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Papo de Paciente

O que a doença nos obriga a enxergar?

Por que “A Morte de Ivan Ilitch” impacta quem já esteve diante do limite entre viver e morrer

Papo de Paciente|Marcela VarasquimOpens in new window

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Como a obra de Tolstói nos convida a valorizar o que realmente importa Divulgação/Arquivo pessoal

Sinto que tive mais sorte que Ivan Ilitch. E conheço outras pacientes que tiveram muito mais sorte que Ivan Ilitch, e talvez por isso sejam mais felizes e mais alinhadas ao que realmente importa na vida.

Nenhuma leitura me pegou tanto nos últimos anos como A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói.


Nem os livros que prometiam amenizar a ansiedade, ensinar a ser mais produtiva, viver mais com menos. Nenhum livro feito para curar realmente me curou.

Mas Ivan Ilitch ressoou com algo mais profundo para um paciente oncológico. Ressoou com o limite entre a vida e a morte, algo que muitos de nós já conhecemos.


Ivan Ilitch é um funcionário público que fez da própria vida tudo o que parecia correto e brilhante aos olhos da sociedade. Mas, de repente, adoece. E é na doença que se percebe que a vida perfeita era uma farsa.

Os médicos de Ilitch me lembraram uma oncologista que tive, que carimbava e assinava receitas muito bem, mas nunca lembrava meu nome. Alguns amigos de Ivan Ilitch me lembraram pessoas que disseram que iriam me visitar, mas nunca fizeram questão de abandonar cinco minutos de suas vidas para olhar nos meus olhos.


Ainda assim, tive muito mais sorte que Ivan Ilitch. Tive família que vai além do sangue. Tive a ciência, que me trouxe mais respostas e remédios duros, mas eficazes.

E, mais do que isso, eu e outros pacientes oncológicos tivemos mais sorte porque sobrevivemos ao caos. E tivemos a oportunidade de, com novos olhos, valorizar o que realmente importa dentro de nós. Sair da própria dor e ter compaixão pelas limitações (nossas e dos outros). Despertar e continuar vivos.


É uma leitura que recomendo para pacientes e para não pacientes. Acredito, inclusive, que a vida de aparências cada vez mais expostas nos convoca a correr para longe delas.

E é nesse caminho que identificamos o quanto podemos ser insignificantes para quem segura diante de si um espelho maior que o coração. Mas tão essenciais para nós mesmos.

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