‘A Paixão Segundo G.H.’ está na lista da Fuvest 2027 e dialoga com obra de Franz Kafka
Clarice Lispector publicou o livro quase 50 anos depois de ‘A Metamorfose’ e nunca confirmou se realmente se inspirou em Gregor Samsa
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A lista de livros obrigatórios do vestibular da Fuvest 2027 conta apenas com escritoras mulheres. Entre as nove obras, está A Paixão Segundo G.H., publicado em 1964, e considerado por muitos críticos a grande obra de Clarice Lispector.
Em entrevista aos amigos escritores Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’anna no MIS (Museu da Imagem e do Som) do Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1976, Clarice revelou que leu as obras do escritor tcheco Franz Kafka tardiamente.
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“Kafka eu fui ler muito mais tarde, quando já tinham publicado muitos livros meus”. O livro mais famoso de Kafka, A Metamorfose, foi publicado em 1915. E mudou a maneira de como escrever no início do século XX.
Clarice não revelou se teve inspiração em Gregor Samsa, o personagem que se transforma em um inseto em A Metamorfose, para escrever o romance A Paixão Segundo G.H. Mas são inegáveis as comparações entre os dois personagens. Ambos surpreendidos por insetos que provocam uma transformação na vida dos dois.
O caixeiro-viajante Gregor Samsa acorda depois de uma noite de sonhos intranquilos e, num piscar de olhos, se dá conta de que virou um inseto monstruoso. A escultora G.H. tem uma verdadeira epifania ao se deparar com uma barata no quarto da ex-empregada, quando decide limpar o armário.
Tanto em A Metamorfose como em A Paixão, os personagens precisam de um inseto para se revelar.
G.H. devora o interior da barata, que ela mesma tinha esmagado. Entra em estado de transe. Sente nojo e fascínio. É a aceitação da vida na forma mais bruta. “De repente, quando percebi que a mulher G.H. ia ter que comer o interior da barata, eu estremeci... de susto”, disse Clarice.
Gregor Samsa, de dorso duro e inúmeras patas, acorda e de repente percebe que é um inseto. Não fica claro se o caixeiro-viajante se transforma numa barata. A única certeza é de que Gregor é um inseto repugnante. A preocupação dele é não faltar ao trabalho, já que sustenta a família. Mas, como inseto gigante e asqueroso, não pode mais pegar o trem. Nem dar duro no serviço.
Assim como o inseto monstruoso, Kafka não é sutil e faz duras críticas ao trabalho e à relação de Gregor com o chefe. O patrão vai conferir pessoalmente se o caixeiro-viajante é agora realmente um inseto, um besouro, uma barata. Seja lá o que for, Gregor não poderá mais ser útil.
Em A Paixão, a empregada Janair representa a classe trabalhadora — a mesma de Gregor Samsa. Janair e Gregor são infelizes no trabalho. A escultora G.H. só consegue ter a epifania porque a empregada Janair pede demissão.
Janair deixa o apartamento da patroa rica na cobertura; se transformar em um inseto é a única maneira de Gregor sair do trabalho. Ele não quer ser mais arrimo de família. Janair, Gregor e G.H. buscam o que, de certa forma, todos nós buscamos: a felicidade.
Kafka: a felicidade só é atingida fora da reflexão. Clarice: G.H. espera atingir a felicidade a partir da reflexão.
E Clarice garante que não estava num momento muito “feliz” quando escreveu A Paixão: “Esse livro é curioso. Eu estava na pior das situações, tanto sentimental quanto de família, tudo complicado... e escrevi A Paixão, que não tem nada a ver com isso”.
Clarice perdeu o medo. E G.H. também, ao devorar o conteúdo branco e viscoso da barata. Reconhece no inseto a “vida pura”, a vida que existe antes da forma humana. “Eu procurava uma amplidão”, divaga G.H.
E, quem diria, o inseto mais temido das mulheres é justamente o que proporciona a amplidão. “É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo...”
A escritora ucraniana publicou A Paixão quase cinquenta anos depois de A Metamorfose. Meio século de separação entre o inseto monstruoso de Kafka e a barata de G.H.
Na entrevista aos amigos Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’anna, Clarice, sempre econômica em elogios, não escondeu a admiração ao escritor tcheco: “Eu sinto uma aproximação muito grande”.
G.H. entrou naquele quarto. E saiu outra.
“Não sei o que fazer com o que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi uma outra?”
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