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Obesidade na gestação: quando a gordofobia se torna mais um risco à saúde

Preconceito no pré-natal e seus impactos na saúde da mãe e do bebê

Obesidade sem Tabu|Mariana VerdelhoOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Mulheres grávidas enfrentam preconceito e julgamento em consultas de pré-natal devido à obesidade.
  • A abordagem dos profissionais de saúde pode aumentar a ansiedade e o risco de complicações, devido à falta de empatia e respeito.
  • É fundamental que o cuidado pré-natal seja guiado por evidências, respeito e uma comunicação adequada, sem culpabilizações.
  • Acolhimento e atenção à saúde mental são essenciais para garantir uma gestações saudável e respeitosa, independentemente do peso da paciente.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Obesidade exige cuidado, nunca julgamento. Pré-natal é para acolher, não punir Inteligência artificial/ChatGPT

Eu não esperava sair de uma consulta de pré-natal com medo. Mas saí.

Meu filho está prestes a completar cinco anos, mas eu não esqueço algumas situações que vivi durante a minha gravidez — e que, infelizmente, muitas mulheres vão reconhecer.


A minha então ginecologista estranhou o fato de minha pressão estar normal — como se isso fosse improvável no corpo de uma mulher obesa, com 104 kg — e chegou a dizer que ela iria subir, afinal, esse seria o “preço” de engravidar obesa.

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Em outro momento, a mesma médica teve dificuldade para ouvir o coração do meu bebê por conta da minha gordura abdominal e afirmou, sem qualquer cuidado, que ele poderia ter morrido.


O impacto disso foi real: desenvolvi a chamada síndrome do jaleco branco, quando a pressão arterial sobe apenas pelo estresse de estar em um ambiente médico.

Quando compartilhei esse relato no podcast PodBari, percebi que a minha história está longe de ser isolada. Pelo contrário: ela ecoa na vivência de muitas mulheres que também já se sentiram julgadas, desrespeitadas ou até assustadas dentro de um consultório.


Segundo a obstetra Fernanda Imperial, consensos recentes reforçam que o pré-natal deve ser individualizado e centrado na pessoa, e não baseado em rótulos. ARQUIVO PESSOAL

Para aprofundar essa conversa, falei com a obstetra Fernanda Imperial — e o que ela trouxe ajuda a explicar por que isso ainda é tão comum.

Segundo ela, “ainda existe muito viés de peso dentro da saúde. Mesmo sabendo que obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, parte dos profissionais ainda interpreta o peso como falha individual, falta de esforço ou descuido, como se emagrecer fosse um simples ato de força de vontade”.


E esse olhar, além de simplista, é prejudicial: “pedir para a paciente emagrecer não é estar ao lado dela. Isso pode causar mais ansiedade e, muitas vezes, até levar ao ganho de peso”. O resultado? “Afasta pacientes, reduz adesão, aumenta sofrimento e piora a experiência do pré-natal.”

Isso é ainda mais grave quando falamos de gestação, um momento que já é naturalmente atravessado por expectativas e vulnerabilidades. Sim, existem riscos aumentados em uma gestação com obesidade, como diabetes gestacional, síndromes hipertensivas, pré-eclâmpsia e maior chance de cesariana.

Mas o problema está na forma como isso é comunicado. Como explica a médica, “o exagero começa quando se transmite a ideia de que toda gestação com obesidade será de alto risco grave ou terá um desfecho ruim”.

E ela resume de forma muito clara: “obesidade aumenta risco, mas não determina destino”. Por isso, o papel da medicina deveria ser outro: “risco é para orientar e prevenir, não para produzir medo”.

Na prática, o pré-natal de uma mulher com obesidade tem a mesma base de qualquer outro: acompanhamento regular, exames, orientação e cuidado contínuo. O que pode mudar é a necessidade de uma vigilância mais próxima em alguns casos e decisões mais individualizadas.

“Alguns riscos exigem vigilância adicional e decisões mais personalizadas”, explica Fernanda. Mas isso nunca deveria vir acompanhado de julgamento — porque mais cuidado não pode significar mais pressão emocional.

E esse ponto é essencial. A síndrome do jaleco branco, que eu desenvolvi, não é incomum — inclusive na gestação — e revela o quanto o ambiente médico impacta diretamente o corpo.

“Quando a paciente chega tensa, se sentindo julgada, exposta ou culpada, isso interfere em parâmetros clínicos”, diz a obstetra.

Não é só emocional: “a ansiedade pode alterar a pressão arterial e até a frequência cardíaca do bebê”. Por isso, algo que parece simples ganha outro peso: “escuta, privacidade e linguagem respeitosa não são detalhes — são parte do cuidado físico e mental”.

Existe, sim, uma linha clara entre uma orientação adequada e uma abordagem que machuca — e entender essa diferença é fundamental. “Ela está em três pilares: evidência, proporcionalidade e respeito”, explica a médica.

Uma orientação adequada deixa claro qual é o risco, qual a magnitude provável desse risco, o que pode ser feito para reduzir danos e como a decisão será tomada junto com a paciente. “Ela informa, não ameaça. Ela orienta, não humilha.”

Por outro lado, quando a abordagem usa medo, culpa, coerção, exposição, frases humilhantes ou decisões impostas sem diálogo, ela deixa de ser cuidado. “O consentimento informado e a decisão compartilhada são uma obrigação ética, não um favor”, reforça — lembrando que exceções existem apenas em cenários de risco real de morte materno-fetal, que são minoria.

Quando o assunto é peso, esse cuidado na abordagem se torna ainda mais importante. Existe, sim, uma forma correta de falar sobre isso — e ela começa com respeito.

“O ideal é pedir permissão para conversar sobre o tema, porque nem todas as pacientes se sentem à vontade”, orienta Fernanda. E ela traz também a própria experiência para esse lugar de empatia: “eu gosto de compartilhar que fui uma gestante obesa e tive diabetes gestacional na primeira gravidez. Isso nos coloca juntas no percurso”.

Porque existe algo que precisa ser dito com honestidade: “não é confortável se pesar, não é confortável quando, mesmo sem exageros, a gente ganha peso durante a gravidez”.

Por isso, o peso precisa ser tratado como um dado clínico — e não como um julgamento moral. “O foco precisa sair do ‘você errou’ e ir para ‘como podemos reduzir risco daqui para frente?’”. E esse “daqui para frente” envolve olhar para o todo: histórico, rotina, saúde mental, acesso ao cuidado.

Infelizmente, ainda são comuns frases como “você deveria ter emagrecido antes de engravidar”. E, além de não ajudarem em nada, elas ferem. “É uma fala culpabilizadora, retrospectiva e pouco útil”, afirma Fernanda. Porque não muda o presente — só aumenta o sofrimento. E isso precisa ser dito com todas as letras: informação correta não precisa ferir.

No fim, acolher não é ignorar riscos. “Acolher é cuidar com seriedade, mas sem culpabilizar”, resume. É fazer um pré-natal técnico, baseado em evidências, mas também humano. “É enxergar a paciente inteira, não apenas o IMC.” E, principalmente, entender que “envolver a paciente nas decisões não é um favor — é uma obrigação ética”.

Se você tem obesidade e sonha em engravidar — ou já está grávida —, mas carrega medo, vergonha ou experiências ruins, eu queria te dizer: você não está sozinha.

E você merece um cuidado melhor. Como reforça a obstetra, “obesidade exige atenção, sim, mas não tira de ninguém o direito de ser bem cuidada, respeitada e informada com honestidade”. Porque, no fim, é isso que o pré-natal deveria ser: um espaço de cuidado, não de punição.

E, se for necessário, mude de profissional até se sentir acolhida e tratada como você merece. Eu fiz isso: com 10 semanas, troquei de médica. Tive uma gestação tranquila, sem intercorrências, consegui controlar o peso e meu filho, Joaquim, nasceu de parto cesárea — não agendado — com 40 semanas. Foi lindo. Do jeito que todos deveriam ser.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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