Estigma e preconceito engordam; entenda a relação deles com o seu peso
Estresse causado pela discriminação pode alterar o cortisol e dificultar o tratamento da obesidade
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O estigma em relação ao peso não é apenas um problema social ou psicológico. Ele também pode afetar diretamente o funcionamento do corpo.
Segundo a nutricionista, ativista e paciente bariátrica Glenda Cardoso, viver sob julgamento constante por causa do corpo pode gerar um estado de estresse crônico que altera o metabolismo e dificulta o tratamento da obesidade.
“Quando uma pessoa vive constantemente sob vergonha ou discriminação por causa do corpo, o organismo entra em um estado de alerta permanente”, explica.
Esse estresse aumenta a liberação de hormônios como o cortisol, que podem alterar o metabolismo, aumentar o apetite e favorecer o acúmulo de gordura — especialmente na região abdominal.
Assim se cria um ciclo difícil de quebrar: o estigma gera estresse, o estresse altera o metabolismo, a obesidade tende a piorar e isso gera ainda mais estigma.

Conheci Glenda durante o evento Obesidade em Pauta e foi ouvindo-a explicar esse ciclo que muitas coisas passaram a fazer sentido. A ideia de que o preconceito pode impactar diretamente o metabolismo ajuda a entender por que o caminho do tratamento é muito mais complexo do que simplesmente “ter força de vontade”.
A própria trajetória de Glenda ilustra como o preconceito pode atravessar todas as áreas da vida. Antes da cirurgia bariátrica, ela viveu por anos com obesidade grave e enfrentou diversas situações de discriminação.
“Eu tinha dificuldade de acesso a coisas básicas da vida. Muitas vezes o julgamento vinha antes da escuta.”
Ela conta que já teve o conhecimento profissional questionado por causa do peso e viveu episódios humilhantes, como pessoas retirando comida de seu prato ou oportunidades de trabalho negadas por causa do IMC.
“Nos tornamos PhD em identificar olhares, porque recebemos muitos.”
Depois da cirurgia bariátrica e da perda de mais de 100 quilos, Glenda percebeu algo que muitos pacientes relatam: o tratamento das pessoas mudou.

Segundo ela, essa mudança revela o quanto o preconceito contra o peso ainda está naturalizado.
“Antes eu era vista como alguém que precisava ter mais disciplina. Hoje percebo claramente como o tratamento mudou.”
Na prática clínica, Glenda observa que o julgamento moral associado à obesidade é um dos maiores obstáculos para o tratamento. Quando a pessoa acredita que sua condição é apenas falta de força de vontade, ela tende a internalizar a culpa.
Isso gera vergonha, medo de julgamento e muitas vezes leva a tentativas solitárias de emagrecimento, com dietas restritivas e sem acompanhamento adequado.
O resultado costuma ser o conhecido ciclo de perda e reganho de peso, que reforça a sensação de fracasso.
“Quando entendemos a obesidade como uma doença crônica, influenciada por fatores genéticos, hormonais, ambientais e comportamentais, o tratamento se torna mais humano e mais efetivo”, afirma.
O preconceito também pode afastar pessoas dos serviços de saúde. Glenda relata que muitos pacientes evitam consultas médicas por medo de julgamento ou por experiências negativas anteriores — algo que ela própria viveu.

“Em uma consulta, uma endocrinologista me perguntou se eu não tinha vergonha na cara e disse que eu tinha dez anos de vida. Na época eu tinha 28 anos.”
Quando o atendimento é evitado, diagnósticos e tratamentos importantes acabam sendo adiados, o que pode agravar doenças associadas à obesidade, como diabetes, hipertensão e problemas articulares.
Para Glenda, existe hoje um receio crescente de falar sobre obesidade por medo de parecer preconceituoso. Mas ela defende que o caminho é justamente o oposto.
“O problema não é falar sobre obesidade. O problema é culpabilizar as pessoas por uma condição que envolve múltiplos fatores biológicos e ambientais.”
Reconhecer a obesidade como uma doença crônica, segundo ela, é uma forma de combater o estigma e ampliar o acesso a tratamentos baseados em evidência.
Glenda também é presidente da Associação Brasileira de Pessoas com Obesidade, entidade que atua na defesa de políticas públicas, no combate ao estigma e na disseminação de informação baseada em ciência. A organização também busca criar espaços de acolhimento e troca de experiências entre pacientes.
“O tratamento da obesidade muitas vezes parece solitário. Mas, quando compartilhamos experiências, transformamos essa jornada em uma rede de apoio.”
No fim das contas, histórias como a de Glenda ajudam a lembrar algo essencial: por trás dos números da balança existem pessoas, histórias e batalhas invisíveis. Falar sobre obesidade com ciência, empatia e respeito não é apenas uma forma de informar — é também uma maneira de abrir caminhos para que mais pessoas se sintam acolhidas e busquem cuidado.
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