um álbum conceitual. O disco ganhou forma a partir de um recital de formatura em Boston, onde Luiza viveu antes de se mudar para Nova York.
As faixas registram relações marcadas por invasão emocional, o diagnóstico de câncer aos 23 anos, crises internas, deslocamento cultural, intimidade e reconstrução.
“Drunk on You”, música de trabalho que fornece o título do álbum em um dos versos, começa com piano introspectivo e pequenos arpejos. A entrada dos demais instrumentos altera a temperatura aos poucos.
Uma guitarra distorcida, suja e controlada pela mixagem ocupa uma função próxima à de um trompete, enquanto a bateria preserva a cadência do jazz.
Luiza aumenta a intensidade sem perder o timbre aveludado. Há uma espécie de Amy Winehouse e Adele nessa combinação, mas o acabamento pertence ao jazz-pop contemporâneo que ela vem construindo.
A letra sustenta a paixão como embriaguez. Mentiras são colocadas dentro do copo, personalidades são comparadas a bebidas e a perda de equilíbrio físico traduz a dependência emocional.
A personagem da canção percebe o perigo e continua presa à relação. A música recusa uma superação conveniente e termina com o conflito ainda aberto.
Em “GTFO (Homebreaking)”, a casa ocupada sem consentimento representa o espaço emocional tomado pela outra pessoa. O intruso se acomoda numa cadeira de plástico quebrada como se ocupasse um trono, imagem que concentra o sarcasmo da letra. O arranjo começa sustentado pelo contrabaixo, por detalhes de guitarra e por pequenas marcações nos pratos.
À medida que os instrumentos ganham intensidade, a personagem deixa de apenas descrever a invasão e passa a impor um limite. O “GTFO” final é o ápice desse crescimento e transforma o desabafo numa ordem direta de expulsão, a libertação emocional da personagem.

“Resilience” muda a linguagem. Luiza quase rima como uma rapper sobre uma base de jazz-pop. As terminações em “ism” encadeiam nepotismo, anacronismo, fundamentalismo, cinismo e existencialismo.
O flow dá ritmo a experiências intensas sobre formação social, perfeccionismo, câncer e crise psicológica. O refrão desacelera, ganha uma linha mais melódica e desloca o foco da enumeração para a ideia de resistência.
A ligação com o Brasil aparece com maior nitidez nas faixas “Conversa Fiada”, “Bossa do Tempo” e “Recomeçar”. A primeira é um forró arrasta-pé jazzístico com solo de piano e uma Luiza que parece ter chamado Elis Regina para resolver a noite de um bar de jazz.
A letra rejeita o papo automático. Luiza prefere citar demônios, traumas, família, câncer, calúnia e até “macumba braba” em vez de termos polidos.
“Bossa do Tempo” se apoia no violão de nylon, recebe uma leve influência de samba e abre espaço para um refrão pop. Os falsetes limpos mantêm a delicadeza que a Voz Azul constrói ao longo do álbum.
Já em “Recomeçar”, Luiza leva o fraseado da bossa nova para uma balada jazz-pop contemplativa, iniciada com piano e voz e ampliada pela entrada gradual dos demais instrumentos.
“I See You” se apoia no piano e na voz soprosa de Luiza, com um arranjo que cresce gradualmente e conduz a mensagem de acolhimento até um refrão doce e marcante. “The War to End All Wars” trabalha outra construção dinâmica, com andamento mais acelerado, bateria próxima do pop rock e cordas que aumentam a tensão.
As duas faixas mostram como Luiza utiliza a instrumentação para controlar a intensidade, preservando a clareza da voz mesmo nos momentos de maior densidade.
“Heart-Shaped Box” recebe a transformação mais radical do álbum. Luiza reconstrói o clássico do Nirvana para voz e quarteto de cordas, formado por dois violinos, viola e violoncelo.
A retirada da bateria e das guitarras distorcidas abre espaço para contornos melódicos e para a tensão emocional, elementos presentes nas obras de Kurt Cobain que foram muito bem capturados para esse tributo.
O timbre aveludado de Luiza e a ambientação de concerto conduzem a música a uma interpretação própria, distante da aspereza vocal e instrumental da versão original.

Luiza Girardello é uma excelente cantora e compositora, mas o álbum também mostra que Luiza sabe bem controlar os elementos visuais de seu trabalho. Com fotografia de Gabriel Not, ela dirigiu a capa, criou o design gráfico e executou a pós-produção de todo o projeto visual. O conceito ficou muito bem amarrado.
A dupla exposição do rosto, o cabelo azul, a camisa vermelha e o fundo quente apresentam identidades sobrepostas, coerentes com um disco escrito entre países, idiomas e referências musicais.
Mesmo sem ter sido concebido como um álbum conceitual, World Ablaze encontra unidade nas histórias de quem tenta recuperar o controle do corpo, dos afetos e das próprias escolhas. Os arranjos acompanham esses conflitos, partindo do piano e voz ao quarteto de cordas, guitarra distorcida e ritmos brasileiros.
Ao longo das faixas, Luiza mantém o timbre aveludado e melancólico; a Voz Azul, reconhecível por todo o álbum, se adapta às diferentes formações instrumentais.
Sua trajetória entre Porto Alegre, Boston e Nova York traz cores ao trabalho, perceptíveis pelo encontro da MPB com o jazz, o pop e o rock. World Ablaze registra essa combinação no primeiro álbum de uma cantora que sabe quais experiências deseja contar e como cada uma delas deve soar.
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