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Musical ‘tick, tick… BOOM!’ mostra por que a crise dos 30 continua tão atual

Obra de Jonathan Larson transforma ansiedade, sonhos e medo de fracassar em uma reflexão sobre o tempo

R7 Teatro|Do R7

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'tick, tick… BOOM!' está em cartaz no Teatro Viradalata Divulgação/Paulo Aragon

Prestes a completar 30 anos, um artista tenta lidar com os próprios sonhos enquanto o relógio parece correr cada vez mais rápido. Essa é a história de tick, tick... BOOM!, musical criado por Jonathan Larson em 1990 e que está em cartaz no Teatro Viradalata até o próximo domingo (19).

Mais de três décadas após sua criação, a obra continua fazendo uma pergunta capaz de atravessar gerações: o que devemos fazer com o tempo que temos?


A resposta não é simples — e talvez Jonathan Larson nem estivesse interessado em encontrá-la. O mérito de tick, tick... BOOM! está justamente em transformar essa inquietação em uma história capaz de atravessar gerações sem perder a relevância.

A montagem é protagonizada por Matheus Boa como Jon, enquanto Camille Dutra e Diego Montez assumem todos os demais personagens que cruzam o caminho do protagonista. A escolha funciona muito bem e reforça o caráter intimista da obra, além de evidenciar a versatilidade da dupla, que transita entre figuras completamente diferentes sem perder clareza ou ritmo.


Matheus Boa constrói um Jon humano e convincente. O personagem pode soar excessivamente ansioso ou até egoísta em alguns momentos, mas quem já perseguiu um sonho com intensidade suficiente para transformá-lo em obsessão reconhece rapidamente seus conflitos. O ator consegue transmitir essa inquietação constante e mostrar a evolução emocional do compositor ao longo da narrativa.

Já Diego Montez é um excelente contraponto ao protagonista. Carismático e divertido, o ator rouba diversas cenas ao interpretar Michael e outros personagens, imprimindo humor e leveza a uma história marcada pela tensão do relógio correndo.


Entre os três atores, Camille Dutra é quem mais se destaca na montagem. Sua Susan é delicada, emocionante e cheia de personalidade. A atriz impressiona tanto nos números musicais quanto nos momentos dramáticos, além de demonstrar um timing cômico preciso.

Outro elemento que merece destaque é o desenho de luz. O trabalho contribui para ampliar a sensação de urgência que permeia toda a obra, fazendo com que o público compartilhe a ansiedade de Jon e sinta o peso da passagem do tempo. Somada à banda ao vivo, que executa com energia as composições de Larson, a iluminação ajuda a criar uma atmosfera envolvente e emocionalmente potente.


Se há uma ressalva, ela está nos primeiros minutos da apresentação, que demoram um pouco para encontrar a energia que o restante da montagem alcança. Mas é uma impressão passageira. À medida que a história avança e os conflitos de Jon ganham profundidade, o espetáculo cresce de forma consistente e envolve cada vez mais o público.

Concebido originalmente como um espetáculo solo, tick, tick... BOOM! foi reformulado para uma versão com três atores em 2001 e, duas décadas depois, ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Lin-Manuel Miranda, indicada ao Oscar. A longevidade da obra não é por acaso.

O mais curioso é que, embora tenha sido escrito há décadas, tick, tick... BOOM! parece falar diretamente com os dias atuais. Vivemos em uma sociedade hiperconectada, em que as comparações são constantes, o sucesso parece ter prazo de validade e a sensação de estar ficando para trás acompanha muita gente diariamente. A pressão que Jon sente aos 30 anos continua familiar para uma geração que mede conquistas em tempo real pelas redes sociais.

Talvez seja por isso que o musical permaneça tão relevante. Em uma época em que o “tick, tick” da ansiedade parece estar sempre presente, apenas esperando o inevitável “boom”, Jonathan Larson nos lembra que a vida não acontece apenas quando atingimos nossas metas. E que talvez não seja necessário ter todas as respostas antes dos 30 anos — ou dos 40, dos 50 ou de qualquer outra idade.

No fim das contas, tick, tick... BOOM! não fala apenas sobre o medo de o tempo acabar. Fala sobre a coragem de continuar criando, sonhando e vivendo enquanto ele passa.

Serviço:

  • Temporada: Até 19 de julho
  • Sessões: Quinta e Sexta às 20h | Sábado e Domingo às 16h e 20h
  • Local: Teatro Viradalata
  • Endereço: Rua Apinajés, 1387 - Sumaré, São Paulo, SP - CEP: 01258-001
  • Classificação etária: 16 anos
  • Duração: 100 minutos

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