‘Vindos de Longe’: peça conta como cidade de 9.000 habitantes acolheu 7.000 estranhos
Baseado em uma história real, musical emociona ao retratar a solidariedade que surgiu após os atentados de 11 de Setembro
R7 Teatro|Maria Cunha
E se amanhã a população da sua cidade dobrasse? Foi exatamente isso que aconteceu em Gander, uma pequena cidade canadense com cerca de 9 mil habitantes que, após os atentados de 11 de Setembro, recebeu aproximadamente 7 mil passageiros de voos desviados dos Estados Unidos.
A história parece improvável demais para ser verdade — e talvez seja justamente por isso que vê-la ganhar vida nos palcos em Vindos de Longe seja tão envolvente.
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Em cartaz no Teatro Ruth Escobar, a versão brasileira de Come From Away, sucesso da Broadway, transforma um dos capítulos mais traumáticos da história recente em uma reflexão sobre solidariedade, empatia e acolhimento.
A produção da VME (Vinicius Munhoz Entretenimento) também marca a reabertura do tradicional espaço cultural paulistano, fechado desde 2023.
A trama acompanha a mobilização dos moradores da cidade para receber milhares de desconhecidos que desembarcaram sem saber quando poderiam voltar para casa.
Sob direção de Rafael Gomes, direção musical de Gui Leal e versão de Mariana Elisabetsky, a montagem encontra força na simplicidade. Em vez de apostar em grandes efeitos, confia no talento do elenco e na potência da história.
É o tipo de espetáculo que lembra a essência do teatro: 16 pessoas reunidas em um palco para contar uma boa história.
Os atores, inclusive, assumem múltiplos personagens ao longo da narrativa e impressionam pela versatilidade durante as transformações. Em poucos segundos, um passageiro dá lugar a um morador de Gander, e a troca acontece de forma tão natural que rapidamente esquecemos que estamos vendo os mesmos intérpretes.
Entre os destaques está Thaís Piza, que rouba a cena com sua presença e voz marcantes. Seja como Beverley Bass, a primeira mulher a comandar um avião comercial da American Airlines, ou em outros papéis, a atriz demonstra uma admirável capacidade de construir personagens distintos.
Saulo Vasconcelos conquista o público com o carisma do prefeito Claude Elliott, enquanto Luiza Porto encanta como a jovem repórter Janice, transmitindo o entusiasmo de quem se vê diante de uma cobertura histórica. Já Neusa Romano e Andrea Marquee emocionam na construção da amizade entre Beulah e Hannah.
Outro nome que merece destaque é Davi Novaes. Ao interpretar Ali, um passageiro muçulmano que passa a enfrentar olhares de desconfiança após os atentados, o ator protagoniza alguns dos momentos mais comoventes da peça.
Nesse sentido, o musical acerta ao mostrar que, diante da crise, cada pessoa reage de maneira diferente e que o medo também pode revelar preconceitos.
A música é outro ponto forte. Vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Teatro Musical e com mais de 1.600 apresentações na Broadway, Vindos de Longe mantém sua força graças à direção musical de Gui Leal.
As canções ajudam a impulsionar a narrativa e ganham personalidade com as influências irlandesas e escocesas que atravessam toda a trilha.
Embora a narrativa apresente alguns momentos de repetição, especialmente na parte central, o espetáculo nunca se torna cansativo. Com cerca de 100 minutos e sem intervalo, mantém o público envolvido e faz com que uma história pouco conhecida pareça impossível de esquecer.
Talvez esse seja seu maior mérito. Ao final da sessão, surge a vontade de pesquisar mais sobre aquelas pessoas e descobrir o que aconteceu depois.
Seria fácil fazer uma peça triste sobre um dos dias mais sombrios da história contemporânea. Mas a montagem escolhe outro caminho. Em vez de destacar apenas a tragédia, prefere iluminar os gestos de humanidade que surgiram em meio ao caos.
E é justamente por isso que o público sai do teatro com o coração aquecido. No fim das contas, Vindos de Longe nos lembra que aqueles que podem precisar da nossa ajuda estão, muitas vezes, muito mais perto do que imaginamos.
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