Clarice cancelada?

No tempo do cancelamento, acho que a gente nem tinha nascido 

Clarice Lispector

Clarice Lispector

Carmen Farão/Renata Chiarantano

A cultura do cancelamento é recente. Pop. A pessoa é « cancelada » quando faz, supostamente, algo que desagrada muito. Uma gafe, um mau comportamento. Um certo exagero de quem observa a multidão, esperando o deslize. E me diz, como seria Clarice Lispector nos dias de hoje? Seria cancelada?

Clarice cancelada?

Clarice cancelada?

Carmen Farão/Renata Chiarantano

Clarice nasceu em 1920 e morreu em 1977. Enfrentou a esquizofrenia do filho mais velho, Pedro. Enfrentou mudanças de países seguidas. Enfrentou a solidão. E a ditadura militar. Levava uma vida de sonhos, de conquistas e de palavras fortes. Não gostava muito de aparecer, era seca e assertiva. Tomava dezenas de tranquilizantes por dia. Bebia refrigerante. Não fazia exercício. Adorava pão com mortadela. Fumava horrores.  E isso quase custou a própria vida. Em 1966, dormiu com cigarro aceso. O apartamento pegou fogo e ela ficou dois meses internada. Não era adepta de muitas festas e encontros. O próprio Chico Buarque revelou que ela o deixou no vácuo. Marcou jantar na casa dela e sumiu. Fugia de jornalistas. Se fosse interpelada, respondia muitas vezes as perguntas com perguntas. Ficou pra história a entrevista ao jornalista Júlio Lerner, na Tv Cultura, em 1977, a última que deu. “Desculpe, não vou responder”.

Trecho da entrevista dada ao jornalista Júlio Lerner, na Tv Cultura, em 1977

Trecho da entrevista dada ao jornalista Júlio Lerner, na Tv Cultura, em 1977

Carmen Farão/Renata Chiarantano

Educada e firme. “Eu não estou triste, só estou cansada”. O que a fazia mesmo relaxar era o cachorro vira-latas Ulisses. Que também fumava, comia flores, bebia uísque (só gostava dos de qualidade) e cerveja. Vida e autenticidade que a escritora admirava. “Tenho inveja de você, Ulisses, porque você só fica sendo”. Ulisses também seria cancelado?
Há quem diga que a cultura do cancelamento é para quem tem o botão do julgamento na cabeceira. As redes sociais têm o papel que os livros também têm? De obrigar a autorreflexão. Fez aqui, paga aqui. Tirou selfie no velório? Cancelada. Xingou as minorias no reality? Cancelado. Traiu a queridinha do Brasil? Cancelado. O cancelamento traz o que a gente acha que pode ser. Juízes de plantão, apontando o dedo para o bem e para o mal. Se Clarice estivesse viva, teria lá seus 103 anos. Imagine essa escritora de personalidade, de palavras secas e profundas, de amor e fervor, de intensidade à flor da pele, no tribunal do cancelamento a cada declaração. O que seria de nós sem os “cancelados”? Afinal, ser exige muito. E se a gente pudesse transformar o cancelamento em divertimento? Em livramento. Em música. Que honra ser do tempo em que ainda não havia para mim, Rita Lee. O que seria de nós sem Clarices, Ritas, Virginias, Machados? Acho que no tempo do cancelamento, a gente nem tinha nascido. Se eu fosse eu, talvez fosse cancelada. É uma pergunta? Desculpe, não vou responder. 

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Trecho da entrevista dada ao jornalista Júlio Lerner, na Tv Cultura, em 1977

Trecho da entrevista dada ao jornalista Júlio Lerner, na Tv Cultura, em 1977

Carmen Farão/Renata Chiarantano
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