Análise: A hipocrisia não conhece limites
Nos Estados Unidos, um filme sobre o aborto recebeu classificação 18 anos, embora vários estados americanos permitam que garotas de 13 abortem sem o consentimento dos pais
Patricia Lages|Do R7

Em 29 de março estreou nos Estados Unidos o filme “Unplanned” – “Não planejados”, em tradução livre – ainda sem título em português, que conta a história real de Abby Johnson, ex-diretora da Planned Parenthood, a maior clínica de aborto dos Estados Unidos.
Johnson trabalhou na Planned Parenthood durante oito anos, começando como voluntária, efetivando-se como conselheira e, mais tarde, chegando ao cargo de diretora. A clínica prosperava sob sua direção, aumentando consideravelmente o número de abortos a cada ano, até que ela assistiu um procedimento por ultrassom em 2009. Uma semana depois, Abby Johnson demitiu-se.
“Minha vida mudou para sempre. Me demiti da Planned Parenthood, pois não encontrei justificativas para aquelas imagens. Não conseguia parar de pensar no bebê que vi na tela e no que havia acontecido”, descreve.
O filme retrata o que Johnson viu nas imagens de ultrassom e sua trajetória de ex-diretora da maior clínica americana de abortos a ativista pró-vida. Independentemente das polêmicas e discussões que o tema poderá levantar, a grande surpresa em relação ao filme foi ter recebido a classificação “R rating”, ou seja, ser considerado impróprio para menores de 18 anos.
“Unplanned” não traz linguagem obscena nem cenas de sexo, nudez ou violência, mas, ainda assim, só poderá ser visto por menores de 18 anos com o consentimento ou acompanhamento dos pais. A hipocrisia chega a um limite inimaginável quando comparada ao fato de que, em vários estados americanos, meninas de 13 anos podem abortar sem o consentimento ou a presença dos pais.
Como justificar uma lei que proíbe menores de idade de ver como é, na prática, um aborto, mas permite que se submetam ao procedimento? Até quando iremos aturar essa sociedade hipócrita? Até quando viveremos em um mundo que se preocupa muito mais em ser politicamente correto do que verdadeiramente correto? Até quando vamos maquiar a realidade e fingir que não vemos o que acontece debaixo dos nossos narizes?
Crianças e adolescentes podem ser submetidos a todo tipo de violência, podem ouvir músicas com letras obscenas, podem ser incentivados a iniciar sua vida sexual cada vez mais cedo e podem ser expostas a todo tipo de imagem sensual sem a necessidade de passar por nenhum critério de avaliação. Essa sociedade não poupa nada nem ninguém e só se manifesta quando o assunto é a exposição da verdade. Até quando?
Patricia Lages
É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo, palestrante e conferencista do evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard. Apresenta quadros de economia na TV Gazeta e Record TV e é facilitadora da RME para o programa mundial WomenWill – Cresça com o Google.













