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Se eu fosse eu

Obra de Clarice Lispector é o multiverso: difícil de comprovar, fácil de sentir

Uma mulher de muitas camadas: não é possível ler e sair incólume

Se eu fosse eu|Renata ChiarantanoOpens in new window

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“Os séculos cairão sobre mim”. Ao escrever essa frase de Água Viva, Clarice Lispector não imaginou que se transformaria numa escritora secular. Séculos e múltiplas palavras. Corajosa, enfrentou destemidamente... ela mesma. O resultado são as obras que seguiram de 1943 a 1977. E quem torce o nariz para Clarice? Medo dos tentáculos da escritora?

São muitos. E notórios. Não é possível ler e sair incólume. O tentáculo da salvação talvez seja o mais intenso e resistente. Em A Paixão Segundo G.H., um dos livros adotados pela USP (Universidade de São Paulo) para 2027, ela escreve: “Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada.” É preciso respeito.


A Paixão Segundo G.H. já é um livro sexagenário, completa esse ano 62, em plena forma. E mais atual do que nunca. Um polvo chamado Clarice desfila tentáculos versáteis que ora salteiam a camada do enfrentamento; ora a camada da salvação.

No quarto, G.H., uma mulher rica numa cobertura, enfrenta o outro radical: uma barata. G.H. se desconstrói. Esmaga e depois prova o inseto.


Cada livro é um universo: Joana, Virgínia, Lucrécia Neves, Ana, Lóri, G.H., Ângela Praline, Macabéa Arte/Canva

Se é uma inspiração de Gregor Samsa e A Metamorfose de Kafka, não se sabe. Clarice negou. A barata de G.H. reflete uma mulher indefesa, sem saber quem realmente é.

“É difícil perder-se. Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida.”


Em Água Viva, o “Não Romance” de Clarice, os braços dos tentáculos brigam entre si. São tantas nuances. Algumas, sem sutileza mesmo. “Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca”. No mar de dúvidas e receios, o polvo chamado Clarice flutua os tentáculos com sensibilidade e inteligência.

Como água-viva, que queima, é impossível ler esse livro e não se questionar. Como polvo, sem esqueleto e muitos neurônios, é possível transitar em vários mundos. “Sei que depois de me leres é difícil reproduzir de ouvido a minha música, não é possível cantá-la sem tê-la decorado.”


A obra de Clarice é o multiverso. Difícil de comprovar. Fácil de sentir. Cada livro é um universo: Joana, Virgínia, Lucrécia Neves, Ana, Lóri, G.H., Ângela Praline, Macabéa.

“Por que não abordo um tema que facilmente poderia descobrir?”. Um polvo chamado Clarice pergunta em Água Viva. Qual tentáculo responde?

Acesse o Instagram: @seeufosseeu

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