Análise: Sobre injustiça, igualdade e meritocracia
Há quem defenda que a justiça acontece quando todos têm igualdade de oportunidades e que meritocracia é um discurso de quem nunca passou por dificuldades. Será?
Patricia Lages|Do R7
Para analisar o assunto é preciso, antes de mais nada, conhecer a definição real de cada palavra, ou seja, o que elas significam de fato e não o que cada pessoa acredita que sejam.
Justiça é “a qualidade do que está em conformidade com o que é direito, com o que é justo, o reconhecimento do mérito de alguém ou de algo.” Igualdade é o “fato de não se apresentar diferença de qualidade ou valor, ou de, numa comparação, mostrarem-se as mesmas proporções, dimensões, naturezas, aparências, intensidades.” E meritocracia é o “sistema de recompensa fundamentado no mérito pessoal.”
Com base no significado de cada palavra, vemos que não há como fazer justiça sem que os méritos de alguém sejam reconhecidos e que a igualdade ocorre quando não há diferença de qualidade, valor e intensidade, entre outras coisas. Portanto, como seria justo que todas as pessoas, independentemente da qualidade, valor e intensidade de seu trabalho recebessem igual recompensa? Ou que, independentemente de seu empenho e desejo, recebessem oportunidades iguais?
Os opositores da meritocracia alegam que quem apresenta um trabalho inferior o faz por não ter tido oportunidades de fazer melhor, enquanto quem faz o melhor é porque recebeu de alguém ou de algo, vantagens sobre os demais. Mas por mais que o discurso pareça interessante e cheio de preocupação social, ele não é verdadeiro, segundo os fatos. Para ilustrar, vou citar apenas dois casos: o do haitiano Guerlinx Doriscard e o meu.

Doriscard chegou ao Brasil em 2013, depois do terremoto que destruiu seu país. Morou na rua, foi explorado no primeiro emprego, mas em vez de posar de vítima, arregaçou as mangas e foi à luta. O resultado é que, em apenas sete anos, o haitiano que nem sequer falava português quando pisou em São Paulo, tem seu pequeno negócio, formou-se em engenharia e hoje busca investimento para seu projeto de fabricação de tijolos ecológicos.
Como não reconhecer seus méritos? Como dizer que só vence quem tem oportunidades quando tudo o que Doriscard recebeu foram dificuldades e obstáculos? Seria justo coloca-lo no mesmo nível de igualdade de quem nasceu falando português, mas está esperando por alguma cota ou facilidade extra? Ele fez por merecer e é justo que tenha reconhecimento.
Eu sou filha de um mecânico cujo vício do álcool impediu de ser pai de fato, e de uma vendedora porta a porta que trabalhava dia e noite apenas para colocar um pouco de comida na mesa. Por toda infância estive abaixo do peso por falta de alimento, não tive livros para estudar e frequentei escola pública, onde sofri bullying e tive de me defender sozinha. Durante parte da vida não tive nem sequer uma cama, mas o que nunca me faltou foi o desejo de vencer. Jamais aceitei o rótulo de vítima, nem usei minha condição desfavorável como desculpa. Eu não tive as mesmas oportunidades de muitos, mas não precisei delas, porque quem quer faz, quem não quer, dá desculpas.
Patricia Lages
É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta o quadro "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patricia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.













