Três anos e meio de remissão do câncer: um livro que chegou pra mim na hora certa
Esse foi o tempo que demorei para ler “Enquanto eu respirar”, da Ana Michelle Soares
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Não sei por que, mesmo sendo paciente oncológica desde 2021, nunca havia lido esse livro. Decidi que era a hora, sabe-se lá por qual motivo. Comprei no Kindle e, três dias atrás, sentei na minha poltrona preferida para ler.
É a história de Ana Michelle Soares, uma jovem jornalista que, aos 28 anos, descobre um câncer de mama, do mesmo subtipo que eu tive. Após três anos e meio de remissão, quando a rotina louca e perturbadora de hospital já ficava cada vez mais no passado, o câncer voltou em outro órgão. Já sem possibilidade de “cura”.
Três anos e meio. Esse é exatamente o período em que estou em remissão. Apaguei o Kindle e pensei em desistir. Eu não era obrigada a ler aquilo. Seriam 24 reais jogados fora, mas valeriam minha paz. Já tenho minha vida novamente nas mãos. Quase não penso mais em doença. Faço vários planos que não permitem a possibilidade de estar doente. Ler a história da Ana Michelle seria lembrar que esse papo de “ter a vida nas mãos” é a maior mentira. Creio que se passaram dois minutos, no máximo. Liguei o Kindle novamente. Eu consigo.
Poucas páginas depois, perdi o medo e ganhei uma amiga. Ganhei o conhecimento sobre uma história linda de amizade entre ela e Renata, outra paciente paliativa, com exames mostrando diversas progressões do câncer. Me peguei rindo do humor ácido, das pequenas loucuras, de tanta vida que sentiam na simplicidade de ter o vento batendo no rosto.
Entre exames comprometedores e tratamentos constantes, Ana Michelle aproveitava cada dia em que estava bem para realizar um sonho. Mas nunca foram sonhos egoístas. Eles sempre incluíam sua amiga. Muito mais profundo do que as viagens e passeios que faziam era o olhar doce para o passado, para a cura dos traumas, dos dissabores… o perdão e o amor que só o entendimento da finitude da vida traz.
Entendi que o grande sonho de Ana Michelle era, na verdade, realizar todos os sonhos da amiga, até seu último respiro. Como é bonita e brilhante a vida de quem se dedica ao outro, de quem enxerga o outro. Ao realizar os desejos da amiga, que vivia seus últimos dias, Ana Michelle encontrou a própria felicidade.
Falar sobre a morte é tão necessário, bonito e pacífico. Afinal, negar a morte é negar a própria vida, já que uma depende da outra. Depois de rir das aventuras das amigas Brasil afora, chorei de soluçar com a separação provocada pela morte precoce de Renata. Em 2023, aos 40 anos, foi a vez de Ana Michelle. Não tenho dúvidas de que, como elas também acreditavam, estão vivendo juntas por aí, dançando com o vento.
Terminado o livro, entendi por que eu o li só agora. Porque eu precisava. Confesso que sentia minha bateria baixa nos últimos tempos. Cansaço em demasia, um pouco provocado pela menopausa induzida, outro pouco por desânimo mesmo. Preferia ficar em casa e rejeitava qualquer convite para sentir o vento no rosto. Embora eu ame minha casa, sair do eixo trabalho-casa e experimentar as infinitas paisagens da vida é crucial para não ter uma morte metafórica.
Rapidamente entrei no Google e comprei ingresso para um show. Reservei um fim de semana na natureza. E ainda estou tentando encaixar outras programações para aproveitar este mês, que é o do meu aniversário. Saudade de sentir mais aromas, nadar em outras águas, ver as milhares de cenas reais do mundo, que jamais se assemelham às das telas.
Pois, como diria Ana Michelle: eu não tenho medo de morrer. Tenho medo é de não viver.
Obrigada por tanto.
Leiam.
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