Muito além da coroa: musical sobre a princesa Diana diverte sem apagar tragédia histórica
Entre figurinos marcantes e conflitos da Família Real, espetáculo humaniza uma figura que atravessou gerações
R7 Teatro|Maria Cunha

Contar a história de Diana Spencer em 2026 parece uma tarefa ingrata. Poucas figuras públicas foram tão retratadas, analisadas e reinterpretadas nas últimas décadas. Entre séries como The Crown, filmes como Spencer, entrevistas históricas e biografias, a Princesa de Gales se tornou uma personagem tão conhecida quanto a própria mulher que existiu por trás do título.
Por isso, o maior desafio de Diana – A Princesa do Povo, em cartaz no Teatro Liberdade, em São Paulo, não é explicar quem foi Diana. O público já chega ao local sabendo do casamento com Charles, da relação conturbada com a Família Real, da perseguição da imprensa e do desfecho trágico que transformou a princesa em um dos maiores ícones populares do século 20. A pergunta é outra: como emocionar uma plateia que já conhece o final da história?
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A resposta encontrada pelo musical dirigido por Tadeu Aguiar passa longe de grandes revelações. A montagem encontra força ao apresentar não apenas o mito da Princesa de Gales, mas também a mulher por trás da coroa. Ao fazer isso, lança luz sobre aspectos menos conhecidos de sua trajetória e reforça a dimensão humana de uma figura frequentemente transformada em símbolo.
Nesse sentido, a montagem acerta ao compreender que essa história também possui um aspecto quase novelesco. Afinal, poucos episódios da vida real reuniram tantos elementos dramáticos quanto o casamento de Charles e Diana.
O musical abraça esse caráter estereotipado sem constrangimento e, em alguns momentos, transforma os conflitos mais conhecidos da Família Real em uma divertida “farofa” teatral. O embate entre Lady Di e Camilla Parker Bowles é um dos exemplos mais bem-sucedidos dessa escolha.
Outro mérito da peça está na forma como a produção recria o universo da Família Real britânica. A cenografia assinada por Natália Lana transporta o público para ambientes marcados pela formalidade, pelos protocolos e pelas aparências que cercaram a vida da princesa, incluindo uma bela reprodução da igreja onde Charles e Diana se casaram.
Esse cuidado visual se estende aos figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal, que enfrentam um desafio ainda maior: reproduzir imagens gravadas no imaginário coletivo. A réplica do vestido de casamento e de outras peças icônicas usadas pela princesa correspondem à expectativa. Já os figurinos destinados à imprensa encontram soluções criativas para representar a presença constante dos fotógrafos e jornalistas, quase personagens da própria narrativa.
Musicalmente, a produção apresenta alguns altos e baixos. Nem todas as canções possuem a mesma força dramática, mas as melhores compensam qualquer irregularidade. Quando funcionam, ajudam a aprofundar conflitos, desenvolvem os personagens e permanecem na cabeça do público muito depois do fim da sessão.
No elenco, Sara Sarres protagoniza um retorno marcante aos palcos brasileiros. Sua Diana evita caricaturas e reproduções mecânicas dos gestos da princesa. A atriz encontra uma interpretação própria, sustentada principalmente pelo carisma — uma qualidade indispensável para viver alguém que conquistou milhões de admiradores ao redor do mundo.
Ao seu redor, o elenco ajuda a sustentar os conflitos centrais da narrativa. Marianna Alexandre rouba a cena como Sarah Spencer, mesmo aparecendo menos do que outros personagens centrais. Cláudio Castro constrói um Charles capaz de despertar indignação na plateia sem transformá-lo em uma figura unidimensional. Ao seu lado, Giselle Prattes assume o papel de Camilla Parker Bowles sem receio de explorar o lado mais antipático da personagem.
Simone Centurione, por sua vez, oferece uma das interpretações mais interessantes da montagem como Rainha Elizabeth II. Diferentemente de outras representações da monarca, sua versão encontra espaço para nuances e contradições.
Se existe uma fragilidade na narrativa, ela está em algumas passagens excessivamente rápidas. A necessidade de condensar décadas de acontecimentos em pouco mais de duas horas é compreensível, mas certas transições poderiam respirar um pouco mais. A passagem do nascimento de William para o de Harry, por exemplo, acontece de forma tão acelerada que reduz o peso emocional daquele período.
Talvez por isso um dos momentos mais emocionantes da noite aconteça justamente quando o espetáculo desacelera. Em uma cena marcada pela exibição de fotografias de Diana refletidas em um espelho, a montagem abandona os grandes acontecimentos históricos para lembrar aquilo que realmente manteve viva a imagem da princesa: a conexão que ela estabeleceu com milhões de pessoas ao redor do mundo.
É uma sequência que desperta nostalgia até mesmo em quem não acompanhou sua trajetória de perto.
Diana – A Princesa do Povo talvez não revele nada que o público já não saiba sobre a Princesa de Gales. Seu mérito está em algo mais difícil: fazer com que uma história amplamente conhecida pareça viva outra vez. E lembrar que, por trás do mito que continua fascinando o mundo, existia uma mulher que ainda desperta empatia, admiração e curiosidade.
Serviço
Diana – A Princesa do Povo
- 5 de junho a 5 de julho
- Sexta às 20h, sábado às 16h e às 20h30, Domingo às 15h e 19h30
- Teatro Liberdade - R. São Joaquim, 129 (São Paulo - SP)
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