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Papo de Paciente
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O dia em que parei de economizar vida

Sempre fui apaixonada por canetas coloridas, talvez como toda menina que ama diários e cultiva sonhos

Papo de Paciente|Marcela VarasquimOpens in new window

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Quando o velho impulso de economizar as canetas coloridas reaparece, eu escrevo mais Imagem gerada por IA via Gemini

Quando criança, ganhei um presente inesquecível: duas canetas “gel”, recém-lançadas na época. Tinham brilho, até perfume, e cores inconfundíveis: uma dourada, a outra prata.

Nas páginas das minhas agendas, eram elas que desenhavam as palavras principais, no topo das folhas. Eu queria que servissem ao texto inteiro. Mas me continha.

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Tinha dó de usar aquelas canetas. Sonhava que suas tintas fossem infinitas. Como não eram, economizava.

Sempre que as pegava para escrever, me perguntava: essa palavra é importante o suficiente para estar em dourado ou prata? Muitas vezes, não era.

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E a caneta voltava para o estojo.

Os anos passaram. Tornei-me jornalista, habituada a escrever reportagens em tinta azul.

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E as canetas coloridas da infância provavelmente terminaram cheias de tinta, esquecidas, ressecadas, quebradas em algum lixo por aí.

O câncer me ensinou que a vida tem fim, e essa foi a escola mais transformadora que frequentei. Parece bobo, mas a doença me fez lembrar das canetas. E do senso de urgência em usar suas tintas coloridas!

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Adulta, voltei à papelaria com a mesma empolgação daquela menina. Agora, as opções eram infinitas. Comprei novamente canetas gel coloridas: roxa, rosa, dourada…

E comecei a escrever com elas, textos inteiros.

Quando o velho impulso de economizar reaparece, eu escrevo mais.

Reaprender o cérebro a um novo padrão não é simples. Mas eu mando nele sempre que ele tenta me convencer a guardar para depois.

Hoje, acendo as velas cheirosas da casa todos os dias. A que ganhei de uma amiga no fim do ano, já está prestes a acabar. A essência se vai, como o fluxo da vida, que precisa morrer para nascer de novo.

Toda vez que saio de casa, borrifo quatro vezes no pescoço e no pulso, um perfume importado que ganhei de aniversário de um bom amigo e já está na metade! Passo porções generosas de creme no corpo, uso a roupa bonita que comprei diversas vezes, sem medo de gastá-la demais.

Não significa ser imprudente. Ainda deixo um pouco para amanhã.

Viver intensamente não é desperdiçar, é saber colocar cada coisa em um determinado prato, e equilibrá-los com a beleza da coragem, não com o impulso da ousadia.

Afinal, a gente nunca sabe quanto tempo tem. Mas sabe que tem agora!

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